×

Nós usamos os cookies para ajudar a melhorar o LingQ. Ao visitar o site, você concorda com a nossa política de cookies.


image

Cinco Minutos de José de Alencar, Cinco Minutos - José de Alencar - Capítulo 4

Cinco Minutos - José de Alencar - Capítulo 4

Capítulo 4 de Cinco Minutos. Esta é uma gravação LibriVox, todas as gravações LibriVox estão em domínio público. Para mais informações ou para ser um voluntário, por favor, visite librivox.org. Gravado por Vicente.

Cinco Minutos de José de Alencar. Capítulo 4

A noite estava escura. Era uma dessas noites de Petrópolis, envoltas em nevoeiro e cerração. Caminhávamos mais pelo tato do que pela vista, dificilmente distinguíamos os objetos a uma pequena distância; e muitas vezes, quando o meu guia se apressava, o seu vulto perdia‑se nas trevas. Em alguns minutos chegamos em face de um pequeno edifício construído a alguns passos do alinhamento, e cujas janelas estavam esclarecidas por uma luz interior. É ali. ‑ Obrigado. O criado voltou e eu fiquei junto dessa casa, sem saber o que ia fazer. A idéia de que estava perto dela, que via a luz que a esclarecia, que tocava a relva que ela pisara, fazia‑me feliz. É coisa singular, minha prima! O amor que é insaciável e exigente e não se satisfaz com tudo quanto uma mulher pode dar, que deseja o impossível, às vezes contenta‑se com um simples gozo d'alma, com uma dessas emoções delicadas, com um desses nadas, dos quais o coração faz um mundo novo e desconhecido. Não pense, porém, que eu fui a Petrópolis só para contemplar com enlevo as janelas de um chalé; não; ao passo que sentia esse prazer, refletia no meio de vê‑la e de falar‑lhe. Mas como?... Se soubesse todos os expedientes, cada qual mais extravagante, que inventou a minha imaginação! Se visse a elaboracão tenaz a que se entregava o meu espírito para descobrir um meio de dizer‑lhe que eu estava ali e a esperava! Por fim achei um; se não era o melhor, era o mais pronto. Desde que chegara, tinha ouvido uns prelúdios de piano, mas tão débeis que pareciam antes tirados por uma mão distraída que roçava o teclado, do que por uma pessoa que tocasse. Isto me fez lembrar que ao meu amor se prendia a recordação de uma bela música de Verdi; e foi quanto bastou. Cantei, minha prima, ou antes assassinei aquela linda romanza; os que me ouvissem tomar‑me‑iam por algum furioso; mas ela me compreenderia. E de fato, quando eu acabei de estropiar esse trecho magnífico de harmonia e sentimento, o piano, que havia emudecido, soltou um trilo brilhante e sonoro, que acordou os ecos adormecidos no silêncio da noite. Depois daquela cascata de sons majestosos, que se precipitavam em ondas de harmonia do seio daquele turbilhão de notas que se cruzavam, deslizou plangente, suave e melancólica uma voz que sentia e palpitava, exprimindo todo o amor que respira a melodia sublime de Verdi. Era ela que cantava! Oh! não posso pintar‑lhe, minha prima, a expressão profundamente triste, a angústia de que ela repassou aquela frase de despedida : Non ti scordar di me. Addio!...

