SOC - SÍNDROME DA ONOMATOPEIA CORPORAL
-Bom dia. -Oi, linda.
Já estou acabando aqui pra você usar, tá?
-Não, tudo certo. -Coisa rápida.
Ai, não faz isso.
-Eu vou sair. -O quê?
Gargarejo, eu tenho muita aflição do barulho.
-Barulho do gargarejo? -É.
-Ué, barulho de boca limpa, né? -Sei lá,
-fico meio com nojinho, sabe? -Sério?
Prefere que eu fique com bafo, eu fico.
-Vem cá, -Não, relaxa.
Vai no teu tempo aí. Eu vou ficar ali na sala
e volto e termino de fazer.
O que é isso?
Você faz gargarejo cantando "lelê lelê"?
Ué, como todo mundo, né?
Não. Eu que faço gargarejo como todo mundo, né?
Meio Pato Donald se afogando.
Isso é um bocejo?
Júlia, eu ia te contar isso um pouco mais pra frente
porque a gente acabou de ficar, mas eu vou te contar agora.
Está bom? Eu tenho síndrome...
-rara. -Síndrome?
Síndrome da onomatopeia corporal.
-SOC. -SOC?
O meu corpo emite sons diferentes de sons de corpos
de outras pessoas normais,
-digamos assim. -Meu Deus, