Samba de uma nota só (One note samba), O ARRANJO #6 (English subtitles)
Samba de uma nota só marcou o começo da carreira de Tom Jobim nos EUA,
no famoso e concerto da bossa nova no Carnegie Hall. em Nova York,
em 21 de novembro de 1962
Foi o primeiro número que ele apresentou na noite
e até se enrolou na letra,
mas logo se encontrou e terminou o número, dizem, com aplausos delirantes da plateia
Mas Tom Jobim quase que não viaja para participar desse show,
e não foi só porque ele tinha medo de avião
Eu sou Flávio Mendes, esse é O ARRANJO, sejam bem-vindos
Antônio Carlos Jobim, nosso maestro soberano, apareceu na música brasileira na época da Bossa Nova,
na virada dos anos 50 para os anos 60
Nessa época ele compôs grandes clássicos da música universal,
e, sem dúvida, as suas músicas mais conhecidas
Mas olhando o conjunto da sua obra e da sua carreira
dá para dizer que ele é maior do que o movimento da bossa nova,
ele é anterior e posterior ao mesmo tempo
Mas ele nunca foi tão bossa nova quanto nas músicas que ele compôs com seu primeiro parceiro e amigo de juventude,
Newton Mendonça
Com ele Tom compôs dois dos maiores standards da música do século 20,
Desafinado e Samba de uma nota só
A BIT OF HISTORY
O presidente da gravadora Audio Fidelity, Sidney Frey,
teve a ideia de fazer um concerto para lançar a bossa nova nos EUA,
no Carnegie Hall, uma importante sala de concerto de Nova York
erguida no fim do século 19
Ele não estava pensando apenas no dinheiro que iria ganhar com a bilheteria
ou com disco que iria lançar com as músicas executadas no show
Ele estava interessado em ser o editor das músicas de bossa nova nos EUA,
isso sim, um grande negócio
A sua ideia inicial era fazer o show só com João Gilberto e Tom Jobim,
mas ele descobriu que o Tom já tinha suas músicas editadas por lá
Ele veio ao Brasil, ao Rio, à Copacabana,
e conheceu a cena jovem que surgia,
com Sérgio Mendes, Carlos Lyra e Roberto Menescal
Decidiu ampliar os convidados
Mas pareceu que todo mundo tinha virado bossa nova no Brasil,
apareceu um monte de gente que não tinha nada a ver
e o show se encaminhava para virar uma bagunça
Tom Jobim sabia que tinha muito a perder se o show fosse um fracasso,
o seu nome já era conhecido por lá
Nesse mesmo ano a sua música Desafinado tinha vendido um milhão de cópias
na gravação de Stan Getz e Charlie Byrd
Muita gente iria nesse espetáculo só para conhecê-lo,
não podia dar errado
Por isso na véspera anunciou que não iria,
foram todos, mas ele ficou
No dia seguinte foi convencido por amigos como o escritor Fernando Sabino e pelo Itamaraty
a embarcar de manhã, num voo diurno, no mesmo dia do show
"Peguei o avião aqui de manhã,
cheguei lá na hora do concerto, fui correndo, botei aquele smoking,
uma correria danada"
O teatro lotou: 3 mil pessoas do lado de dentro
e mil pessoas do lado de fora, sem ingressos
A bossa nova tinha conquistado os EUA
Depois do show no Carnegie Hall muitos artistas voltaram para o Brasil
alguns ainda ficaram por lá
Fizeram ainda um concerto na famosa casa de jazz Village Vanguard,
e o Tom contava que nos intervalos do show
subia no palco um americano narigudo, que contava piadas
O público ria muito mas eles não entendiam nada
Este americano fazendo stand up comedy era Woody Allen,
em 1962 um ilustre desconhecido
Muito já se disse que a bossa nova é o samba com influência do jazz,
mas é verdade que o jazz foi muito mais influenciado pela bossa nova do que o contrário
Grandes nomes do jazz estavam inclusive na plateia do show do Carbegie Hall,
nomes como Dizzy Gillespie, Miles Davis,
e dezenas deles gravaram bossa nova no início dos anos 1960
Gerry Mulligan era um deles
"Você conseguiu"
"Consegui"
Depois desses shows Tom ficou oito meses direto nos EUA
e gravou o seu primeiro disco lá, "The composer of desafinado, plays",
pela gravadora Verve
Tom considerava esse disco uma espécie de passar a limpo tudo o que ele já tinha feito até então
Foi uma coletânea de sucessos: Desafinado, Garota de Ipanema e, claro, Samba de uma nota só
É o arranjo dessa versão que vamos analisar nesse vídeo
É importante que reafirmar que, ao contrário do que normalmente se pensa,
Newton Mendonça não era o letrista nas parcerias com o Tom
Mendonça era um pianista, como Tom,
e os dois costumavam compor juntos, letra e música ao mesmo tempo,
os dois sentados no piano
Uma das coisas que mais incomodava Tom nesses primeiros momentos de carreira internacional
eram as versões em inglês das suas músicas
As editoras americanas sugeriam letristas que ainda pensavam no Brasil de Carmem Miranda,
a maior referência de Brasil nos EUA até então,
e queriam que as letras falassem de café, banana, coco
Tom dizia que falava um inglês aprendido no colégio e nos filmes de cowboy,
mas com ajuda de amigos ele escreveu a versão em inglês de Samba de uma nota só,
que seguia o sentido da letra original
A letra de Samba de uma nota só é das mais perfeitas letras metalinguísticas da música popular.
