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TED Português, Faz o teu caminho | Nuno Santos | TEDxULisboa (1)

Faz o teu caminho | Nuno Santos | TEDxULisboa (1)

Transcrição: Inês Freire Revisora: Margarida Ferreira

Epá tanta gente, meu Deus do Céu.

Olá, muito boa tarde!

Público: Boa tarde.

Ai tão bom ser recebido.

- Boa tarde! - Boa tarde!

Ai tão bom. Mais uma vez, boa tarde!

Como é que é? Tudo bem?

Boa noite? Quem é que disse "boa noite"?

Estou a ver que estão bem dispostos. Gosto.

Antes de mais quero vos agradecer por terem vindo.

E que agradeçam a vocês próprios

o facto de se terem disponibilizado para estar aqui comigo, connosco,

com estes oradores, com vocês próprios, numa de se inspirarem e se motivarem,

e desde já agradeço.

O meu nome é Nuno Santos, tenho 27 anos

e venho contar-vos um pouco da minha história.

Como podem ver ali,

eu sou apologista disto, acho que todos nós temos esta capacidade.

Música.

Não há mas era bom não era...

(Risos)

Quero vos perguntar se alguma vez se sentiram perdidos.

Quem é que aqui, neste auditório, já sentiu uma ligeira noção

de que não sabia quem era, para onde ia e o que andava aqui a fazer?

Ih, Jesus...

Espera aí...

Uau!

99.8, fantástico.

Boa.

Querem as boas notícias ou as más notícias?

(Respostas confusas do público)

Vão levar com as duas.

(Risos)

Eu acredito que ambas são precisas.

As más, é que isto vai continuar a acontecer, ok?

Nós vamos sentir que, de vez em quando,

vamos sentir-nos perdidos, não sabemos quem somos

devido a algumas circunstâncias ou escolhas nossas

e vamos atingir alguns becos sem saída.

E vamos nos sentir falhados.

A boa notícia é que é muito importante que isso aconteça

e que vocês não descartem esse acontecimento.

O facto de nós nos sentirmos perdidos, vai-nos obrigar a sair da zona de conforto

e a procurar novos caminhos, novas direções.

Eu até aos 16 anos era um rapaz muito ativo,

fazia muito desporto, fui federado em várias áreas

fiz andebol, ténis, "parkour", "bodyboard",

fazia tudo e um par de botas.

(Risos)

Yeah.

Estão comigo. Estou a gostar.

(Risos)

'Bora lá entrar com o pé direito. É mesmo isso.

(Risos) (Aplausos)

Obrigado.

(Aplausos)

Eu até aos 16 anos era muito saudável.

Estava sempre à procura de aventuras, de adrenalina,

a minha vida era baseada em experiência.

Eu queria, tinha uma sede de vida, um desejo de me sentir vivo

Procurava tudo aquilo que fosse limites,

no desporto e fora dele.

E, como podem ver ali, já era um rapaz jeitoso.

Mas depois passei a ser um rapaz jeitoso, mas careca.

Aos 16 anos é-me diagnosticado um cancro, um tumor ósseo muito agressivo,

já com metástases pulmonares e coisas horríveis

e, enfim...

Não há aí um violino?

Uma coisa assim, horrível.

Foi-me dito aos 16 anos que não sabiam se eu ia conseguir sobreviver ou não.

No entanto, iam tentar de tudo, íamos fazer o protocolo todo

disseram-me inclusive que eu não o pedi, que ninguém mo deu,

"it is what it is".

A verdade é que a sede de vida estava em mim

e aquilo entrou-me por um ouvido e saiu pelo outro.

Eu não me sentia doente, eu sentia-me bem

apesar de notar que o meu rendimento, na escola e na vida

já não era o que era.

Ali, no fim dos 15,

há um episódio que despoleta todo esse declínio de bem-estar.

Eu lembro-me de ter ido para a Praia Grande

num dia de S. Martinho, em 2007,

com o meu melhor amigo de infância

e estão a imaginar o mar de inverno na Praia Grande.