Partia‑me a alma. Apenas acabou de cantar, vi desenhar‑se uma sombra em uma das janelas; saltei a grade do jardim; mas as venezianas descidas não me permitiam ver o que se passava na sala. Sentei‑me sobre uma pedra e esperei. Não se ria, D... ; estava resolvido a passar ali a noite ao relento, olhando para aquela casa e alimentando a esperança de que ela viria ao menos com uma palavra compensar o meu sacrifício. Não me enganei. Havia meia hora que a luz da sala tinha desaparecido e que toda a casa parecia dormir, quando se abriu uma das portas do jardim e eu vi ou antes pressenti a sua sombra na sala. Recebeu‑me com surpresa, sem temor, naturalmente, e como se eu fosse seu irmão ou seu marido. É porque o amor puro tem bastante delicadeza e bastante confiança para dispensar o falso pejo, o pudor de convenção de que às vezes costumam cercá‑lo. ‑ Eu sabia que sempre havias de vir, disse‑me ela. ‑ Oh! não me culpes! se soubesses! ‑ Eu culpar‑te? Quando mesmo não viesses, não tinha o direito de queixar‑me. ‑ Por que não me amas! ‑ Pensas isto? disse‑me com uma voz cheia de lágrimas. ‑ Não! não!... Perdoa! Perdôo‑te, meu amigo, como já te perdoei uma vez; julgas que te fujo, que me oculto de ti, porque não te amo e, entretanto, não sabes que a maior felicidade para mim seria poder dar‑te a minha vida. ‑ Mas então por que esse mistério? ‑ Esse mistério, bem sabes, não é uma coisa criada por mim e sim pelo acaso ; se o conservo, é porque, meu amigo..., tu não me deves amar. ‑ Não te devo amar! Mas eu amo‑te!... Ela recostou a cabeça ao meu ombro e eu senti uma lágrima cair sobre meu seio. Estava tão perturbado, tão comovido dessa situação incompreensível, que me senti vacilar e deixei‑me cair sobre o sofá. Ela sentou‑se junto de mim; e, tomando‑me as duas mãos, disse‑me um pouco mais calma: ‑ Tu dizes que me amas! ‑ Juro‑te! ‑ Não te iludes talvez? ‑ Se a vida não é uma ilusão, respondi, penso que não, porque a minha vida agora és tu, ou antes, a tua sombra. ‑ Muitas vezes toma‑se um capricho por amor; tu não conheces de mim, como dizes, senão a minha sombra!... ‑ Que me importa?.. ‑ E se eu fosse feia? disse ela, rindo. ‑ Tu és bela como um anjo! Tenho toda a certeza. ‑ Quem sabe? ‑ Pois bem; convence‑me, disse eu, passando‑lhe o braço pela cintura e procurando levá‑la para uma sala vizinha, donde filtravam os raios de uma luz. Ela desprendeu‑se do meu braço. A sua voz tornou‑se grave e triste. ‑ Escuta, meu amigo ; falemos seriamente. Tu dizes que me amas ; eu o creio, eu o sabia antes mesmo que me dissesses. As almas como as nossas quando se encontram, se reconhecem e se compreendem. Mas ainda é tempo; não julgas que mais vale conservar uma doce recordação do que entregar‑se a um amor sem esperança e sem futuro?... ‑ Não, mil vezes não! Não entendo o que queres dizer; o meu amor, o meu, não precisa de futuro e de esperança, porque o tem em si, porque viverá sempre!... ‑ Eis o que eu temia; e, entretanto, eu sabia que assim havia de acontecer ; quando se tem a tua alma, ama‑se uma só vez. ‑‑ Então por que exiges de mim um sacrifício que sabes ser impossível? ‑‑ Porque, disse ela com exaltação, porque, se há uma felicidade indefinível em duas almas que ligam sua vida, que se confundem na mesma existência, que só têm um passado e um futuro para ambas, que desde a flor da idade até à velhice caminham juntas para o mesmo horizonte, partilhando os seus prazeres e as suas mágoas, revendo‑se uma na outra até o momento em que batem as asas e vão abrigar‑se no seio de Deus, deve ser cruel, bem cruel, meu amigo, quando, tendo‑se apenas encontrado, uma dessas duas almas irmãs fugir deste mundo, e a outra, viúva e triste, for condenada a levar sempre no seu seio uma idéia de morte, a trazer essa recordação, que, como um crepe de luto, envolverá a sua bela mocidade, a fazer do seu coração, cheio de vida e de amor, um túmulo para guardar as cinzas do passado! Oh! deve ser horrível!... A exaltação com que falava tinha‑se tornado uma espécie de delírio; sua voz, sempre tão doce e aveludada, parecia alquebrada pelo cansaço da respiração. Ela caiu sobre o meu seio, agitando‑se convulsivamente em um acesso de tosse.

