×

Nós usamos os cookies para ajudar a melhorar o LingQ. Ao visitar o site, você concorda com a nossa política de cookies.


image

Os Escravos, por Antonio Frederico de Castro Alves, 7º Poema: A visão dos mortos, de Os Escravos, de Castro Alves

7º Poema: A visão dos mortos, de Os Escravos, de Castro Alves

A visão dos mortos

On rapporte encore qu'un berger ayant été introduit une fois par un

nain dans le Hyffhaese, l'empereur (Barberousse) se leva et lui demanda

si les corbeaux volaient encore autour

de la montagne. Et, sur la réponse

afíirmative du berger, il s'écria en soupirant: i1 faut donc que je dors

encore pendant cent ans"! H. HEINE (Allemagne)

Nas horas tristes que em neblinas densas

A terra envolta num sudário dorme,

E o vento geme na amplidão celeste

- Cúpula imensa dum sepulcro enorme, -

Um grito passa despertando os ares,

Levanta as lousas invisível mão.

Os mortos saltam, poeirentos, lívidos.

Da lua pálida ao fatal clarão.

Do solo adusto do africano Saara

Surge um fantasma com soberbo passo,

Presos os braços, laureada a fronte,

Louco poeta, como fora o Tasso.

Do sul, do norte... do oriente irrompem

Dórias, Siqueiras e Machado então.

Vem Pedro lvo no cavalo negro

Da lua pálida ao fatal clarão.

O Tiradentes sobre o poste erguido

Lá se destaca das cerúleas telas,,

Pelos cabelos a cabeça erguendo,

Que rola sangue, que espadana estrelas.

E o grande Andrada, esse arquiteto ousado,

Que amassa um povo na robusta mão:

O vento agita do tribuno a toga

Da lua pálida ao fatal clarão.

A estátua range... estremecendo move-se

O rei de bronze na deserta praça.

O povo grita: Independência ou Morte!

Vendo soberbo o Imperador, que passa.

Duas coroas seu cavalo pisa,

Mas duas cartas ele traz na mão.

Por guarda de honra tem dous povos livres,

Da lua pálida ao fatal clarão.

Então, no meio de um silêncio lúgubre,

Solta este grito a legião da morte:

"Aonde a terra que talhamos livre, Aonde o povo que fizemos forte?

Nossas mortalhas o presente inunda

No sangue escravo, que nodoa o chão.

Anchietas, Gracos, vós dormis na orgia,

Da lua pálida ao fatal clarão.

"Brutus renega a tribunícia toga, O apost'lo cospe no Evangelho Santo, E o Cristo - Povo, no Calvário erguido,

Fita o futuro com sombrio espanto.

Nos ninhos d'águias que nos restam? - Corvos,

Que vendo a pátria se estorcer no chão,

Passam, repassam, como alados crimes,

Da lua pálida ao fatal clarão.

"Oh! é preciso inda esperar cem anos...

Cem anos. . " brada a legião da morte.

E longe, aos ecos nas quebradas trêmulas,

Sacode o grito soluçando, - o norte.

Sobre os corcéis dos nevoeiros brancos

Pelo infinito a galopar lá vão...

Erguem-se as névoas como pó do espaço

Da lua pálida ao fatal clarão.


7º Poema: A visão dos mortos, de Os Escravos, de Castro Alves 7th Poem: The Sight of the Dead, from Os Escravos, by Castro Alves 7º Poema: La visión de los muertos, de Los esclavos, de Castro Alves

A visão dos mortos

On rapporte encore qu'un berger On rapporte encore qu'un berger ayant été introduit une fois par un ayant été introducit une fois par a

nain dans le Hyffhaese, l'empereur (Barberousse) se leva et lui demanda

si les corbeaux volaient encore autour yes les corbeaux volaient encore autour

de la montagne. Et, sur la réponse

afíirmative du berger, il s'écria en soupirant: i1 faut donc que je dors

encore pendant cent ans"! H. HEINE (Allemagne)

Nas horas tristes que em neblinas densas

A terra envolta num sudário dorme,

E o vento geme na amplidão celeste

- Cúpula imensa dum sepulcro enorme, -

Um grito passa despertando os ares,

Levanta as lousas invisível mão.

Os mortos saltam, poeirentos, lívidos.

Da lua pálida ao fatal clarão.

Do solo adusto do africano Saara

Surge um fantasma com soberbo passo,

Presos os braços, laureada a fronte,

Louco poeta, como fora o Tasso.

Do sul, do norte... do oriente irrompem

Dórias, Siqueiras e Machado então.

Vem Pedro lvo no cavalo negro

Da lua pálida ao fatal clarão.

O Tiradentes sobre o poste erguido

Lá se destaca das cerúleas telas,,

Pelos cabelos a cabeça erguendo,

Que rola sangue, que espadana estrelas.

E o grande Andrada, esse arquiteto ousado,

Que amassa um povo na robusta mão:

O vento agita do tribuno a toga

Da lua pálida ao fatal clarão.

A estátua range... estremecendo move-se

O rei de bronze na deserta praça.

O povo grita: Independência ou Morte!

Vendo soberbo o Imperador, que passa.

Duas coroas seu cavalo pisa,

Mas duas cartas ele traz na mão.

Por guarda de honra tem dous povos livres,

Da lua pálida ao fatal clarão.

Então, no meio de um silêncio lúgubre,

Solta este grito a legião da morte:

"Aonde a terra que talhamos livre, Aonde o povo que fizemos forte?

Nossas mortalhas o presente inunda

No sangue escravo, que nodoa o chão.

Anchietas, Gracos, vós dormis na orgia,

Da lua pálida ao fatal clarão.

"Brutus renega a tribunícia toga, O apost'lo cospe no Evangelho Santo, E o Cristo - Povo, no Calvário erguido,

Fita o futuro com sombrio espanto.

Nos ninhos d'águias que nos restam? - Corvos,

Que vendo a pátria se estorcer no chão,

Passam, repassam, como alados crimes,

Da lua pálida ao fatal clarão.

"Oh! é preciso inda esperar cem anos...

Cem anos. . " brada a legião da morte.

E longe, aos ecos nas quebradas trêmulas,

Sacode o grito soluçando, - o norte.

Sobre os corcéis dos nevoeiros brancos

Pelo infinito a galopar lá vão...

Erguem-se as névoas como pó do espaço

Da lua pálida ao fatal clarão.