Não é propriamente algo confortável. É para doidos.

Já no verão é assim agressivo.

E eu, na inconsciência da adolescência,

decidi que era boa ideia ir apanhar ondas.

Ora, assim que eu cheguei à praia,

havia mais surfistas vestidos na areia do que na água.

Aquilo devia ter sido muito respeitado, esse sinal.

Eu achei que não.

Eu tinha feito 30 km, eu queria apanhar ondas,

e assim fiz.

Entrei na água, ou na máquina de lavar,

(Risos)

saí um bocadinho desbotado porque apanhei uma onda,

apanhei duas e à terceira caí

e andei para lá embrulhado, puxado pela prancha.

Lembro-me de ter feito contas à vida ali debaixo.

Não podia fazer nada, portanto,

fiquei ali a pensar nas coisas que devia fazer

quando chegasse a casa.

Quando vim ao de cima, senti-me um bocadinho abalado.

Despenteado, inclusive.

E saí da água a coxear.

Desde então foram exames, exames, exames,

ninguém desconfiava de nada, achavam que era da coluna

daquele impacto.

E pronto, lá me diagnosticam um cancro ósseo,

um sarcoma de Ewing.

Esta foi a probabilidade de sobrevivência.

Disseram-me: "Nuno, tu tens 3 a 5%, na melhor das hipóteses.

"Nós não podemos fazer promessas. Vamos tentar de tudo."

E eu aí engoli em seco e percebi

— na altura era mais jovem — percebi algo que era

"tu estás tramado".

Provavelmente, não te vais safar desta,

que isto não é fácil.

Coisa que eu hoje em dia não acredito.

Eu hoje em dia, se me dissessem isto, ria-me,

porque, para já, isto é percentil, certo?

Qual é a escala disto? Não é?

Se eu for a ver, afinal somos bués a sobreviver. Come on!

(Risos)

Não me assustem com números, ok?

E eu hoje acredito que todos nós,

por mais percentagens que nos deem, em qualquer área da nossa vida,

nós somos criadores da nossa realidade.

Podem-nos dar zero, "Tu não és capaz, é impossível".

"Então observa.

"Dá-me cinco minutos.

"Vamos ver se eu não crio 1% de probabilidade do que quer que seja".

Fiz muitos tratamentos, aquela coisa horrível

— violino por favor —

quimioterapia, autotransplante.

o autotransplante é uma coisa horrível de ficar 30 dias dentro de um aquário.

Eu fiquei num aquário durante 30 dias, perdi 30 quilos.

Eu sei que é um sonho para muita gente, não queiram.

(Risos)

Decididamente não.

Porque eu não comi durante três semanas.

Durante três semanas eu sentia a boca a escamar, a sangrar.

Enfim...

É tão bonito.

Fiz uma cirurgia de remover a anca porque era lá onde estava alojado o tumor.

E aí disseram-me:

"Olha Nuno, tu vais poder ser operado.

Uma das armas para o cancro pode ser usada em ti, que é a cirurgia."

Tão bom...

E em que é que consiste?

"Ah, és capaz de perder a mobilidade."

Hum...

(Risos)

Então não sei se não gosto. Acho que não.

Acabei de me aperceber que não gosto muito dessa hipótese.

No entanto, entre perder a mobilidade e estar vivo,

se calhar prefiro estar vivo.

Porque no fundo eu sempre quis isto, de estar vivo.

Rejeição de prótese, uma coisa horrível.

Também não interessa a ninguém.

Mas há um evento particular a meio da quimioterapia que eu não me esqueço.

Lembro-me de estar numa tarde de verão, isto já estávamos no final de junho,

estava ali no IPO de Lisboa,

a minha mãe e a minha irmã foram a Sete Rios buscar uma "pizza"

porque eu podia estar a morrer de cancro mas ao menos morria feliz.

(Risos)

Trouxeram-me uma "pizza", mas antes disso eu fiquei, meia hora,

no máximo, porque elas tinham encomendado, fiquei meia hora

sozinho no quarto de hospital e eu aí pela primeira vez senti:

"Tu estás tramado. Tu és capaz de morrer."

