Nanã (Moacir Santos), O ARRANJO #18 (English subtitles)
O Maestro Moarcir Santos foi professor de música de mais da metade dos músicos fundadores da Bossa Nova:
João Donato, Carlos Lyra, Roberto Menescal, Oscar Castro Neves, Sérgio Mendes e Baden Powell
Baden resolveu gravar duas músicas do seu professor e perguntou ao mestre como se chamavam os temas,
mas eles não tinham nome
Muito ligado na música erudita, o maestro pensou nas composições clássicas
que se chamam Opus número tal, de tal compositor
"Mas quem sou eu pra fazer um Opus?
3 não sei o que... Aí perguntaram o nome dessa: isso é uma coisa"
Coisa é tudo que pode existir, e Moacir numerou dez delas
e lançou num disco antológico em 1965, chamado de... Coisas
Segundo o pesquisador Zuza Homem de Mello, as "Coisas" que Moacir compôs eram muito vanguardistas para a época,
foram um tanto incompreendidas naquele momento
Zuza dizia que na obra do maestro Moacir Santos, o primitivo encontra o futuro; O ontem, o amanhã
Eu sou Flávio Mendes, músico e arranjador, esse é O ARRANJO, seja bem-vindo
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A coisa mais famosa é a número 5, conhecida como Nanã, que vem a ser Nanã Buruku,
a orixá das águas paradas e considerada o orixá mais antigo do mundo
Moacir conta que teve a ideia da composição olhando as águas paradas do lago do Parque Guinle,
em Laranjeiras, Rio de Janeiro, onde morava Vinícius de Moraes
Aproveitou a composição quando foi convidado para fazer a trilha do filme Ganga Zumba,
de Cacá Diegues, em 1963
Era a música da abertura do filme, cantada em vocalise por Nara Leão
A música era muito original
e foi logo incorporada ao repertório de uma novidade que estava nascendo nas boates de Copacabana,
especialmente no Beco das Garrafas: O samba Jazz
Um dos expoentes desse novo grupo era um pianista de Niterói, Sergio Mendes,
que dentre as suas muitas qualidades estava a de só chamar grandes músicos pra tocar ao seu lado
Logo depois de voltar do famoso concerto da Bossa Nova no Carnegie Hall, no fim de 1962,
Sergio forma um sexteto que pode ser chamado de dream team dos músicos da época: o Bossa Rio
Com eles, Sergio Mendes grava um disco antológico com um nome sui generis: Você ainda não ouviu nada!
Nesse disco eles gravam Nanã, de Moacir Santos, com arranjo do próprio compositor,
e é essa gravação que eu vou analisar nesse vídeo
UM POUCO DE HISTÓRIA
Moacir Santos nasceu numa data incerta de 1926 na cidade de Bom Nome, no interior do estado de Pernambuco
na verdade até o ano de nascimento é incerto
Era o caçula de cinco irmãos que ficaram órfãos de mãe quando Moacir aparentemente tinha 3 anos,
e o pai já tinha abandonado a família logo que Moacir nasceu, para aderir a uma volante,
uma força policial que caçava o cangaceiro Lampião
Os irmãos foram separados e divididos entre famílias cidade de Flores do Pajeú
A família que criou Moacir deu acesso a boa formação escolar e musical, e com 10 anos, autodidata,
já se aventurava na trompa, sax, clarineta, violão, banjo e bandolim
Mas Moacir era obrigado a diversas tarefas pesadas, como buscar água no rio,
trabalhar no roçado, tratar dos porcos da família e cortar lenha
Era ainda um resquício escravocrata, e aos 14 anos ele foge de casa
Peregrinou pelo interior do nordeste, passou necessidades,
encontrou mestres na música que lhe ensinaram muito, foram anos intensos
Com presumíveis 18 anos entra no exército em João Pessoa, Paraíba, e se torna músico da banda marcial
Logo que sai do serviço militar é convidado para ocupar o posto de saxofonista na Rádio Tabajara da Paraíba,
que tinha ficado vago porque Severino Araújo, futuro maestro da famosa Orquestra Tabajara do Rio de Janeiro,
tinha se mudado pra então capital federal
Moacir, já casado com a sua companheira da vida inteira, Cleonice, faz o mesmo caminho no ano seguinte
Com alguns contatos na política paraibana
é indicado para ser saxofonista da Rádio Nacional, então a principal rádio do Brasil
O diretor da rádio, um pouco incomodado pela indicação política,
pergunta a um dos maestros da rádio, Chiquinho, como foi o teste do jovem pernambucano
Ele responde: "O teste foi pra nós.
Colocamos algumas partituras e ele tocou tudo, ele colocou umas músicas pra nós e nós não tocamos"
Ele se tornou o único maestro e arranjador negro da Rádio Nacional
Mas Moacir sabia que precisava estudar mais para chegar onde ele almejava,
e estudou com os melhores professores possíveis:
Guerra Peixe, Radamés Gnatalli, Cláudio Santoro e o alemão Hans-Joachim Koellreutter,
o precursor do dodecafonismo no Brasil, que também tinha sido professor de Tom Jobim e Guerra Peixe
Quando lançou o revolucionário LP Coisas, em 1965,
surpreendentemente começou a ver o mercado de trabalho para ele ficar mais restrito
Seguia dando aulas e fazendo trilha pra filmes,
e em 1967 foi convidado para o lançamento de um desses filmes na Califórnia
ele foi e nunca mais voltou
Porque será que ele ficou nos Estados Unidos?
