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Porta Dos Fundos 2020, OXALÁ

Meu pai Oxalá. Meu pai Oxalá, me dê, por favor.

Marcos, a gente precisa conversar.

-Puta merda, que isso? -Como assim, "que isso"?

Eu sou Oxalá, porra.

-Kaô, meu pai. -Eu não sou seu pai.

-Quê? -Para de falar isso

porque está ficando feio pra você.

Olha essa carinha de quem foi criado no Leblon.

-Para com isso, coisa feia. -Mas tu não é meu pai, não?

Quem te falou que eu sou seu pai?

Foi a menina que vende acarajé aqui no Baixo Botafogo,

-a baiana. -Ela não é baiana.

Ela é de Piracicaba, ela puxa o "r".

Mesmo que fosse,

não é porque a pessoa vai na Bahia, come um acarajé,

bota uma guia, uma fita de Senhor do Bonfim

que ela é minha filha, não. Assim vira bagunça.

Mas eu sou devotão do senhor.

Marcos, eu sou negão. Aqui é África, porra.

Para de palhaçada.

Você acha que eu não sei que, quando o bicho pega,

você chora pra Deus? Que você é desses modinha?

Que só está comigo porque agora é fashion?

Daqueles que usam camisa da Osklen escrito "Oxalá".

-Você tem uma dessa, não tem? -Tenho.

-Aí. Eu sabia. -Mas olha,

eu faço todos os trabalhos, oferendas...

Oferenda? Esse lixo? Só farinha vencida.

Não pica um alho, não torra pra trazer pro orixá.

Só essas galinhas secas, que a gente vai comer e engasga.

Galinha podre, galinha cheia de hormônio.

Orixá come, fica ruim do estômago.

Tem que baixar em oito banheiros pra poder chegar no terreiro.

Você acha que eu não sei

que você escolhe a oferenda pelo preço?

Só cachaça merda.

Você não traz uma coisa boa.

Um fone, um óculos pro orixá estar ostentando.

Camisa da Osklen meu filho não oferenda pra mim, né?

Eu achei que isso aqui era mera formalidade, entendeu?

Alimentar seu pai agora é protocolo?

Eu uso branco, por exemplo, toda sexta-feira.

Se todo mundo que usasse branco fosse meu filho,

meu nome não era Oxalá, eu era Mr. Catra.

É porque o branco é a cor do senhor.

Foda-se.

Roberto Carlos só usa azul, ele é filho de Smurf?

Se a pessoa usar camisa rosa, ela é filha da porra da Peppa Pig?

Não fode.

Quem é meu pai, então?

Aí você tem que perguntar pra sua mãe.

Dá uma procurada na agenda dela do Carnaval de 1982

porque ali eu sei que foi desde piloto de trio

até Kadu Moliterno. Tudo ela foi, tudo ela brincou,

mas isso aí é coisa sua. Tu pesquisa.

O que eu quero é que você pare de falar que é meu filho.

Porque está pegando mal pra mim em casa.

Estamos conversados?

Oxe.

Ô meu Deus do Céu, meu Pai, me ajuda, caralho.

É, Marcos.

Chegou a hora da gente conversar

e conversar legal, né?

Aparece, seu covarde.

O que é, Marília? Me deixe em paz, amada.

Já falei que o filho não é meu.

Você vai assumir esse filho nem que seja na Justiça,

-safado! -Tu é muito é agueira.

Vá falar com Olorum, lá.

Diga a ele pra assumir, diga. Vá.

Está achando que é esperta?

Se eu quisesse dar o golpe em alguém,

eu engravidava do deus da Pentecostal, ô babaca.


Meu pai Oxalá. Meu pai Oxalá, me dê, por favor.

Marcos, a gente precisa conversar.

-Puta merda, que isso? -Como assim, "que isso"?

Eu sou Oxalá, porra.

-Kaô, meu pai. -Eu não sou seu pai.

-Quê? -Para de falar isso

porque está ficando feio pra você.

Olha essa carinha de quem foi criado no Leblon.

-Para com isso, coisa feia. -Mas tu não é meu pai, não?

Quem te falou que eu sou seu pai?

Foi a menina que vende acarajé aqui no Baixo Botafogo,

-a baiana. -Ela não é baiana.

Ela é de Piracicaba, ela puxa o "r".

Mesmo que fosse,

não é porque a pessoa vai na Bahia, come um acarajé,

bota uma guia, uma fita de Senhor do Bonfim

que ela é minha filha, não. Assim vira bagunça.

Mas eu sou devotão do senhor.

Marcos, eu sou negão. Aqui é África, porra.

Para de palhaçada.

Você acha que eu não sei que, quando o bicho pega,

você chora pra Deus? Que você é desses modinha?

Que só está comigo porque agora é fashion?

Daqueles que usam camisa da Osklen escrito "Oxalá".

-Você tem uma dessa, não tem? -Tenho.

-Aí. Eu sabia. -Mas olha,

eu faço todos os trabalhos, oferendas...

Oferenda? Esse lixo? Só farinha vencida.

Não pica um alho, não torra pra trazer pro orixá.

Só essas galinhas secas, que a gente vai comer e engasga.

Galinha podre, galinha cheia de hormônio.

Orixá come, fica ruim do estômago.

Tem que baixar em oito banheiros pra poder chegar no terreiro.

Você acha que eu não sei

que você escolhe a oferenda pelo preço?

Só cachaça merda.

Você não traz uma coisa boa.

Um fone, um óculos pro orixá estar ostentando.

Camisa da Osklen meu filho não oferenda pra mim, né?

Eu achei que isso aqui era mera formalidade, entendeu?

Alimentar seu pai agora é protocolo?

Eu uso branco, por exemplo, toda sexta-feira.

Se todo mundo que usasse branco fosse meu filho,

meu nome não era Oxalá, eu era Mr. Catra.

É porque o branco é a cor do senhor.

Foda-se.

Roberto Carlos só usa azul, ele é filho de Smurf?

Se a pessoa usar camisa rosa, ela é filha da porra da Peppa Pig?

Não fode.

Quem é meu pai, então?

Aí você tem que perguntar pra sua mãe.

Dá uma procurada na agenda dela do Carnaval de 1982

porque ali eu sei que foi desde piloto de trio

até Kadu Moliterno. Tudo ela foi, tudo ela brincou,

mas isso aí é coisa sua. Tu pesquisa.

O que eu quero é que você pare de falar que é meu filho.

Porque está pegando mal pra mim em casa.

Estamos conversados?

Oxe.

Ô meu Deus do Céu, meu Pai, me ajuda, caralho.

É, Marcos.

Chegou a hora da gente conversar

e conversar legal, né?

Aparece, seu covarde.

O que é, Marília? Me deixe em paz, amada.

Já falei que o filho não é meu.

Você vai assumir esse filho nem que seja na Justiça,

-safado! -Tu é muito é agueira.

Vá falar com Olorum, lá.

Diga a ele pra assumir, diga. Vá.

Está achando que é esperta?

Se eu quisesse dar o golpe em alguém,

eu engravidava do deus da Pentecostal, ô babaca.