Começo a sentir um fogo, uma adrenalina vinda não sei de onde...

Foi um ataque de pânico, hoje em dia eu sei.

(Risos)

"Ah", gritei tanto, dei um soco na parede, e tão depressa veio tão depressa foi,

desapareceu,

e aí cai-me a ficha de:

"Nuno, tu gostas disto. Ok?

"Isto é uma fase. Isto não te define, em nada.

"É transitório. Tu vais sobreviver, tu queres sobreviver, tu vais vencer."

E pronto, eu começo a perceber que, para mudar, eu preciso de estratégia.

Eu preciso de mudar a minha vida toda

com base em algumas coisas que foi, mudar a minha cabecinha,

a maneira como eu pensava.

Eu era derrotista, era pessimista, era o meu pior inimigo.

Quantas vezes eu não me sabotava com coisas que eu queria fazer

com medo, com receio, com a opinião dos outros.

Parvoíce.

Parvoíce autêntica.

Mudei a minha alimentação, passei a comer muito melhor,

continuei a treinar bem

porque o desporto, apesar de estar muito limitado na altura,

tinha dores, vivia sempre com dores,

fazia o que podia, com o que tinha e no momento em que estava.

E fiz muito humor, como eu disse eu tive um sarcoma,

sarcoma,

e lembro-me de,

eu tomei morfina durante, aproximadamente um ano.

Já estou a ouvir alguém a rir-se.

(Risos)

E então, eu lembro-me da minha mãe muito preocupada, como qualquer mãe, obviamente,

ela tentava-me enfiar comida pela goela abaixo, para ficar forte,

e lembro-me de a ouvir dizer: "Sir, coma" .

(Risos)

Ai, tão bom...

(Risos)

Não houve nenhum enfermeiro, nenhum médico

que eu não tivesse praxado,

desde comprar seios falsos no Carnaval, tapar-me e dizer:

"Eu estou com uma dor no peito".

(Risos)

E o enfermeiro: "Não, vamos ver, vamos auscultar".

E lembro-me de eles pousarem os auscultadores,

desabotoarem, fazerem aquela cara de ...

(Risos)

E eu: "Yes".

Porque eu estava acamado, mas estava vivo. Eu tinha vida em mim.

Eu não me ia deixar abater.

No entanto, por mais estratégias que eu tivesse,

eu continuava-me a sentir perdido,

continuava-me a sentir muito em baixo

porque aquela perna já tinha dado de si.

Eu já tinha gasto todos os recursos emocionais, físicos,

psicológicos e financeiros

possíveis e imaginários.

Eu estava super deprimido,

eu tive pensamentos suicidas durante muito tempo.

Faz parte.

Até que comecei a pensar,

até que ponto é que eu preciso desta perna?

Até que ponto é que eu tenho que aguentar isto?

Estas dores...

Tudo isto que eu estou a viver...

Porque é que eu tenho que aguentar isto? O que é que eu ganho?

Hum...

E se há alguma cirurgia mais para a frente que me salva a perna?

E se há algo mais para a frente que eu consiga fazer?

E se... e se... e se... e se...

Não.

No fim da linha, resume-se a uma coisa,

isto...

(Risos)

Caretas, também,

mas decidir.

Ninguém me disse, ninguém me sugeriu,

ninguém me aconselhou.

Eu lembro-me que no fim do ano de 2014,

que foi o meu pior ano,

porque já tinha vencido a parte oncológica

mas a perna, lá está, não dava de si.

Eu pensei: "Que se lixe. Eu vou tirar a perna.

"Eu tenho mais dois braços, eu tenho uma perna,

"não sou assim tão feio.

"Às vezes até digo umas larachas.

"Porque não?

Porque é que eu tenho que manter esta perna?

Foram dois anos de preparação.

Não foi nada fácil.

Imaginem o que é que é.

Ah, o cinema está fechado, se calhar vou tirar uma perna.

(Risos)

Não é uma decisão do pé para a mão.