Fim do capítulo 4.

Cinco Minutos - José de Alencar - Capítulo 4 Fünf Minuten - José de Alencar - Kapitel 4 Five Minutes - José de Alencar - Chapter 4 Cinco minutos - José de Alencar - Capítulo 4 Cinq minutes - José de Alencar - Chapitre 4 Cinque minuti - José de Alencar - Capitolo 4 Beş Dakika - José de Alencar - Bölüm 4 П'ять хвилин - Хосе де Аленкар - Розділ 4 五分钟 - 何塞·德·阿伦卡尔 - 第 4 章

Capítulo 4 de Cinco Minutos. Chapter 4 of Five Minutes. Esta é uma gravação LibriVox, todas as gravações LibriVox estão em domínio público. This is a LibriVox recording, all LibriVox recordings are in the public domain. Para mais informações ou para ser um voluntário, por favor, visite librivox.org. Gravado por Vicente.

Cinco Minutos de José de Alencar. Capítulo 4

A noite estava escura. Era uma dessas noites de Petrópolis, envoltas em nevoeiro e cerração. Es war eine dieser Nächte in Petrópolis, eingehüllt in Nebel und Nebel. It was one of those nights in Petropolis, shrouded in mist and fog. Caminhávamos mais pelo tato do que pela vista, dificilmente distinguíamos os objetos a uma pequena distância; e muitas vezes, quando o meu guia se apressava, o seu vulto perdia‑se nas trevas. Wir gingen mehr durch den Tastsinn als durch den Augenschein, wir konnten kaum Gegenstände in geringer Entfernung unterscheiden, und oft, wenn mein Führer weiterlief, verlor sich seine Gestalt in der Dunkelheit. We walked more by touch than by sight, we could scarcely distinguish objects at a short distance; and many times, when my guide was hurrying, his form was lost in the darkness. Em alguns minutos chegamos em face de um pequeno edifício construído a alguns passos do alinhamento, e cujas janelas estavam esclarecidas por uma luz interior. In wenigen Minuten kamen wir vor einem kleinen Gebäude an, das ein paar Schritte von der Fluchtlinie entfernt gebaut war und dessen Fenster von einer Innenbeleuchtung erhellt wurden. In a few minutes we arrived in front of a small building built a few steps from the alignment, and whose windows were illuminated by an interior light. En pocos minutos llegamos frente a un pequeño edificio construido a pocos pasos de la alineación, cuyas ventanas estaban iluminadas por una luz interior. É ali. Es ist dort drüben. It's there. Está ahí. ‑ Obrigado. - Thank you. - Gracias. O criado voltou e eu fiquei junto dessa casa, sem saber o que ia fazer. Der Diener kam zurück, und ich stand bei dem Haus und wusste nicht, was ich tun sollte. The servant came back and I stayed by this house, not knowing what I was going to do. A idéia de que estava perto dela, que via a luz que a esclarecia, que tocava a relva que ela pisara, fazia‑me feliz. Die Vorstellung, ihr nahe zu sein, das Licht zu sehen, das sie erleuchtet hat, das Gras zu berühren, auf dem sie gegangen ist, machte mich glücklich. The thought that I was near her, seeing the light that illuminated her, touched the grass she had stepped on, made me happy. É coisa singular, minha prima! Das ist etwas Einzigartiges, mein Cousin! It is a singular thing, my cousin! O amor que é insaciável e exigente e não se satisfaz com tudo quanto uma mulher pode dar, que deseja o impossível, às vezes contenta‑se com um simples gozo d'alma, com uma dessas emoções delicadas, com um desses nadas, dos quais o coração faz um mundo novo e desconhecido. Die Liebe, die unersättlich und anspruchsvoll ist und sich nicht mit allem zufrieden gibt, was eine Frau geben kann, die das Unmögliche will, begnügt sich manchmal mit einer einfachen Freude der Seele, mit einem dieser zarten Gefühle, mit einem dieser Nichts, aus dem das Herz eine neue und unbekannte Welt schafft. Love that is insatiable and demanding and is not satisfied with all that a woman can give, that desires the impossible, sometimes settles for a simple joy of the soul, with one of those delicate emotions, with one of those nothings, from which the heart creates a new and unknown world. El amor que es insaciable y exigente y no se satisface con todo lo que una mujer puede dar, que desea lo imposible, a veces se conforma con una simple alegría del alma, con una de esas emociones delicadas, con una de esas nada, de las cuales el corazón crea un mundo nuevo y desconocido. Não pense, porém, que eu fui a Petrópolis só para contemplar com enlevo as janelas de um chalé; não; ao passo que sentia esse prazer, refletia no meio de vê‑la e de falar‑lhe. Glauben Sie aber nicht, dass ich nur nach Petrópolis gefahren bin, um verzückt auf die Fenster eines Chalets zu schauen; nein, während ich diese Freude empfand, dachte ich über die Möglichkeit nach, sie zu sehen und mit ihr zu sprechen. But do not think that I went to Petropolis just to contemplate with delight the windows of a chalet; no; while I felt this pleasure, I reflected in the midst of seeing her and speaking to her. No pienses, sin embargo, que fui a Petrópolis solo para contemplar con deleite las ventanas de una cabaña; no; mientras sentía ese placer, reflexionaba en medio de verla y hablarle. Mas como?... Aber wie? But how?... ¿Pero cómo?... Se soubesse todos os expedientes, cada qual mais extravagante, que inventou a minha imaginação! Wenn ich nur wüsste, was sich meine Phantasie alles ausgedacht hat, eine nach der anderen! ¡Si supieras todos los artificios, cada uno más extravagante, que inventó mi imaginación! Se visse a elaboracão tenaz a que se entregava o meu  espírito para descobrir um meio de dizer‑lhe que eu estava ali e a esperava! Wenn du nur sehen könntest, wie hartnäckig ich nach einer Möglichkeit suchte, ihr zu sagen, dass ich da war und auf sie wartete! Por fim achei um; se não era o melhor, era o mais pronto. Schließlich fand ich eine, die zwar nicht die beste, aber die bereiteste war. Desde que chegara, tinha ouvido uns prelúdios de piano, mas tão débeis que pareciam antes tirados por uma mão distraída que roçava o teclado, do que por uma pessoa que tocasse. Seit seiner Ankunft hatte er einige Klaviervorspiele gehört, die aber so schwach waren, dass sie eher von einer abwesenden Hand, die über die Tastatur rieb, als von einer spielenden Person aufgenommen worden zu sein schienen. Since arriving, he had heard some piano preludes, but so faint they seemed to be taken by an absent-minded hand brushing the keyboard rather than by a person playing. Isto me fez lembrar que ao meu amor se prendia a recordação de uma bela música de Verdi; e foi quanto bastou. Das erinnerte mich daran, dass die Erinnerung an ein schönes Lied von Verdi mit meiner Liebe verbunden war, und das war genug. This reminded me that my love was linked to the memory of a beautiful song by Verdi; and that was enough. Cantei, minha prima, ou antes assassinei aquela linda romanza; os que me ouvissem tomar‑me‑iam por algum furioso; mas ela me compreenderia. Ich habe gesungen, meine Cousine, oder besser gesagt, ich habe diese schöne Romanze ermordet; wer mich hörte, würde mich für einen wütenden Menschen halten; aber sie würde mich verstehen. I sang, my cousin, or rather I murdered that beautiful romance; those who heard me would take me for someone furious; but she would understand me. E de fato, quando eu acabei de estropiar esse trecho magnífico de harmonia e sentimento, o piano, que havia emudecido, soltou um trilo brilhante e sonoro, que acordou os ecos adormecidos no silêncio da noite. Und tatsächlich, als ich diese herrliche Passage der Harmonie und des Gefühls zu Ende geklopft hatte, ließ das Klavier, das verstummt war, einen hellen und klangvollen Triller erklingen, der die schlafenden Echos in der Stille der Nacht weckte. And indeed, when I had just crippled this magnificent stretch of harmony and feeling, the piano, which had fallen silent, let out a brilliant, sonorous trill, which awakened the dormant echoes in the silence of the night. Depois daquela cascata de sons majestosos, que se precipitavam em ondas de harmonia do seio daquele turbilhão de notas que se cruzavam, deslizou plangente, suave e melancólica uma voz que sentia e palpitava, exprimindo todo o amor que respira a melodia sublime de Verdi. Nach dieser Kaskade majestätischer Klänge, die in Wellen der Harmonie aus dem Schoß dieses Wirbelsturms sich kreuzender Töne strömten, glitt sanft, weich und melancholisch eine Stimme, die fühlte und klopfte und die ganze Liebe ausdrückte, die in Verdis erhabener Melodie atmet. After that cascade of majestic sounds, which rushed in waves of harmony from the bosom of that whirlwind of intersecting notes, glided plaintive, smooth and melancholy a voice that felt and throbbed, expressing all the love that breathes the sublime melody of Verdi. Tras aquella cascada de sonidos majestuosos, que se precipitaban en oleadas de armonía desde el centro de aquel torbellino de notas que se cruzaban, llegó una voz plangente, suave y melancólica que sentía y palpitaba, expresando todo el amor que respira la sublime melodía de Verdi. Era ela que cantava! Sie war diejenige, die gesungen hat! Oh! não posso pintar‑lhe, minha prima, a expressão profundamente triste, a angústia de que ela repassou aquela frase de despedida :  Non ti scordar di me. Ich kann dir, mein Cousin, nicht den tieftraurigen Ausdruck, die Angst malen, mit der sie diesen Abschiedsgruß weitergab: Non ti scordar di me. I cannot paint you, my cousin, the profoundly sad expression, the anguish with which she replayed that parting sentence: Non ti scordar di me. Addio!... Addio!...