a melodia realiza o que diz a letra,
que faz uma parábola: uma nota só como a fidelidade ao par amoroso
O samba começa com uma nota só mas logo avisa: outras notas vão entrar mas a base é uma só
Quando entra a segunda nota, comenta: essa outra consequência,
como eu sou a consequência inevitável de você
Depois de passar por diversas notas e escalas ascendentes e descendentes,
talvez decepcionado com o excesso de notas, portanto de amores,
ele volta para nota inicial
É interessante destacar que por um momento a letra fala uma coisa e a melodia faz outra
É quando fala de outras possíveis paixões, ré mi fá sol lá si dó, mas não sai da mesma nota
Poderia ser assim:
E quem quer todas as notas, ré mi fá sol lá si dó
Não, não ficou bom
Esse era o primeiro disco de Tom nos EUA,
e era natural que tivesse um arranjador americano,
que conhecesse os músicos americanos e a forma com que eles liam e tocavam
Por exemplo: o samba é escrito no compasso 2 por 4,
um compasso raro nos EUA,
os músicos de lá não estavam acostumados a ler nesse compasso,
era mais natural para eles lerem no compasso de dois por dois
E isso modifica a escrita do arranjo, como podemos ver
Aqui o mesmo trecho escrito em 2 por 4 e escrito em 2 por 2
O produtor do disco, Creed Taylor, sugeriu um maestro alemão, Claus Ogerman
"Quando o Creed Taylor me disse que ia me dar um arranjador alemão para fazer os arranjos
eu pensei que o Creed Taylor tivesse enlouquecido,
eu digo, bom, o Creed Taylor tá louco
O Claus Ogerman é um homem muito inteligente,
ele me disse uma coisa assim:
Tom, eu vim do país do tempo forte
Quer dizer, ele vinha do país do um, dois, um, dois"
Apesar disso, Claus Ogerman se tornou um dos grandes arranjadores de bossa nova,
e tudo isso começou nesse primeiro disco com o Tom
Eles se deram tão bem que trabalharam em mais seis discos juntos,
O filho de Tom, o músico Paulo Jobim,
disse que, evidentemente, Claus Ogerman foi o maior parceiro musical do pai
A orquestração dessa faixa tinha o piano e violão de Tom Jobim,
além de baixo, bateria, duas flautas e um naipe de cordas, de 8 violinos e 3 violoncelos, sem violas
E no final ainda tem uma participação especial de um órgão, tocando os últimos compassos
Não há créditos para esse órgão, mas possivelmente foi o próprio Tom que tocou
A forma de Samba de uma nota só é ABA,
sendo que os A's têm 16 compassos e o B tem 8
Nessa gravação a música acontece duas vezes inteira
Nesse arranjo não tem introdução, a faixa começa já com o piano tocando o tema da música
Na metade da parte A entram as cordas em uníssono,
ou seja, todos tocando a mesma nota,
em uma frase descendente cromática, sempre descendo de meio em meio tom
Na segunda parte entram as flautas,
uma delas apresentando o tema e a outra fazendo uma terça acima,
com os cellos fazendo a cama harmônica a três vozes
Na parte A2 tem uma frase de violinos na região aguda do instrumento
Na volta pra parte A1 tem um improviso de flauta
No segundo B temos a melodia apresentada pelo piano,
num autêntico "one finger piano",
a forma de Tom tocar o piano tocando uma nota apenas, que tanto impressionou os críticos americanos
Na última parte da música as cordas acompanham a melodia fazendo linhas em movimento contrário,
enquanto os violinos fazem frases ascendentes, os cellos fazem frases descendentes
Pra depois fazerem uma cama harmônica a 5 vozes
E, para terminar, a participação especialíssima do órgão
Eu sou Flávio Mendes, esse é O ARRANJO,
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"Mi bemol"
"Mi bemol? Me mostre aí"
"Foi o suficiente"
"Você conseguiu, foi lindo!"
"Legal, mas eu fiz o quê?"
"Você cantou: bá!"