(Risos)

(Aplausos)

Mas tinha que ser feito.

Tinha que ser feito.

A medo, com algum medo, naturalmente,

mas estava tão entusiasmado.

Lembro-me do dia em que cheguei ao hospital

eu estava aos pulinhos.

Eu cheguei a filmar e tudo.

Está tudo na "net".

Eu dancei com as enfermeiras.

Eu ri-me com os médicos.

Estava mais feliz do que nunca

porque sabia que, finalmente, o meu tormento ia acabar.

Eu ia deixar de viver em função de uma perna

para viver em função de mim.

Dito e feito.

Eu avancei.

Por mais perdido que eu tenha andado — e que faz parte —

hoje em dia já aceito, sei que faz parte do processo.

Eu encontrei-me na minha decisão.

Muita queda, muita...

Fui contra muitas paredes.

Mas encontrei-me.

Porque eu decidi decidir.

Deixei de andar na maré

e peguei as rédeas.

E eu acredito que é isso que todos nós devemos fazer.

Por mais perdidos que nós nos possamos sentir.

Malta, não é desculpa.

Todos nós sentimos, todos nós pensamos,

todos nós temos uma intuiçãozinha,

algo que fala connosco e que diz que é por aqui.

Seja aquilo que for na vossa vida,


Faz o teu caminho | Nuno Santos | TEDxULisboa (1) Make your way | Nuno Santos | TEDxULisboa (1) Haz tu camino | Nuño Santos | TEDxULisboa (1)

Transcrição: Inês Freire Revisora: Margarida Ferreira

Epá tanta gente, meu Deus do Céu. Wow, tanta gente, mi Dios en el cielo.

Olá, muito boa tarde!

Público: Boa tarde.

Ai tão bom ser recebido.

- Boa tarde! - Boa tarde!

Ai tão bom. Mais uma vez, boa tarde!

Como é que é? Tudo bem?

Boa noite? Quem é que disse "boa noite"?

Estou a ver que estão bem dispostos. Gosto.

Antes de mais quero vos agradecer por terem vindo. First of all I want to thank you for coming. En primer lugar quiero darle las gracias por venir.

E que agradeçam a vocês próprios And that you thank yourselves Y que se agradezcan

o facto de se terem disponibilizado para estar aqui comigo, connosco, the fact that they made themselves available to be here with me, with us, el hecho de que se hayan puesto a disposición para estar aquí conmigo, con nosotros,

com estes oradores, com vocês próprios, numa de se inspirarem e se motivarem, con estos ponentes, con vosotros mismos, para estar inspirados y motivados,

e desde já agradeço. Y gracias por adelantado.

O meu nome é Nuno Santos, tenho 27 anos

e venho contar-vos um pouco da minha história. and I come to tell you a little bit of my story.

Como podem ver ali, As you can see there,

eu sou apologista disto, acho que todos nós temos esta capacidade. I am a proponent of this, I think we all have this ability.

Música.

Não há mas era bom não era... There isn't but it was good wasn't it....

(Risos)

Quero vos perguntar se alguma vez se sentiram perdidos. I want to ask you if you have ever felt lost.

Quem é que aqui, neste auditório, já sentiu uma ligeira noção Who here, in this auditorium, has ever felt a slight sense

de que não sabia quem era, para onde ia e o que andava aqui a fazer? that I didn't know who I was, where I was going, and what I was doing here?

Ih, Jesus... Oh, Jesus...

Espera aí...

Uau!

99.8, fantástico.

Boa.

Querem as boas notícias ou as más notícias?

(Respostas confusas do público)

Vão levar com as duas. They will get both.

(Risos)

Eu acredito que ambas são precisas. I believe that both are accurate.

As más, é que isto vai continuar a acontecer, ok? The bad, is that this will keep happening, okay?

Nós vamos sentir que, de vez em quando,

vamos sentir-nos perdidos, não sabemos quem somos

devido a algumas circunstâncias ou escolhas nossas due to some circumstances or choices of ours

e vamos atingir alguns becos sem saída.

