ELE toca TODOS OS INSTRUMENTOS como NINGUÉM! - por DANILO BRITO
Eu estava pensando aqui
em um sujeito chamado Aníbal Augusto Sardinha, vulgo Garoto...
Bom, eu sou Danilo Brito! Muito bem-vindo a este canal!
Hoje nós vamos falar desse extraordinário músico brasileiro,
que teve uma vida muito intensa, tocou com todo mundo,
tocou para cima e para baixo e tocou como ninguém.
Cada instrumento que tocava tocava como ninguém... e eram muitos instrumentos, hein?
Garoto tocava bandolim, tocava cavaquinho, tocava violão,
violão tenor, banjo, guitarra portuguesa, guitarra havaiana, "homi"...
Era uma fera! Era um gênio!
Aníbal, filho de portugueses,
nasceu no dia 28 de junho de 1915
e morreu muito cedo, aos 39 anos de idade,
no dia 3 de maio de 1955.
Aos 39 anos, ele deixou uma obra
que ficará para sempre! E influenciou
a geração inteira dele e as posteriores também.
Isso é um grande feito.
Garoto nasceu bem no centro de São Paulo...
E ele desde muito cedo já tocava,
profissionalizou-se aos 11 anos de idade,
e era apelidado o "Moleque do Banjo" tocava banjo...
Depois passou a ser "Garoto" e esse nome artístico levou para a vida toda.
Eu ia dizer que o instrumento principal do garoto seria o violão tenor
mas isso é difícil arriscar, sabe? Porque ele era tão bom
em todos os instrumentos que não dá para dizer um negócio desses...
Mas dá para dizer que ele era muito atuante com esse instrumento
o violão tenor dinâmico era o que ele tocava
é um instrumento maravilhoso tem um prato de metal por dentro,
que a gente não consegue ver, ele tem umas bocas assim.
Pena que não esteja aqui com meu violão tenor para mostrar em detalhes para vocês.
Mas caso vocês queiram deixe aqui no comentário
e eu farei um vídeo novo com maior prazer...
inclusive mostrando a diferença do violão tenor tradicional, o dinâmico,
que o Garoto tocava, e a violinha, que o Jacob do Bandolim tocava.
Bom, voltando ao Garoto... O Garoto começou a fazer sucesso
desde muito cedo pela cidade de São Paulo e também pelo interior do Estado.
Fez uma dupla famosa com Aimoré, grande músico também.
E quando o Sílvio Caldas
foi do Rio de Janeiro para São Paulo para fazer algumas apresentações...
Sugeriram que ele fosse acompanhado pelo Garoto.
Aí ficou meio assim... "Mas eu não conheço esse Garoto..."
Entenderam?
"Não, mas tudo bem... Pode confiar! o rapaz é bom!"
Aí, quando o Garoto acompanhou o Silvio Caldas... aí ele ficou doido!
Silvio Caldas o levou para o Rio de Janeiro...
E ali ele se enturmou com a nata da música brasileira.
Foi lá que ele conheceu Carmen Miranda
e com quem ele viajou para os Estados Unidos.
E o Bando da Lua também.
Grupo famosíssimo da época, de extraordinários músicos.
Mas o Garoto foi
como uma atração à parte... Ele não foi fazendo parte do Bando da Lua, sabe?
Ele foi como uma atração. Tinha a Carmen Miranda, Garoto e o Bando da Lua.
E Carmen Miranda fez questão que Garoto fosse junto nessa viagem!
Isso no comecinho dos anos 1940.
Agora quem fez questão mesmo que ele permanecesse nos Estados Unidos
foram os americanos... Os norteamericanos endoideceram...
Iam assistir Carmen Miranda mas quando viam aquele homem da violinha tocando... Avh...
O Garoto pintou miséria aonde foi...
Aonde ele tocasse, por onde ele passasse... Sabe?
Garoto participou, inclusive com Carmen Miranda, de filmes hollywoodianos.
Alguns têm imagens dele tocando...
Ele aparece lá no cantinho tocando o violão tenor dele, em pé!
E alguns têm a trilha sonora que a gente identifica que é o Garoto...
Só podia ser o Garoto tocando!
Como naquele filme... É um filme lindo que eu recomendo também.
Assim como eu recomendei em outro vídeo o "À Noite Sonhamos", sobre a vida de Chopin...
"Você Já foi à Bahia?" - interrogação!
Finalmente, o título "Gênio das Cordas"
não poderia ser melhor empregado... Para Garoto!
E eu fico com um pé atrás de chamar as pessoas de gênio, sabe?
Porque hoje em dia parece ser uma palavra...
Muito desgastada, não é?
Deturpada, até...
Porque hoje em dia o sujeito dá um chute
numa bola, bate de qualquer jeito na parede e já é chamado de gênio, né?
Se é assim, o que nós vamos falar sobre Garoto?
Sobre Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Villa-Lobos, Waldir Azevedo...?
E sobre essa questão, quem merece ser chamado de gênio, o que é gênio....
Eu gostaria de lhe pedir a opinião
para que você escreva aqui nos comentários.
A sua participação é importantíssima para este canal!
Desde já muito obrigado.
Eu sempre tento usar essa palavra com muito critério.
E eu tenho certeza de que Garoto foi um gênio.
Porque Garoto abriu espaço, abriu caminho
para uma geração de outros músicos geniais, não é?
Jacob do Bandolim,
que foi, na minha opinião, o maior gênio brasileiro
e seguramente um dos maiores brasileiros de todos os tempos.
Foi a uma entrevista na TV, em 1965, em maio
e ele disse, com certa revolta, e com razão, que no dia 3,
portanto 3 de maio de 1965, abre aspas, "Decorreram dez anos..."
"...do falecimento de Garoto, Aníbal Augusto Sardinha..."
"Fato que eu não vi noticiado..."
"... em qualquer revista ou jornal ..."
"... e isto é lamentável ..."
"... Porque é um artista a que todos nós, solistas, devemos as luzes..."
"... bebemos e aprendemos alguma coisa." Fecha aspas.
Agora, você veja, Jacob do Bandolim falar um negócio desse do sujeito!
E não para por aí!
Radamés Gnattali era doido pelo Garoto.
Tudo o que é coisa que Radamés ia fazer
ele tinha que botar o Garoto tocando violão tenor, cavaquinho ou um violão...
Qualquer coisa que fosse...
Waldir Azevedo, por exemplo, no depoimento
ao Museu da Imagem e do Som, "depoimento para a posteridade", 1967,
disse o seguinte: "Garoto foi o maior músico que eu conheci!"
"Tocava todos os instrumentos sem enganar!"
Estás vendo um negócio desses?
Waldir Azevedo, famoso no mundo inteiro, que também era um gênio.
E quando ele dizia "tocar sem enganar"
é tocar todos os instrumentos de maneira perfeita.
Eu vejo muita gente falando: "Olha, se você quer ser instrumentista..."
"... procure tocar um instrumento só, porque se você for tocar mais de um..."
"... você acaba relaxando..."
"... você não consegue desenvolver..."
Então você vai ficar, vamos dizer, [risos] meia-boca para cada instrumento...
Ou você aprende cavaquinho, ou aprende bandolim, ou violão...
Mas todos os instrumentos é difícil... Mas Garoto vai contra tudo isso!
Porque o Garoto tocava todos os instrumentos, pelo menos, todos esses que eu citei...
de maneira perfeita e exemplar!
Você compara Garoto tocando cavaquinho
com o Waldir Azevedo, que foi o maior de todos,
maior de todos os cavaquinhistas, solistas...
E você fica ali...
Puxa vida, que coisa impressionante! Não é?
Tem hora que você pende mais para o Garoto, tem hora que mais para o Waldir...
Eu gostaria de mostrar um trecho do Garoto tocando cavaquinho...
É só o áudio... Para que vocês percebam que coisa maluca que era esse homem...
Trata-se do "Concertino para Cavaquinho", composição sua
E que ele tocou com a orquestra de Radamés Gnattali.
Isso foi encontrado no arquivo de Jacob do Bandolim.
Ouçamos um pedacinho...
E quando você escuta o Garoto tocando bandolim...
Você fica impressionado...
com a beleza da riqueza de sons que ele tirava do bandolim!
A destreza, a técnica, tudo!
E o Garoto não era somente um instrumentista admirável.
Ele era um criador de estilo.
Ele era um estilista de cada instrumento e da música brasileira em si.
Os principais músicos do Brasil
foram influenciados por Garoto...
não somente do Choro, mas da Bossa Nova, também.
O Garoto foi o precursor da Bossa Nova.
Ele veio com esse jeito diferente...
Ele que deu destaque à harmonização com dissonâncias.
Tocava violão de uma maneira diferente.
As composições... a interpretação dele... de maneira mais leve...
Mais solta, mais suave...
O Garoto era um tremendo compositor. Eternizou músicas como
"Gente Humilde", "Duas Contas", "Desvairada", que ele gravou em bandolim.
Aliás, "Desvairada" é objeto de teima,
de discordância, hoje em dia...
Porque há uma música do grande Luperce Miranda, o "Paganini do Bandolim",
Tem vídeo sobre ele neste canal. Vou deixar o link aqui na descrição para você...
O Garoto compôs a "Desvairada"
e Luperce Miranda compôs "Risonha".
São duas valsas... valsa-choro...
meio ligeiras... que elas têm um início praticamente idêntico.
E aí fica essa questão, quem plagiou quem...
Se é que é um plágio...
Por exemplo, a "Desvairada" começa assim:
E a risonha é assim:
É parecido não é? [risos]
Mas depois elas tomam caminhos diferentes.
As duas têm três partes lindíssimas.
Sobre isso, eu gostaria de falar em outro vídeo... Mas isso se vocês quiserem...
Se vocês quiserem, vocês deixam aqui nos comentários...
E aí eu faço um vídeo mais detalhado sobre esse negócio, sobre essa questão...
Mas Garoto deu trabalho
a muito instrumentista extraordinário... E ele era um grande improvisador!
Ele se destacava muito por isso...
Mas sempre respeitando as composições!
Respeitando a música!
Não improvisando de maneira desenfreada, desde o começo da música,
Como muitos fazem hoje em dia.
Você começa a escutar um Choro, daqui a pouco você já não sabe mais
que Choro que está tocando. Começa em "Murmurando" termina em que?
Termina em outra música... sei lá... Você já se perde todo [risos]
Mas o Garoto, não! Ele respeitava! Tocava com perfeição!
Com sentimento, sonoridade, expressão artística verdadeira!
Mas como irreverente que era, grande improvisador, criador...
Ele reservava um trecho da música para improvisar.
Aí ele deitava e rolava!
Na gravação de "Um a Zero", composição de Pixinguinha,
Ele dá uma demonstração dessa, da capacidade de improvisação, de criação.
Ele toca a música inteira, como é. E, no final,
como destaque,
ele modula - ele muda de tom, ou seja, do tom original, que é em dó maior.
E para deixar bem claro que ele tocou a parte da música,
ou seja, ele tocou o que Pixinguinha gostaria de ouvir,
ou seja, é uma obra de arte aquilo.
Você mudar a melodia que o Pixinguinha fez... É quase que um sacrilégio.
Garoto sabia disso! Então, ele tocou a composição de Pixinguinha,
chegou no final, ele modula, ele sobe um tom... E aí ele sai improvisando...
Esse é o "Um a Zero", para quem não lembra:
Aí quando termina aqui:
Em vez de terminar:
Aí, ele modula:
Vai para Ré maior
Repete a primeira parte, em ré maior, só que improvisando.
É uma beleza, hein?!
Uma das composições clássicas do Garoto é o Choro "Jorge do Fusa".
Tem esse nome porque,
provavelmente, ele homenageou o Jorge... E dizem que é homenagem ao Jorge Santos,
lendário violonista que tocava com Waldir Azevedo...
E "Fusa" porque tem umas fusas pelo meio.
Fusa é o tempo da nota, é o nome que se dá
ao tempo das notas rápidas...
Tem uma escala rápida, dificílima, pelo meio.
Esse Choro foi composto para violão solo pelo Garoto.
Mas eu fiz uma transcrição para violão tenor. E achei que soou bem, sabe?!
Tem duas versões: uma no meu disco, o disco "Da Natureza das Coisas",
eu estou acompanhado da formação clássica do conjunto regional,
e outra, com João Luiz, o grande violonista brasileiro, que mora em Nova York.
Fizemos aqui uma versão para violão tenor e violão.
E eu vou mostrar aqui um trechinho para que você veja:
E por falar em formações, Garoto gostava de fazer esses experimentos.
Ele formou o importante Trio Surdina,
ao lado de Chiquinho do Acordeon e Fafá Lemos, tocando violino.
Uma das músicas do Garoto que eu mais gosto é o "Amoroso"!
Um Samba de um balanço... Uma melodia que é uma coisa maluca!
Como ele conseguiu tanta expressão...
Com pouquíssimas notas...
Pouquíssimas naquelas...
Porque quando você ouve o Garoto tocando...
Na gravação com o Trio Surdina, por exemplo,
ele toca as notas da melodia...
Só que ele vai preenchendo com pequenos acompanhamentos...
do seu próprio instrumento.
Então, aquilo fica tudo muito exuberante!
Simples, ao mesmo tempo, mas com uma dificuldade enorme.
Ou seja, aquela simplicidade que só um verdadeiro mestre alcança, compreende?
Em homenagem a Garoto,
gravei "Amoroso",
ao lado do pianista André Mehmari.
E você fique atento porque nós teremos aqui o "Amoroso"!
Na interpretação nossa, ou seja, minha e de André Mehmari.
André não consegue... Ele faz movimentos involuntários...
Quando eu faço aqui o que eu chamo de teleco-teco...
Aquele balanço...
Lá dos anos 1930, 1940, que hoje é tão raro de se ouvir, mas é aquele negócio:
Quando eu faço isso na introdução...
André Mehmari, involuntariamente, ele começa a se mexer, ele faz uma dancinha....
Olha, vale a pena, hein?
[risos]
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