REFÉM - EPISÓDIO 2 DE 5 (1)
São apenas três aplicações diárias na sua gengiva, durante um ano,
e seu hálito vai passar a ser de tutti-frutti.
É uma maravilha. Uma inovação, não é mesmo, Juliana?
O cheiro é muito bom! Parece que ela está com um chiclete na boca.
Bom, agora vamos falar de assunto sério,
vamos falar de coisa séria.
No programa de hoje, vamos acompanhar o drama
de Jordana Dias, ela que é esposa do herói da Expresso Nilo.
-Tudo bem, Jordana? -Boa tarde, Betina.
Ô, querida...
-Obrigada, viu? -Obrigada, eu.
Fica à vontade.
Jordana, conta aqui pra gente
como é que está sendo lidar com esse sofrimento?
Olha, Betina, está muito difícil.
Você já fez algum outro contato com o Rogério?
Então, não. Eu tentei ligar, ele não atendeu.
E agora eu estou com medo que os sequestradores
tenham feito alguma coisa com ele, Betina.
É uma vergonha a violência que assola esse país.
É uma vergonha! Tem que matar, sabe, Jordana. Tem que matar!
-Quem? -Bandido, tem que matar!
Não sei se matar, né...
De maneira que a pessoa prefere ver o marido morto
do que o bandido atrás das grades, que é onde ele tem que estar!
Não, eu quero o bandido atrás das grades.
Justamente isso que eu estou falando.
Cadê a polícia pra colocar esse meliante na mão da população,
pra que ela faça seu linchamento?
Eu faço um apelo aqui às autoridades que liberem essa criatura
pra que a população faça sua justiça,
porque aí o bandido vai ter medo. E é importante o bandido ter medo!
Não... Não... Não.
Desculpa, você prefere o perdão do bandido?
É isso que você está dizendo pro Brasil?
Não, só quero o meu marido de volta.
Ela quer o marido dela de volta! E a gente quer o quê, Brasil?
A gente quer saúde, a gente quer segurança, a gente quer educação,
a gente quer previdência privada, e a gente quer justiça!
Quantos Rogérios...
-vão ter que morrer? -Mas ele não morreu.
Nós não sabemos, né, produção? Não sabemos.
Porque ele não retorna as ligações, ele não faz contato.
O mais provável é que ele tenha sido brutalmente assassinado.
-Não, mas se Deus quiser... -Não coloca Deus no meio, querida,
Deus me livre! Não coloca Deus no meio,
porque Ele é o único que não tem nada a ver com isso.
A prefeitura tem! A prefeitura tem.
Deixa a sociedade à deriva. Tem que dar sabe o quê?
É tiro na testa!
Você já tem alguma clarividente?
-Ei! Tem gente aqui! -Ai, puta que pariu!
Ai, minha Nossa Senhora!
-Espera aí... Ai, ai. -Não, espera aí, moça...
-Ai, que dor no peito... -Não, respira.
Desculpa, moço. Não sabia que tinha gente aqui.
O pessoal lá me avisou que a vagabunda já tinha saído.
Não, a vagabunda realmente saiu, mas eu fiquei no quarto.
Então peço que você, por favor, se retire, tá?
-Desculpa, viu? -Não, fica tranquila.
Não fala pra ninguém lá embaixo, não,
eu não posso perder esse emprego, sabe?
Eu tenho filho, tenho uma mãe gorda, tenho uma tia velha
-que não morre nunca... -Eu não vou falar pra ninguém,
-peço só que você vá embora. -Meu marido é ex-presidiário.
Eu não posso ficar desempregada, moço.
Você não vai ficar, não. Você fica tranquila.
-Não vai perder seu emprego... -Tenho quatro cachorros vira-lata
lá em casa, que os pequenos pegaram na rua, por pena, né?
Mas que, se eu não tiver dinheiro, vou ter que mandar sacrificar.
-Não posso fazer isso. -Tá, eu não vou falar pra ninguém,
fica tranquila! Isso não vai acontecer.
Então vamos se retirando aos pouquinhos...
Espera aí.
-Eu te conheço... -Não, não.
Você não é amigo da Meire, lá do Turano?
-Não, não. -Não?
-Devo parecer com essa pessoa... -É do Bar do Queloide?
Não, também.
-O senhor trabalha na televisão, né? -Eu vou ligar pra recepção.
-Melhor... -Não, tudo bem, tá? Desculpa.
-Eu não quis incomodar. Me perdoe. -Não, não, tudo bem.
-Qual é o seu nome? -Meu nome é Ulisses Guimarães.