E vamos nos sentir falhados. And we will feel like failures.

A boa notícia é que é muito importante que isso aconteça

e que vocês não descartem esse acontecimento.

O facto de nós nos sentirmos perdidos, vai-nos obrigar a sair da zona de conforto

e a procurar novos caminhos, novas direções.

Eu até aos 16 anos era um rapaz muito ativo, I was a very active boy until I was 16,

fazia muito desporto, fui federado em várias áreas I did a lot of sports, I was federated in several areas

fiz andebol, ténis, "parkour", "bodyboard", I did handball, tennis, parkour, bodyboarding,

fazia tudo e um par de botas. did everything and a pair of boots.

(Risos)

Yeah.

Estão comigo. Estou a gostar. They are with me. I'm enjoying it.

(Risos)

'Bora lá entrar com o pé direito. É mesmo isso. Let's get off on the right foot. That's it.

(Risos) (Aplausos)

Obrigado.

(Aplausos)

Eu até aos 16 anos era muito saudável. Until I was 16 I was very healthy.

Estava sempre à procura de aventuras, de adrenalina, I was always looking for adventures, adrenaline,

a minha vida era baseada em experiência. my life was based on experience.

Eu queria, tinha uma sede de vida, um desejo de me sentir vivo I wanted, I had a thirst for life, a desire to feel alive

Procurava tudo aquilo que fosse limites, I was looking for everything that was limits,

no desporto e fora dele.

E, como podem ver ali, já era um rapaz jeitoso.

Mas depois passei a ser um rapaz jeitoso, mas careca.

Aos 16 anos é-me diagnosticado um cancro, um tumor ósseo muito agressivo,

já com metástases pulmonares e coisas horríveis

e, enfim... and finally...

Não há aí um violino? Isn't there a violin in there?

Uma coisa assim, horrível. Something like that, horrible.

Foi-me dito aos 16 anos que não sabiam se eu ia conseguir sobreviver ou não.

No entanto, iam tentar de tudo, íamos fazer o protocolo todo

disseram-me inclusive que eu não o pedi, que ninguém mo deu,

"it is what it is".

A verdade é que a sede de vida estava em mim

e aquilo entrou-me por um ouvido e saiu pelo outro. And it went in one ear and out the other.

Eu não me sentia doente, eu sentia-me bem

apesar de notar que o meu rendimento, na escola e na vida although I noticed that my performance, at school and in life

já não era o que era. was no longer what it was.

Ali, no fim dos 15,

há um episódio que despoleta todo esse declínio de bem-estar. There is one episode that triggers this whole decline in well-being.

Eu lembro-me de ter ido para a Praia Grande

num dia de S. Martinho, em 2007,

com o meu melhor amigo de infância

e estão a imaginar o mar de inverno na Praia Grande. and are imagining the winter sea at Praia Grande.

Não é propriamente algo confortável. É para doidos. It's not exactly something comfortable. It's for crazy people.

Já no verão é assim agressivo. Already in the summer it is that aggressive.

E eu, na inconsciência da adolescência, And I, in the unconsciousness of adolescence,

decidi que era boa ideia ir apanhar ondas. I decided it was a good idea to go surfing.

Ora, assim que eu cheguei à praia, Now, as soon as I got to the beach,

havia mais surfistas vestidos na areia do que na água. There were more surfers dressed on the sand than in the water.

Aquilo devia ter sido muito respeitado, esse sinal. That should have been very respected, that sign.

Eu achei que não.

Eu tinha feito 30 km, eu queria apanhar ondas, I had done 30 km, I wanted to catch waves,

e assim fiz.

Entrei na água, ou na máquina de lavar,

(Risos)

saí um bocadinho desbotado porque apanhei uma onda, I came out a little faded because I caught a wave, Sono uscito un po' sbiadito perché ho preso un'onda,

apanhei duas e à terceira caí

e andei para lá embrulhado, puxado pela prancha. And I walked there wrapped up, pulled by the board. E sono arrivato lì avvolto, tirato dalla tavola.