Partia‑me a alma. Das hat mir die Seele gebrochen. Apenas acabou de cantar, vi desenhar‑se uma sombra em uma das janelas; saltei a grade do jardim; mas as venezianas descidas não me permitiam ver o que se passava na sala. Sobald er zu Ende gesungen hatte, sah ich einen Schatten auf einem der Fenster; ich sprang über das Gartengeländer, aber die heruntergelassenen Fensterläden erlaubten mir nicht zu sehen, was in dem Raum geschah. Sentei‑me sobre uma pedra e esperei. Ich setzte mich auf einen Felsen und wartete. Não se ria, D... ; estava resolvido a passar ali a noite ao  relento, olhando para aquela casa e alimentando a esperança  de que ela viria ao menos com uma palavra compensar o meu sacrifício. Lachen Sie nicht, Mademoiselle. Ich war entschlossen, die Nacht dort unter freiem Himmel zu verbringen, dieses Haus zu betrachten und zu hoffen, dass sie wenigstens mit einem Wort kommen würde, um mein Opfer zu entschädigen. Don't laugh, D... ; I was determined to spend the night there in the open, looking at that house and hoping that it would at least come with a word to make up for my sacrifice. Não me enganei. Ich habe mich nicht geirrt. Havia meia hora que a luz da sala tinha desaparecido e que toda a casa parecia dormir, quando se abriu uma das portas do jardim e eu vi ou antes pressenti a sua sombra na sala. Es dauerte eine halbe Stunde, bis das Licht im Wohnzimmer verschwunden war und das ganze Haus zu schlafen schien, als sich eine der Gartentüren öffnete und ich seinen Schatten im Wohnzimmer sah oder vielmehr spürte. Recebeu‑me com surpresa, sem temor, naturalmente, e como se eu fosse seu irmão ou seu marido. Er empfing mich mit Überraschung, ohne Angst, natürlich, als wäre ich sein Bruder oder sein Ehemann. É porque o amor puro tem bastante delicadeza e bastante confiança para dispensar o falso pejo, o pudor de convenção de que às vezes costumam cercá‑lo. Denn die reine Liebe hat genug Feingefühl und Selbstvertrauen, um auf das falsche Mitleid, die Bescheidenheit der Konvention zu verzichten, die sie manchmal umgibt. Es porque el amor puro es lo bastante delicado y confiado como para prescindir de la falsa vergüenza, del pudor de las convenciones que a veces lo rodean. ‑ Eu sabia que sempre havias de vir, disse‑me ela. - Ich wusste, dass du immer kommen würdest, sagte sie mir. - I knew you would always come, she told me. ‑ Oh! não me culpes! Geben Sie nicht mir die Schuld! don't blame me! se soubesses! wenn du nur wüsstest! if you only knew! ‑ Eu culpar‑te? - Kann ich es Ihnen verdenken? - Do I blame you? Quando mesmo não viesses, não tinha o direito de queixar‑me. Als du nicht einmal gekommen bist, hatte ich kein Recht, mich zu beschweren. When you didn't even come, I had no right to complain. ‑ Por que não me amas! - Warum liebst du mich nicht? - Why don't you love me! ‑ Pensas isto? - Glauben Sie das? - Do you think so? disse‑me com uma voz cheia de lágrimas. sagte sie mit tränenerstickter Stimme zu mir. he told me in a voice full of tears. ‑ Não! não!... Perdoa! Perdôo‑te, meu amigo, como já te perdoei uma vez; julgas que te fujo, que me oculto de ti, porque não te amo e, entretanto, não sabes que a maior felicidade para mim seria poder dar‑te a minha vida. Ich verzeihe dir, mein Freund, wie ich dir schon einmal verziehen habe; du denkst, ich laufe