PORTA DOS FUNDOS APRESENTA
SEQUESTRO DO ÔNIBUS
REFÉM
Você tem alguma coisa pra dizer pra ele, assim,
-pra onde quer que ele esteja? -Meu Deus do Céu!
Se Deus quiser, não vai ter acontecido nada com ele!
Então, vamos tentar ligar agora pra ele?
-Acho melhor não. -Está chamando, é isso?
-Alô? -Está chamando.
-Mirela? -Estou aqui. E agora?
O que você está vendo?
Eu estou vendo um monte de gente feia, velha, pobre,
que não tem nada o que fazer da vida,
e que está parada em frente ao ônibus que foi sequestrado,
arriscando a própria vida, em vez de trabalhando.
-Mirela... -Eu estou vendo o ônibus, Rogério.
-Tem alguma coisa lá dentro? -Não dá pra ver daqui, Rogério.
-Não fala meu nome alto aí! -Ah, lógico!
Porque só tem um Rogério no mundo,
e esse Rogério está dentro do ônibus.
Sei lá, descobre alguma coisa.
Tenta achar alguma coisa que só quem está aí sabe.
E o que eu poderia descobrir, Rogério?
Eu? Desculpa.
Não fiz nada, não. Estou só olhando mesmo.
-Não estou fazendo nada. -Que maluco, sou eu, Wilson.
Cara, Wilson! Não acredito... Caraca!
-Pô, você sumiu. -Como é que você está?
-Você está fazendo o quê aqui? -Aqui agora?
Aqui agora, nada. Não estou fazendo nada.
Estou vendo esse tumulto, né. Porque eu passei,
estava um tumulto danado. Está acontecendo alguma coisa,
eu parei pra ver o que era. E você?
Eu estou aqui, comandando a operação aqui
-do... negócio aí do... ônibus. -Mentira! Não brinca!
Já descobriram alguma coisa? Como é que está aqui?
Tem uma ideia, né, mas a gente tem um plano bom.
Então conta aí pra mim, policial Wilson,
qual é o teu plano?
-Vem cá, você está gostosa, hein! -Até parece.
Você não era assim da... Anota o meu WhatsApp aí, vai.
Eu tenho o seu número.
-Você tem? -Tenho, daquela época. Eu guardei.
Você não era boa assim. Você fez alguma coisa.
Mentira sua. Você que não prestava atenção.
-Por que a gente terminou, hein? -Porque você me chifrou.
-Eu? -Te peguei na cama com outra.
-Não lembro disso. -Sabe como é que eu lembro?
Porque foi na minha cama.
Na minha casa. Com a minha melhor amiga.
Você estava perguntando da tática, né?
Conta aí, então, da sua tática,
policial Wilson.
-Tu gosta né, sua safada? -Que merda é essa, Mirela?
Tu gosta que eu sou policial, tu gosta que eu uso farda, né?
-Vai se foder! -Vamos jantar hoje?
-Sem dúvida, meu amor. -Mas leva a farda.
-Levo tudo... -Pra gente relembrar,
-brincar um pouquinho... -Fala comigo!
Mas agora a gente podia focar na tática,
que eu estou curiosa. Fala aí.
A tática é coisa simples. A gente vai botar um gás
no escapamento do ônibus, aí esse gás faz todo mundo dormir.
A gente entra, enquadra os meliantes e libera os reféns.
Mas quando é que vocês vão fazer isso?
-O quê? O gás? -O plano, é. É.
Não, o gás está... Aqui, ó, o cara ali botando.
-Estão fazendo agora? -Estão fazendo ali, ó.
Caralho!
Ela está sofrendo, Brasil.
-Uma mãe que... -Não sou mãe, não.
-Uma mulher que pretende ser mãe. -Não quero ter filhos também.
-Mas você tem mãe. -Tenho.
É também o drama de uma mãe de uma mulher
que não quer ter filhos.
Não, minha mãe é supertranquila com isso.
É também o drama de todas as mães brasileiras,
que apoiam, mas sofrem ao verem seus filhos reféns da criminalidade.
-Alô, meu amor? -Parece que temos Rogério na linha,
-é isso, produção? -Meu amor?
-Me ouve? -O Brasil inteiro está te ouvindo,
Rogério, o Brasil inteiro está com você nesse momento de dor,
-de angústia, de sofrimento. -Eu preciso falar com a polícia.
Atenção, Brasil! Atenção, polícia carioca!
Atenção que Rogério vai falar. Fala, Rogério!
Não, é que descobriram todo o plano! Todo o plano!