"Foi não querer voltar ao Brasil.
A outra coisa foi que eu pensei que já havia feito quase tudo que eu tinha a explorar no Brasil,
não foi, mas eu pensava, eu pensava que já havia feito tudo"
Moacir ficou afastado do Brasil por muitos anos, vindo esporadicamente fazer shows em festivais de jazz
O reencontro definitivo com o Brasil veio em 2000,
quando os músicos Mario Adnet e Zé Nogueira gravaram o disco Ouro Negro, só com composições de Moacir Santos
Mario Adnet me contou que a ida de Moacir para os Estados Unidos foi um movimento natural
de um artista que estava sempre buscando se aprofundar, ir adiante, não se deixar estagnar
"Como ele sempre foi muito nômade, desde criança, com 13 anos, sei lá, ele fugiu de casa
e era sempre abraçado por um maestro de bandas de cidadezinhas,
toda cidadezinha tinha uma banda com um maestro
Esse maestro geralmente arrumava um emprego pra ele num comércio, que nunca dava certo
E começa a trocar de cidade porque não dá certo os empregos, o aprendizado,
ele quer ir mais longe, pra ele se esgotou e então ele vai pra outro lugar, e assim ele foi.
E não foi diferente quando ele veio pro Rio, de João Pessoa,
ele vem de João Pessoa porque João Pessoa se esgotou, não dá, não tem mais pra onde ir.
Então vem pro Rio, vira músico da orquestra, aí agora músico não, tem que ser maestro,
tem que ir sempre um passo à frente"
A cantora Muiza Adnet participou do disco Ouro Negro e do show de lançamento do disco,
no Teatro João Caetano, no centro do Rio de Janeiro, lotado
"Era um momento em que todos os artistas que participaram,
todos em pé no palco e eu cantando com Moacir Bodas de Prata Dourada
com aquele público de pé, também.
Eu achei que a recepção do público foi incrível.
Ele tava numa alegria profunda, ele tava em êxtase, parecia que tinha completado o ciclo dele, sabe? "
Muiza gravou um disco só com músicas de Moacir Santos, e com a participação dele
Foi o último registro do maestro: depois das gravações ele voltou para a Califórnia e morreu dois meses depois
1. MELODIA Não se sabe ao certo quando a melodia de Nanã foi composta,
mas especula-se entre fins da década de 1950 e início da década de 60
Sobre a canção ser inspirada na orixá Nanã Buruku, Mario Adnet comenta:
"Toda essa coisa que atribuem a ele de África, de religião africana e tal,
ele não entendia, ele não sabia nada disso não, ele sabia pouco disso.
Ele morou no Engenho Novo e morava do lado de um centro de candomblé.
E ele ouvia aqueles tambores toda hora.
Aquilo ali é que entrou nele, mais do que o conhecimento dos orixás e tudo mais"
O compasso em que Nanã foi gravada no disco Coisas, em 1965,
é diferente de todas as gravações anteriores da música, desde a gravação da Nara para o filme Ganga Zumba,
passando pela gravação de Wilson Simonal e do Bossa Rio, todas anteriores ao disco Coisas
No disco Coisas a música está em 6 por 8
E nas outras versões está em 2 por 4, o compasso do samba
Moacir escreveu no encarte do disco Ouro Negro que a gravação de Nanã no disco Coisas,
reproduzida no Ouro Negro, é do jeito com que ele compôs a música, como uma procissão negra
"A propósito dessa Nanã, eu vi uma procissão, uma visão, de uma procissão de negros
Uma procissão de negros"
O poeta Vinícius de Moraes estava compondo com Moacir nessa época e chegou a fazer uma letra para Nanã,
mas que foi rejeitada pro Moacir por sensualizar demais a orixá Nanã
A parceria entre os dois acabou, mas não o respeito e a amizade,
tanto que Vinícius incluiu o maestro na sua lista de homenageados na canção Samba da Benção
"À benção maestro Moacir Santos, que não és um só, mas tantos,
tantos como o meu Brasil de todos os santos,
inclusive o meu São Sebastião, saravá!"
Quem acabou fazendo a letra foi o irmão da cantora Sylvia Telles, o músico Mario Telles,
que fez a primeira gravação de Nanã, em 1962,
dois anos antes da gravação do Bossa Rio e 3 anos antes da gravação do LP Coisas
2. ORQUESTRAÇÃO O dream team formado pro Sérgio Mendes para o Bossa Rio era formado por:
Nos trombones, Edson Maciel e Raul de Souza. No sax tenor, Hector Costita.
No baixo, Tião Neto. Na bateria Edson Machado. E no piano, o próprio Sérgio Mendes.