vor dir weg, ich verstecke mich vor dir, weil ich dich nicht liebe, und doch weißt du nicht, dass das größte Glück für mich wäre, dir mein Leben schenken zu können. I forgive you, my friend, as I have forgiven you once; you think that I run away from you, that I hide myself from you, because I don't love you, and yet you don't know that the greatest happiness for me would be to be able to give you my life. ‑ Mas então por que esse mistério? - Aber warum dann das Geheimnis? ‑ Esse mistério, bem sabes, não é uma coisa criada por mim e sim pelo acaso ; se o conservo, é porque, meu amigo..., tu não me deves amar. - Dieses Geheimnis, das weißt du, ist nicht von mir geschaffen, sondern zufällig; wenn ich es behalte, dann deshalb, weil du mich nicht lieben darfst, mein Freund... - This mystery, as you well know, is not something created by me, but by chance; if I keep it, it's because, my friend... you must not love me. ‑ Não te devo amar! - Ich darf dich nicht lieben! - I must not love you! Mas eu amo‑te!... Aber ich liebe dich! But I love you!... Ela recostou a cabeça ao meu ombro e eu senti uma lágrima cair sobre meu seio. Sie lehnte ihren Kopf an meine Schulter und ich spürte, wie eine Träne auf meine Brust fiel. She leaned her head on my shoulder and I felt a tear fall on my breast. Estava tão perturbado, tão comovido dessa situação incompreensível, que me senti vacilar e deixei‑me cair sobre o sofá. Ich war so aufgewühlt, so ergriffen von dieser unbegreiflichen Situation, dass ich spürte, wie ich ins Wanken geriet und mich auf das Sofa fallen ließ. Ela sentou‑se junto de mim; e, tomando‑me as duas mãos, disse‑me um pouco mais calma: ‑ Tu dizes que me amas! Sie setzte sich neben mich, nahm meine beiden Hände und sagte etwas ruhiger: "Du sagst, dass du mich liebst!". She sat down next to me and, taking both my hands, said a little more calmly: - You say you love me! ‑ Juro‑te! - Ich schwöre es dir! - I swear! ‑ Não te iludes talvez? - Machen Sie sich vielleicht etwas vor? - Are you not deluded perhaps? ‑ Se a vida não é uma ilusão, respondi, penso que não, porque a minha vida agora és tu, ou antes, a tua sombra. - Wenn das Leben keine Illusion ist, antwortete ich, dann glaube ich das nicht, denn mein Leben bist jetzt du, oder vielmehr dein Schatten. - If life is not an illusion, I replied, I think not, because my life now is you, or rather your shadow. ‑ Muitas vezes toma‑se um capricho por amor; tu não conheces de mim, como dizes, senão a minha sombra!... - Oft wird eine Laune für Liebe gehalten; du weißt nichts von mir, wie du sagst, aber mein Schatten.... - Often a whim is taken for love; you don't know me, as you say, but my shadow!... ‑ Que me importa?.. - Was kümmert mich das? - What do I care? ‑ E se eu fosse feia? - Was wäre, wenn ich hässlich wäre? - What if I was ugly? disse ela, rindo. sagte sie und lachte. she said, laughing. ‑ Tu és bela como um anjo! - Du bist schön wie ein Engel! - You are beautiful like an angel! Tenho toda a certeza. Da bin ich mir sicher. I'm quite sure. ‑ Quem sabe? - Wer weiß? - Who knows? ‑ Pois bem; convence‑me, disse eu, passando‑lhe o braço pela cintura e procurando levá‑la para uma sala vizinha, donde filtravam os raios de uma luz. - Nun, überzeugen Sie mich", sagte ich, legte meinen Arm um ihre Taille und versuchte, sie