-Qual plano? -O plano que vocês...
Mas só daqui a pouco, depois do nosso comercial!
-Não, alô, espera aí! Alô? -...vai contar
que plano é esse que a polícia tem. Depois do nosso break.
PROGRAMA DA BETINA
Chefe! Chefe. Tem que abortar a missão, sargento.
-O que aconteceu? -Descobriram nosso plano.
Como é que descobriram a porra do plano, caralho?
Não sei. Eu sei que o tal do refém,
o Rogério, falou em rede nacional agora.
Eles devem ter alguém infiltrado aqui dentro da polícia.
Então só pode ser algum de nós aqui, porra!
-Por quê? -Porque só a gente aqui
sabia da porra do plano, caralho!
-E a Silmara. -Quem é Silmara?
É a mulher dele, que perdeu os documentos.
Por que boceta da puta que me "recontra" pariu
do meu rabo, de um cu de ganso, de uma rola de um demônio,
do meu cu de novo,
você foi contar a porra de um plano secreto da polícia
-pra boceta da Silmara? -Não, assim, ó...
Ela perguntou que horas eu ia chegar,
se eu ia chegar cedo. Aí eu falei que eu não sabia,
porque a gente está fazendo hora extra por causa do sequestro.
Aí ela falou assim: "O que vocês estão fazendo exatamente?"
Porque ela está com ciúme de eu estar traindo ela
com a minha ex, a Bete,
que está até tentando contato comigo,
só que eu estou evitando, né. Aí eu falei assim, pra acalmar ela:
"Não, porque a polícia tem um plano secreto."
Aí ela falou: "Ah, qual plano secreto?"
Só que falei que eu não podia falar, porque o plano é secreto.
Aí ela falou: "Ah, aposto que você vai falar pra Bete,
aquela piranha, desgraçada, aquela rapariga.."
Aí, pra manter meu casamento, eu fui e falei pra ela.
Mas eu falei pra ela guardar segredo.
Assis, você pega uma água ali pra mim, por favor.
Claro.
Eu quero esse filha da puta no Haiti amanhã.
Ele trabalhou dois anos lá como voluntário,
-e voltou de lá contrariado. -Então vou foder ele pessoalmente.
Quero ele trabalhando na minha casa amanhã.
Ele é ex da tua mulher, chefe.
-Merda! -Alô, Mirela?
Pela amor de Deus, eu preciso que você pare essa ação policial!
Não tem como, já está rolando.
Inventa alguma coisa! Eu preciso de cinco minutos aqui.
-O que você quer que eu faça? -Sei lá, grita! Chama atenção.
Lá, lá, lá! Ali, ó. Na janela ali, ó!
O sequestrador é homem-bomba, hein!
-Rogério, você está aí? -Estou.
Fala o que você queria falar pra polícia.
Então, descobriram o plano deles do gás.
Se soltar o gás, vai ter morte aqui.
E o sequestrador vai explodir a bomba?
-Mas que bomba? -Ele não é um homem-bomba?
-Quem? -O sequestrador.
O sequestrador é homem-bomba?
Foram as notícias que chegaram aqui.
-Meu Deus do Céu... -Mas, espera aí,
-vocês viram ele? -Há relatos que sim.
-E como é que ele é? -Bom, na verdade,
você que tem que dizer pra gente, né, Rogério,
-como é que ele é. -É...
Ele... parece um homem-bomba mesmo.
É isso, minha gente. O Talibã chegou no Brasil.
Mas por que vocês falam todos ao mesmo tempo?
Ninguém entende nada que vocês falam.
Eu não tinha nem chegado no microfone,
como é que eu ia responder alguma coisa, pelo amor de Deus?
E eu não vou responder pergunta nenhuma.
Eu vou ler um comunicado.
"É com imensa preocupação que o estado do Rio de Janeiro
entra em alerta vermelho. O esquadrão antibomba,
o exército brasileiro e a Interpol já estão tomando as devidas atitudes
e dentro em breve,
teremos algum tipo de resposta mais específica."
Agora eu vou levantar e vou sair daqui.
E não quero ouvir nenhum pio na minha saída.
Senhor governador?
Quem foi que falou? Quem foi que falou? Quero saber!
Foi você, "Época"? Foi você, "Veja"?
Isso parece coisa da "Carta Capital"!
Quem foi que falou?
Foi da "Folha".
Foi você, "Folha"?
Foi.
Pois então, como punição,
eu vou deixar o repórter do "Estadão"
fazer uma pergunta. "Estadão", você está aí?
-Opa, estou aqui. -Então, vai, meu filho.