Roda Viva, de Chico Buarque, O ARRANJO #30 (English subtitles)
No Festival da TV Record de 1967 Chico Buarque apresentou a sua música Roda Viva
Chico já era contratado da TV Record, e estava vestido com a mesma roupa que aparecia em todos os programas da TV,
estava de smoking, porque o canal exigia roupa de gala
Mas nesse mesmo festival os seus amigos Caetano Veloso e Gilberto Gil apareceram com roupas e cabelos mais modernos
além de serem acompanhados por grupos de rock: era o início do tropicalismo
No festival do ano seguinte, em 68, Chico já cantou sem o smoking, mas havia no teatro uma torcida tropicalista, que começou a vaiá-lo
Gilberto Gil se levantou de onde estaava e se dirigiu até esse grupo, e algumas pessoas contaram pro Chico que Gil foi lá vaiar também
Gil diz que não, ao contrário, foi lá para pedir que parassem de vaiar, e não há motivos pra se duvidar disso
Mas nessa época, no tempo do tropicalismo, Chico acabou sendo eleito como representante de uma música conservadora,
de uma postura conservadora, ele era o velho
Chico conta que foi um período muito pesado, que apanhava muito na imprensa, e respondeu com um artigo de jornal que terminava assim:
"Nem toda loucura é genial, nem toda lucidez é velha"
Aquele jovem de 23 anos não só não era velho como era genial
Eu sou Flávio Mendes, músico e arranjador, esse é O ARRANJO, seja bem vindo
Se você está gostando de assistir aos episódios, pense na possibilidade de apoiar O ARRANJO e assim contribuir para que eu continue a produzir os programas
A partir de apenas 10 reais
Acesse apoia.se/oarranjo ou se você mora fora do Brasil acesse patreon.com/oarranjo
Roda Viva é uma composição de Chico Buarque que conquistou o terceiro lugar no festival, e foi apresentada com o conjunto vocal MPB 4
O MPB 4 foi formado em Niterói e originalmente de chamava Quarteto do CPC
CPC era o Centro Popular de Cultura, ligado à UNE, a União Nacional dos Estudantes
Miltinho, um dos integrantes do quarteto, organizava shows na faculdade onde ele estudava
e essas noites eram chamadas de Noites da Música Popular Brasileira
O grupo instrumental que acompanhava os cantores nesses shows era um quinteto que recebeu o nome de MPB 5
O Quarteto do CPC gravou o seu primeiro compacto em 1964, mas com o golpe militar foram dissolvidos os CPC's,
e o grupo ficou sem nome pra colocar no disco
Se lembraram dos shows da faculdade e passaram a se chamar MPB 4,
e o nome do grupo acabou por ajudar a popularizar essa sigla, usada até hoje
Foram para São Paulo nas férias de julho de 65 para tentar fazer alguns shows e tudo andou muito rápido
Contando com a ajuda de Chico de Assis, jornalista, dramaturgo e compositor,
eles em pouco tempo já estavam se apresentando na TV Record no programa mais famoso da época:
O Fino da Bossa, com Elis Regina e Jair Rodrigues
Foi Chico de Assis que falou que eles deveriam conhecer um compositor fantástico de 21 anos que tinha composto um samba,
o "Samba do Padre", que era uma obra prima
Chico e o MPB 4 viraram amigos imediatamente, de beber cerveja e jogar futebol,
e não demorou muito até que eles se juntassem nos palcos
Nos anos seguintes o público se acostumou a ver muitas vezes Chico Buarque e MPB 4 cantando juntos
Era uma relação de tanta confiança que o Chico deixou a fita com Roda Viva com o arranjador do grupo, Magro,
e foi viajar pra Itália, e só foi conhecer o arranjo nas vésperas do festival
É esse arranjo de Roda Viva, escrito por Magro Waghabi especialmente para o Festival da Record de 67,
que eu vou analisar nesse vídeo
UM POUCO DE HISTÓRIA
Chico Buarque é o filho do meio, é o quarto dos sete filhos do casal Maria Amélia e Sérgio Buarque de Holanda
Sérgio foi um importante escritor e historiador, autor de Raízes do Brasil,
um dos mais importantes clássicos da historiografia e da sociologia brasileiras
A casa da numerosa família era marcada pela paixão pela música, e talvez não por acaso o casal tenha se conhecido durante um carnaval no Rio de Janeiro
E quatro dos sete filhos viraram cantores: além do Chico,
a irmã mais velha, Miúcha e ainda Ana de Hollanda e Cristina Buarque
Sergio conheceu e conviveu com nomes como Donga, Pixinguinha e Villa-Lobos,
e se ouvia muito na casa os sambas de Noel Rosa, Ataulfo Alves e Ismael Silva
Chico nasceu no Rio, mas a família se mudou para São Paulo quando ele tinha dois anos