in ein benachbartes Zimmer zu führen, aus dem ein Lichtstrahl drang. - Well, convince me," I said, putting my arm around her waist and trying to lead her into a neighboring room, where the rays of a light were filtering in. Ela desprendeu‑se do meu braço. Sie löste sich von meinem Arm. She disengaged herself from my arm. A sua voz tornou‑se grave e triste. Seine Stimme wurde tief und traurig. ‑ Escuta, meu amigo ; falemos seriamente. - Hören Sie, mein Freund, lassen Sie uns ernsthaft miteinander reden. - Listen, my friend; let's talk seriously. Tu dizes que me amas ; eu o creio, eu o sabia antes mesmo que me dissesses. Du sagst, du liebst mich; ich glaube es, ich wusste es schon, bevor du es mir gesagt hast. You say you love me; I believe it, I knew it even before you told me. As almas como as nossas quando se encontram, se reconhecem e se compreendem. Seelen wie die unsere erkennen und verstehen einander, wenn sie sich begegnen. Mas ainda é tempo; não julgas que mais vale conservar uma doce recordação do que entregar‑se a um amor sem esperança e sem futuro?... Aber es ist noch Zeit; meinst du nicht, dass es besser ist, eine schöne Erinnerung zu bewahren, als sich einer Liebe ohne Hoffnung und ohne Zukunft hinzugeben? But there is still time; Don't you think it's better to keep a sweet memory than to surrender to a love without hope and without a future?... ‑ Não, mil vezes não! - Nein, tausendmal nein! - No, a thousand times no! Não entendo o que queres dizer; o meu amor, o meu, não precisa de futuro e de esperança, porque o tem em si, porque viverá sempre!... Ich verstehe nicht, was du meinst; meine Liebe, meine, braucht keine Zukunft und keine Hoffnung, denn sie hat sie in sich selbst, denn sie wird immer leben!.... I don't understand what you mean; my love, mine, doesn't need a future and hope, because it has it in itself, because it will always live!... ‑ Eis o que eu temia; e, entretanto, eu sabia que assim havia de acontecer ; quando se tem a tua alma, ama‑se uma só vez. - Das habe ich befürchtet, und doch wusste ich, dass es passieren würde; wenn man seine Seele hat, liebt man nur einmal. - This is what I feared, and yet I knew it would happen; when you have your soul, you love only once. ‑‑ Então por que exiges de mim um sacrifício que sabes ser impossível? -- Warum verlangst du dann von mir ein Opfer, von dem du weißt, dass es unmöglich ist? -- Then why do you demand of me a sacrifice that you know is impossible? ‑‑ Porque, disse ela com exaltação, porque, se há uma felicidade indefinível em duas almas que ligam sua vida, que se confundem na mesma existência, que só têm um passado e um futuro para ambas, que desde a flor da idade até à velhice caminham juntas para o mesmo horizonte, partilhando os seus prazeres e as suas mágoas, revendo‑se uma na outra até o momento em que batem as asas e vão abrigar‑se no seio de Deus, deve ser cruel, bem cruel, meu amigo, quando, tendo‑se apenas encontrado, uma dessas duas almas irmãs fugir deste mundo, e a outra, viúva e triste, for condenada a levar sempre no seu seio uma idéia de morte, a trazer essa recordação, que, como um crepe de luto, envolverá a sua bela mocidade, a fazer do seu coração, cheio de vida e de amor, um túmulo para guardar as cinzas do passado! -- "Nun", sagte sie mit Begeisterung, "nun, wenn