Edson Maciel era o irmão de Edmundo Maciel, também trombonista.
Edson Maciel também era conhecido como Maciel Maluco, pra diferenciar do irmão, o Maciel Bom
Raul de Souza tocava trombone de válvulas, ao contrário de Maciel, que tocava trombone de vara.
Chegou a inventar um trombone, chamado de Souzafone, que tinha uma válvula a mais
Tião Neto era de Niterói, como Sergio Mendes.
Fundou o Bossa 3, com Luiz Carlos Vinhas e Edson Machado, e gravou o antológico Getz Gilberto em 64.
Edison Machado é considerado um dos inventores da batida de Bossa Nova na bateria.
Gravou em 1963 o disco referência para todos os bateristas brasileiros, o "Edison Machado é Samba Novo"
Hector Costita é argentino e passou pelo Brasil em turnê em 1958 com o pianista Roberto Inglez
e conheceu João Donato e o baixista Shu Viana, que deram uma canja no show do Inglez
Eu falei com o grande Hector Costita sobre este momento
"Quando terminamos a canja o contrabaixista Shu Viana devia começar em São Paulo a tocar com um trio
numa casa que seguramente você ouviu falar, que se chamava Baiúca, Baiúca Roosevelt.
Ele deveria começar com um trio, e como ele se encantou comigo, falou:
você não ficaria no Brasil? E eu falei, porque não?"
Alguns anos depois Costita estava trabalhando numa boate do hotel Danúbio,
na Brigadeiro Luiz Antônio, em São Paulo,
quando no intervalo da apresentação da orquestra
vieram lhe chamar dizendo que tinham dois músicos que queriam falar com ele
Eram Sérgio Mendes e Raul de Souza
"Eles me propuseram de fazer parte do Bossa Rio,
e quando me nomearam os músicos que iriam fazer parte eu falei: isso vai dar coisa boa!"
3. A FORMA DO ARRANJO No disco "Você ainda não ouviu nada!" o sexteto Bossa Rio alcança um equilíbrio muito interessante,
entre uma música instrumental de mais fácil assimilação, mais popular,
e o jazz mais improvisado, é sem dúvida um dos motivos do êxito, do sucesso do disco
Parece ser o caminho que conduziu Sergio Mendes ao estrelato, pouco anos depois:
uma música de alto nível, muito bem executada, com elementos do jazz,
mas que agradava também a o ouvinte que não se interessava tanto por longos solos jazzísticos
Segundo Costita, esse, digamos, jazz mais comportado,
criou atritos entre Sergio Mendes e o baterista Edison Machado
Machado era muito fã do baterista norte-americano Elvin Jones,
que tocou muito tempo com John Coltrane
"Ele queria tocar no Bossa Rio no estilo do Elvin Jones, então às vezes tinha uns atritos com o Sergio,
porque o Sergio queria que fosse mais discreto, mais rítmico"
Costita comenta, também, que Edison Machado foi o primeiro baterista de bossa nova a tocar no prato de condução,
como fazem os bateristas de jazz, criando assim a bateria do samba jazz
"O Edison Machado foi o criador do Samba Jazz, porque antes dele tinha o Milton Banana,
mas o Milton tocava tudo fechadinho.
Aí veio o Edison Machado, e foi porque ele gostava muito do Elvin Jones,
ele abriu o samba no prato, o prato aberto"
O arranjo de Nanã começa com uma linha de baixo em uníssono com o piano, bem jazzístico
A bateria marca no contratempo e faz um levíssimo ritmo nos tambores
O primeiro acorde dos sopros é em quartas,
e seguem em linhas descendentes
Um trombone começa a melodia com acompanhamento rítmico do outro trombone e do sax
E a bateria tocando no prato, aberto
Um trombone na melodia da parte B e os outros sopros fazem a cama harmônica
No refrão a melodia está no sax
Quando repete, o sax sobe uma oitava e um trombone toca a oitava de baixo da melodia
Dois compassos como na introdução
E o improviso do primeiro trombone
O contrabaixo faz uma levada mais latina, não toca a levada do samba
O segundo trombone também improvisa
Na parte B uma melodia nos sopros, com o sax tocando uma oitava acima dos trombones, e a bateria fechada
Agora a bateria vai tocar junto com os sopros a convenção rítmica,
a caixa da bateria tocando junto com os ataques dos sopros, como no jazz
Cai a dinâmica, todos tocam suave
E o baixo sai da levada, faz umas frases, quase um solo
E uma convenção para acabar, todos tocando forte
Bom, esse foi o aranjo, se você gostou dá um like, se inscreve no canal,
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no apoia.se/oarranjo. Muito obrigado, até uma próxima
"Vocês me causaram uma grande satisfação, imensa mesmo.
Principalmente porque essa reportagem vai ser mostrada em todo o meu Brasil,
e eu estou lá, meu coração está lá
E quem estiver me vendo está me trazendo também as suas vibrações para Moacir Santos aqui nos Estados Unidos
E eu acho que não tinha mais nada pra dizer, Deus abençoe a vocês todos, muito obrigado"