Cresceu em São Paulo, completamente adaptado à cidade, mas todas as férias ele passava na casa da avó em Copacabana
e nunca desfez os laços com o Rio, tanto que o apelido dele era Carioca
"Eu vinha sempre pra cá, pegava sol, voltava pra São Paulo com as gírias novas,
pra justificar o meu apelido de Carioca e manter"
Um dos grandes amigos de Sergio, de sempre frequentar a casa, era o poeta Vinicius de Moraes
Os mais velhos contavam que uma vez Vinicius quase desabou em uma poltrona sem ver que dormia ali um bebê,
o seu futuro parceiro, Francisco
Em 1959 apareceu na casa o disco de João Gilberto cantando Chega de Saudade,
que tinha sido comprado porque tinha a música do amigo Vinicius
Chico tinha 15 anos, e apesar de muito musical, não tinha nunca se interessado de verdade por nenhum instrumento da casa,
nem pelo piano e nem pelo violão da Miúcha
Começou a ouvir o disco literalmente sem parar e sem nem virar o disco,
tanto que os outros moradores da casa, de início, torceram o nariz para a voz do baiano
Até mesmo Miúcha, que se casaria com João Gilberto cinco anos depois
O surgimento da Bossa Nova foi uma revolução na música brasileira mas também uma revolução para toda uma geração,
e Chico já afirmou que jamais teria sido músico se não fosse João Gilberto e seu violão
Tão logo pegou a batida do violão e aprendeu três acordes começou a compor,
mas não passava pela sua cabeça a ideia de trabalhar com música
E nem em trabalhar em nenhuma outra área, tanto que escolheu entrar na faculdade de arquitetura meio que por exclusão
Ele já pensava em ser escritor, porque ele sempre leu muito, incentivado pelo pai, que também tinha muitos amigos escritores,
mas nenhum deles vivia só de escrever livros, todos tinham uma outra profissão
Acabou que esse foi o destino do próprio Chico, ser um escritor mas tendo outro emprego, no caso dele, a música
As primeiras músicas dele já faziam sucesso entre os amigos na Faculdade de Arquitetura,
que ficava perto de uma série de bares onde os novos e jovens compositores foram se conhecendo
Tudo o que ele compôs nesse período ele renega, chama de sua pré-história, acha a produção demasiadamente juvenil
Ou eram cópias dos sambas antigos ou eram imitações de bossa nova, segundo ele
Chico escolheu como marco zero da sua carreira um samba que ele compôs para um musical, Balanço de Orfeu,
que estreou em dezembro de 1964
A música, Tem Mais Samba, é uma mistura das suas duas influências: o samba antigo revisitado com o filtro da bossa nova
"Pra nós, ou pelo menos pra mim, houve essa necessidade de retomar
um pouco essa memória que tinha sido radicalmente abandonada com a bossa nova
Mas incorporando o que havia em termos harmônicos, e tudo o que a bossa nova tinha trazido de novo"
Outra encomenda pro teatro surgiu logo depois, no começo de 1965:
o escritor e psicanalista Roberto Freire o convidou para musicar o poema Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto
João Cabral não gostava desse poema, escrito de encomenda para Maria Clara Machado e nunca encenado
e não gostava de música, portanto não queria ver seu poema transformado em musical,
mas Roberto Freire montou o espetáculo à revelia do poeta
Chico a princípio recusou o trabalho, achava João Cabral grande demais,
mas acabou fazendo a música e se envolvendo na concepção do espetáculo, que foi um grande sucesso
No ano seguinte, Chico embarcou com a peça pra europa como violonista do espetáculo
e o João Cabral acabou assistindo a montagem em Portugal e adorou
No ano de 65 começa a Era dos Festivais, com o primeiro festival sendo produzido pela TV Excelsior
e Chico inscreveu um samba, Sonho de um Carnaval
Chico juntou uns amigos da faculdade no seu fusca e desceu a serra para assistir à eliminatória do festival no Guarujá
Quem defendeu a música, como se dizia, foi Geraldo Vandré, e Chico não gostou da interpretação,
achou o tom grave demais para o Vandré, mas assim mesmo ela se classificou pra final
A final foi no Rio de Janeiro, no antigo Cine Astoria, em Ipanema, onde funcionavam os estúdios da TV Excelsior,
e Chico aproveitou para viajar para a sua cidade natal
Sonho de Carnaval não ficou entre as primeiras, e Chico, que era um completo desconhecido,
ainda ouviu de passagem o compositor João de Barro, o Braguinha, comentar sobre a sua música:
"Mas esta última música, que porcaria!"