es ein undefinierbares Glück für zwei Seelen gibt, die ihr Leben miteinander verbinden, die in dasselbe Dasein übergehen, die nur eine Vergangenheit und eine Zukunft für beide haben, die von der Blüte des Alters bis zum Greisenalter gemeinsam auf denselben Horizont zugehen, ihre Freuden und ihre Sorgen teilen und sich wiedersehen bis zu dem Augenblick, wo sie mit den Flügeln schlagen und sich in den Schoß Gottes begeben, Es muss grausam sein, sehr grausam, mein Freund, wenn eine dieser beiden Seelenschwestern, die sich gerade erst kennengelernt haben, aus dieser Welt flieht, und die andere, verwitwet und traurig, dazu verurteilt ist, immer eine Vorstellung vom Tod in ihrem Schoß zu tragen, die Erinnerung zu tragen, die wie ein Trauerkrepp ihre schöne Jugend umhüllen wird, aus ihrem Herzen, das voller Leben und Liebe ist, ein Grab zu machen, in dem die Asche der Vergangenheit ruht! ‑‑ Because, she said excitedly, because, if there is an indefinable happiness in two souls that link their lives, that are confused in the same existence, that have only a past and a future for both of them, that from the prime of life to the old age walk together towards the same horizon, sharing their pleasures and their sorrows, seeing each other again until the moment when they flap their wings and go to shelter in the bosom of God, it must be cruel, very cruel, my friend , when, having barely met, one of these two sister souls flees this world, and the other, a widow and sad, is condemned to always carry in her bosom an idea of death, to bring that memory, which, like a crepe of mourning, will envelop her beautiful youth, making her heart, full of life and love, a tomb to store the ashes of the past! -- "Porque sí", dijo ella con exaltación, "porque si hay una felicidad indefinible en dos almas que enlazan sus vidas, que se funden en una misma existencia, que no tienen más que un pasado y un futuro para ambas, que desde la flor de la edad hasta la vejez caminan juntas hacia el mismo horizonte, compartiendo sus placeres y sus penas, volviéndose a ver hasta el momento en que agitan sus alas y van a refugiarse en el seno de Dios, ¡debe ser cruel, muy cruel, amigo mío, cuando, apenas conocidas, una de esas dos almas hermanas huye de este mundo, y la otra, viuda y triste, se ve condenada a llevar siempre en su seno una idea de la muerte, a cargar con ese recuerdo que, como un crespón de luto, envolverá su hermosa juventud, a hacer de su corazón, lleno de vida y de amor, una tumba para guardar las cenizas del pasado! Oh! deve ser horrível!... it must be awful! A exaltação com que falava tinha‑se tornado uma espécie de delírio; sua voz, sempre tão doce e aveludada, parecia alquebrada pelo cansaço da respiração. Die Begeisterung, mit der sie sprach, war zu einer Art Delirium geworden; ihre Stimme, die immer so süß und samtig war, schien durch die Ermüdung des Atems gebrochen zu sein. The exaltation with which he spoke had turned into a kind of delirium; his voice, always so sweet and velvety, seemed to be broken by the fatigue of breathing. Ela caiu sobre o meu seio, agitando‑se convulsivamente em um acesso de tosse. Sie brach an meiner Brust zusammen und bekam einen krampfhaften Hustenanfall. She fell onto my breast, convulsively shaking in a fit of coughing.

Fim do capítulo 4.