Lembro-me de ter feito contas à vida ali debaixo. I remember counting life under there.

Não podia fazer nada, portanto, There was nothing I could do, therefore,

fiquei ali a pensar nas coisas que devia fazer Rimasi lì a pensare alle cose che avrei dovuto fare

quando chegasse a casa. when he got home.

Quando vim ao de cima, senti-me um bocadinho abalado.

Despenteado, inclusive. Unkempt, even.

E saí da água a coxear. And I limped out of the water.

Desde então foram exames, exames, exames, Since then it has been exam, exam, exam,

ninguém desconfiava de nada, achavam que era da coluna nobody suspected anything, they thought it was the column

daquele impacto. of that impact.

E pronto, lá me diagnosticam um cancro ósseo, And there you go, I'm diagnosed with bone cancer, Ed ecco che mi viene diagnosticato un cancro alle ossa,

um sarcoma de Ewing. an Ewing's sarcoma.

Esta foi a probabilidade de sobrevivência. This was the probability of survival.

Disseram-me: "Nuno, tu tens 3 a 5%, na melhor das hipóteses. I was told, "Nuno, you have 3-5% at best.

"Nós não podemos fazer promessas. Vamos tentar de tudo." "We can't make any promises. We will try everything."

E eu aí engoli em seco e percebi And then I swallowed hard and realized

— na altura era mais jovem — percebi algo que era - at that time I was younger - I realized something that was

"tu estás tramado". "you're screwed." "Sei fottuto".

Provavelmente, não te vais safar desta, You probably won't get away with this,

que isto não é fácil.

Coisa que eu hoje em dia não acredito.

Eu hoje em dia, se me dissessem isto, ria-me, I would laugh if someone said this to me nowadays,

porque, para já, isto é percentil, certo? because, for now, this is percentile, right?

Qual é a escala disto? Não é? What is the scale of this? Isn't it?

Se eu for a ver, afinal somos bués a sobreviver. Come on! If I go to see it, we are bués surviving after all. Come on! Se vado a vederlo, dopo tutto, siamo bués che sopravvivono. Forza!

(Risos)

Não me assustem com números, ok?

E eu hoje acredito que todos nós,

por mais percentagens que nos deem, em qualquer área da nossa vida,

nós somos criadores da nossa realidade.

Podem-nos dar zero, "Tu não és capaz, é impossível".

"Então observa.

"Dá-me cinco minutos.

"Vamos ver se eu não crio 1% de probabilidade do que quer que seja". "Let's see if I don't create a 1% probability of whatever it is."

Fiz muitos tratamentos, aquela coisa horrível I had many treatments, that horrible thing

— violino por favor —

quimioterapia, autotransplante. chemotherapy, autotransplantation.

o autotransplante é uma coisa horrível de ficar 30 dias dentro de um aquário. autotransplantation is a horrible thing to stay 30 days in an aquarium.

Eu fiquei num aquário durante 30 dias, perdi 30 quilos.

Eu sei que é um sonho para muita gente, não queiram.

(Risos)

Decididamente não. Definitely not.

Porque eu não comi durante três semanas.

Durante três semanas eu sentia a boca a escamar, a sangrar. For three weeks I could feel my mouth flaking, bleeding.

Enfim...

É tão bonito.

Fiz uma cirurgia de remover a anca porque era lá onde estava alojado o tumor.

E aí disseram-me:

"Olha Nuno, tu vais poder ser operado.

Uma das armas para o cancro pode ser usada em ti, que é a cirurgia." One of the weapons for cancer can be used on you, which is surgery."

Tão bom...

E em que é que consiste? And what does it consist of?

"Ah, és capaz de perder a mobilidade."

Hum...

(Risos)

Então não sei se não gosto. Acho que não. So I don't know if I don't like it. I guess I don't.

Acabei de me aperceber que não gosto muito dessa hipótese. I just realized that I don't like that chance very much.

No entanto, entre perder a mobilidade e estar vivo,

se calhar prefiro estar vivo. Maybe I'd rather be alive.