Sonho de Carnaval fez parte do primeiro compacto simples que Chico gravou,
junto com Pedro Pedreiro, esse o primeiro sucesso dele
A cantora Nara Leão, que sempre foi antenada com o novo,
resolveu gravar Pedro Pedreiro e pediu pro compositor ir na casa dela mostrar outras músicas
Chico chegou no mítico apartamento da Nara, onde a bossa nova teria nascido, e tocou todas as suas músicas
Além de Pedro Pedreiro, Nara ainda gravou Olê, Olá e Madalena Foi Pro Mar,
e ser gravado por Nara era ganhar um selo de qualidade
Com Pedro Pedreiro, Chico foi contratado pela TV Record, e comprou o smoking para ir nos programas cantar o seu samba
Já estava completamente enturmado no meio musical de São Paulo,
que concentrava os artistas por causa da TV Record, que tinha programas musicais todos os dias
Seus amigos mais próximos na música eram Toquinho, Caetano Veloso e Gilberto Gil,
e era muito comum que eles ficassem mostrando as músicas novas uns pros outros
Numa noite, Gil mostrou a música Ensaio Geral, que tinha composto para o festival da Record de 66,
e Chico ouviu e retrucou de brincadeira: eu vou fazer uma música pra ganhar de você no festival
Compôs A Banda, que saiu quase inteira de estalo, e ele inscreveu a música no festival,
que exigia que a música ficasse inédita até o dia da apresentação
Com isso Chico não pôde cantá-la no seu primeiro show profissional, chamado Meu Refrão,
com o MPB 4 e Odette Lara, na boate Arpége, no Leme
Ele convidou a Nara para defender A Banda no festival,
mas na primeira eliminatória a bandinha de sopros de verdade que tocava atrás dela encobriu a voz da Nara
O diretor Manoel Carlos, futuro escritor de novelas teve uma ideia que mudou a vida do Chico pra sempre:
pediu que ele cantasse a música toda primeiro, só com o violão, para que a plateia entendesse a música
O charme tímido do cantor de olhos claros e cara de bom moço conquistou o país
Os jurados deram a vitória para A Banda nesse festival,
mas a pedido de Chico, o primeiro lugar foi dividido com Disparada, cantada por Jair Rodrigues
O sucesso que veio a partir de A Banda foi avassalador e sem nenhum preparativo:
até antes do festival ele continuava achando que a música seria algo passageiro
Virou uma unanimidade nacional, pro lado bom e pro lado ruim
Chico não parou um minuto, com shows e mais shows, viagens e mais viagens, homenagens atrás de homenagens,
eram os tempos da Chicolatria
Ele sentia que essa engrenagem do sucesso estava lhe tirando o espaço que ele precisava pra compor,
Ele dizia que o tempo sem fazer nada é o tempo necessário pra fazer as coisas
Em 1967 Chico escreveu uma música e uma peça com o nome de Roda Viva, ambas com a mesma temática:
as engrenagens que fazem a vida nem sempre seguir os rumos planejados
A peça é mais clara: é sobre um artista popular triturado pelos mecanismos do showbusiness,
esse mundo de celebridades que o Chico conheceu com o sucesso
Chico entregou o texto da peça ao diretor do Teatro oficina, José Celso Martinez Corrêa, que fez uma montagem polêmica e histórica
É creditada ao diretor Zé Celso a agressividade que a encenação tinha, e ele diz mesmo que usou o texto como ponto de partida,
tratando o autor com carinhoso desrespeito
A peça estreou no Rio no começo de 68 e a temporada carioca seguiu sem problemas
Mas quando a peça estava em cartaz em São Paulo, um grupo de militantes do CCC, o Comando de Caça aos Comunistas,
invadiu o teatro, destruiu o cenário e agrediu os artistas
Já em Porto Alegre, depois da estreia, a repressão cercou o hotel e sequestrou dois atores,
que foram liberados em um matagal distante - Roda Viva acabou ali
1. MELODIA A melodia de Roda Viva se caracteriza por ter um ritmo na melodia que se repete no começo da música e no fim do refrão
São frases que terminam sempre com um compasso só de colcheias, com a última colcheia do compasso antecipando o acorde seguinte
Não é uma célula rítmica comum no samba, num samba mais clássico talvez o ritmo fosse todo sincopado na semicolcheia
Não ficaria tão bom...