Porque no fundo eu sempre quis isto, de estar vivo. Because deep down I always wanted this, to be alive.

Rejeição de prótese, uma coisa horrível.

Também não interessa a ninguém. It doesn't matter to anyone either.

Mas há um evento particular a meio da quimioterapia que eu não me esqueço. But there is one particular event in the middle of chemotherapy that I don't forget.

Lembro-me de estar numa tarde de verão, isto já estávamos no final de junho, I remember it being on a summer afternoon, this was already at the end of June,

estava ali no IPO de Lisboa,

a minha mãe e a minha irmã foram a Sete Rios buscar uma "pizza"

porque eu podia estar a morrer de cancro mas ao menos morria feliz.

(Risos)

Trouxeram-me uma "pizza", mas antes disso eu fiquei, meia hora, They brought me a "pizza", but before that I stayed, half an hour,

no máximo, porque elas tinham encomendado, fiquei meia hora at most, because they had ordered it, I stayed for half an hour

sozinho no quarto de hospital e eu aí pela primeira vez senti:

"Tu estás tramado. Tu és capaz de morrer."

Começo a sentir um fogo, uma adrenalina vinda não sei de onde...

Foi um ataque de pânico, hoje em dia eu sei.

(Risos)

"Ah", gritei tanto, dei um soco na parede, e tão depressa veio tão depressa foi, "Ah," I screamed so hard, I punched the wall, and so fast it came so fast it went,

desapareceu,

e aí cai-me a ficha de: and then it hits me:

"Nuno, tu gostas disto. Ok? "Nuno, you like this. Okay?

"Isto é uma fase. Isto não te define, em nada.

"É transitório. Tu vais sobreviver, tu queres sobreviver, tu vais vencer."

E pronto, eu começo a perceber que, para mudar, eu preciso de estratégia. And that's it, I begin to realize that in order to change, I need strategy.

Eu preciso de mudar a minha vida toda

com base em algumas coisas que foi, mudar a minha cabecinha, based on some things that was, to change my little mind,

a maneira como eu pensava.

Eu era derrotista, era pessimista, era o meu pior inimigo.

Quantas vezes eu não me sabotava com coisas que eu queria fazer How many times have I not sabotaged myself with things I wanted to do

com medo, com receio, com a opinião dos outros.

Parvoíce. Nonsense.

Parvoíce autêntica. Real nonsense.

Mudei a minha alimentação, passei a comer muito melhor,

continuei a treinar bem

porque o desporto, apesar de estar muito limitado na altura, because the sport, although it was very limited at the time,

tinha dores, vivia sempre com dores, I was in pain, I was always in pain,

fazia o que podia, com o que tinha e no momento em que estava. He did what he could, with what he had, and at the time he was.

E fiz muito humor, como eu disse eu tive um sarcoma, And I did a lot of humor, as I said I had a sarcoma,

sarcoma,

e lembro-me de, and I remember,

eu tomei morfina durante, aproximadamente um ano.

Já estou a ouvir alguém a rir-se. I can already hear someone laughing.

(Risos)

E então, eu lembro-me da minha mãe muito preocupada, como qualquer mãe, obviamente,

ela tentava-me enfiar comida pela goela abaixo, para ficar forte,

e lembro-me de a ouvir dizer: "Sir, coma" . and I remember hearing her say, "Sir, eat.

(Risos)

Ai, tão bom...

(Risos)

Não houve nenhum enfermeiro, nenhum médico There were no nurses, no doctors

que eu não tivesse praxado, that I had not hazed,

desde comprar seios falsos no Carnaval, tapar-me e dizer: From buying fake breasts at Carnival, covering myself up and saying: dal comprare seni finti a Carnevale, coprirmi e dire:

"Eu estou com uma dor no peito". "I have a pain in my chest."

(Risos)

E o enfermeiro: "Não, vamos ver, vamos auscultar". And the nurse: "No, let's check, let's listen.

E lembro-me de eles pousarem os auscultadores, And I remember them putting down their headphones,

desabotoarem, fazerem aquela cara de ... unbutton your buttons, make that ...

(Risos)

E eu: "Yes". And I: "Yes.

Porque eu estava acamado, mas estava vivo. Eu tinha vida em mim. Because I was bedridden, but I was alive. I had life in me.

Eu não me ia deixar abater. I wasn't going to let myself get down.

No entanto, por mais estratégias que eu tivesse, However, no matter how many strategies I had, Tuttavia, non importa quante strategie avessi,

eu continuava-me a sentir perdido,

continuava-me a sentir muito em baixo I was still feeling very low

porque aquela perna já tinha dado de si. because that leg had already given out.

Eu já tinha gasto todos os recursos emocionais, físicos,

psicológicos e financeiros

possíveis e imaginários. possible and imaginary.

Eu estava super deprimido,

eu tive pensamentos suicidas durante muito tempo.

Faz parte. That's part of it.

Até que comecei a pensar,

até que ponto é que eu preciso desta perna? How much do I need this leg?

Até que ponto é que eu tenho que aguentar isto?

Estas dores...

Tudo isto que eu estou a viver... All this I am experiencing...

Porque é que eu tenho que aguentar isto? O que é que eu ganho?

Hum...

E se há alguma cirurgia mais para a frente que me salva a perna? What if there is some surgery further down the road that will save my leg?

E se há algo mais para a frente que eu consiga fazer?

E se... e se... e se... e se...

Não.

No fim da linha, resume-se a uma coisa, At the end of the line, it comes down to one thing,

isto...

(Risos)

Caretas, também, Faces, too,

mas decidir. but decide.

Ninguém me disse, ninguém me sugeriu,

ninguém me aconselhou.

Eu lembro-me que no fim do ano de 2014,

que foi o meu pior ano,

porque já tinha vencido a parte oncológica

mas a perna, lá está, não dava de si. But the leg, there it is, did not give out.

Eu pensei: "Que se lixe. Eu vou tirar a perna.

"Eu tenho mais dois braços, eu tenho uma perna,

"não sou assim tão feio.

"Às vezes até digo umas larachas. "Sometimes I even say a few larks.

"Porque não?

Porque é que eu tenho que manter esta perna?

Foram dois anos de preparação.

Não foi nada fácil.

Imaginem o que é que é.

Ah, o cinema está fechado, se calhar vou tirar uma perna. Ah, the cinema is closed, maybe I'll take a leg off.

(Risos)

Não é uma decisão do pé para a mão.

(Risos)

(Aplausos)

Mas tinha que ser feito.

Tinha que ser feito.

A medo, com algum medo, naturalmente,

mas estava tão entusiasmado.

Lembro-me do dia em que cheguei ao hospital

eu estava aos pulinhos.

Eu cheguei a filmar e tudo.

Está tudo na "net".

Eu dancei com as enfermeiras.

Eu ri-me com os médicos.

Estava mais feliz do que nunca

porque sabia que, finalmente, o meu tormento ia acabar.

Eu ia deixar de viver em função de uma perna I was going to stop living because of one leg

para viver em função de mim. to live as a function of me.

Dito e feito.

Eu avancei.

Por mais perdido que eu tenha andado — e que faz parte — As lost as I've been - and that's part of it -

hoje em dia já aceito, sei que faz parte do processo.

Eu encontrei-me na minha decisão.

Muita queda, muita...

Fui contra muitas paredes.

Mas encontrei-me.

Porque eu decidi decidir.

Deixei de andar na maré

e peguei as rédeas.

E eu acredito que é isso que todos nós devemos fazer.

Por mais perdidos que nós nos possamos sentir. However lost we may feel.

Malta, não é desculpa. Guys, it's no excuse. Ragazzi, non è una scusa.

Todos nós sentimos, todos nós pensamos, We all feel, we all think,

todos nós temos uma intuiçãozinha, We all have a little intuition,

algo que fala connosco e que diz que é por aqui. something that speaks to us and says it is this way.

Seja aquilo que for na vossa vida, Whatever it is in your life,