Esse ritmo de 4 colcheias repetidas é tão fora da levada do samba que na gravação a banda que acompanha,
na maioria das vezes, para o suingue do samba e toca junto as colcheias, como numa convenção
2. ORQUESTRAÇÃO Fica bem claro em praticamente todos os sambas gravados pelo Chico nessa época o filtro bossanovístico,
a visão do samba pelo modo de tocar no estilo da bossa nova
Não se encontram instrumentos típicos de sambas mais rasgados, como cavaquinho, pandeiro, surdo ou violão de 7 cordas
A orquestração dessa gravação de Roda Viva é bem simples, com uma base padrão de piano, baixo, bateria, violão e percussão
O diferencial são as vozes, e o modo que Magro arranjou:
às vezes fazendo um acompanhamento harmônico com notas longas, como por exemplo as cordas fazem
Em outras vezes fazendo um acompanhamento mais rítmico, como os sopros costumam fazer, e mesmo em momentos de contrapontos
As vozes nessa gravação são como uma orquestra
Um fato que o Magro comentou é sobre a prosódia do vocal, ou seja, as palavras que são usadas quando o vocal não canta a letra
Magro conta que tinha escrito um arranjo para Lamentos, do Pixinguinha,
usando a onomatopeia tradicional de grupos vocais, "dabada", "papapa"
Quando o poeta Hermínio Bello de Carvalho ouviu o arranjo perguntou ao Magro: porque você não usa uma coisa mais brasileira?
Porque você não usa o "dum", que é o som do bordão do violão?
Segundo Magro, na época do arranjo de Roda Viva ele já estava abrasileirado, por isso o refrão cheio de "duns"
3. A FORMA DO ARRANJO A forma de Roda Viva é muito simples: uma primeira parte, a parte A, e uma segunda, um refrão, a parte B
A parte A tem 4 letras diferentes, e o refrão tem a mesma letra, então é AB repetido por quatro vezes
Chico mostrou a música para Magro e viajou pra Itália, não acompanhou a feitura do arranjo, é tudo criação do Magro
Quando Chico voltou, Magro foi explicando como tinha ficado o arranjo: a introdução é em ternário, no compasso de valsa
O vocal na intro é um posição cerrada, ou seja, todas as notas muito próximas,
com o Chico fazendo uma oitava da voz mais aguda
O solo da melodia começa com o Chico com o vocal do MPB4 fazendo um acompanhamento rítmico
Agora é um acompanhamento vocal harmônico a quatro vozes
Quem faz a melodia agora é o uníssono do MPB4
Nesse primeiro refrão eu vou mostrar o que as duas vozes mais agudas do vocal fazem de contraponto
Todos fazendo "dum"
O segundo A começa com o solo no uníssono do vocal,
com o Chico fazendo um contracanto que começa com uma frase cromática descendente
Agora um acompanhamento harmônico com as duas vozes mais graves do vocal
E o final dessa parte A é com um vocal a 4 vozes, sempre em posição cerrada
Nesse refrão eu mostro as vozes mais graves,
a terceira voz fazendo um ostinato rítmico, no contratempo
A terceira parte A começa com o uníssono do MPB4,
depois o solo vai pro Chico com a cama harmônica do vocal a 4 vozes
O vocal agora vai ser a 5 vozes, com a melodia di Chico dobrada uma oitava acima
Agora eu mostro as 4 vozes de contraponto no refrão
Volta o acompanhamento rítmico do vocal,
e também o harmônico
O uníssono de todos prepara a pirâmide vocal,
que é quando cada voz faz a sua voz num acorde em um tempo separado das outras vozes,
normalmente em sequência, como nesse caso, do agudo pro grave
Isso é uma pirâmide vocal
Nos refrões finais, cada um mais acelerado que o outro, como a roda que gira cada vez mais rápido,
eu vou mostrar as vozes em contraponto, começando pela terceira voz, a do Aquiles
Agora a segunda voz, do Magro
Agora a primeira voz, do Ruy
E o final apoteótico
Bom, esse foi O ARRANJO, se você gostou dá um like, se inscreve no canal, compartilha o vídeo
e pense na possibilidade de ser um apoiador do programa, a partir de apenas 10 reais
Acesse apoia.se/oarranjo, ou se você mora fora do Brasil acesse patreon.com/oarranjo
Muito obrigado, até uma próxima
"A Roda Viva tinha, pelo menos o final, a coisa acelerada
Eu já não sei a música foi feita assim, ou se o arranjo vocal que o Magro, do MPB 4, puxou pra isso, pra causar o impacto
Terminava de repente: 'do meu coração', pá! Aaaahhhh
Esse som do aplauso já tava previsto no arranjo, aplauso aí!"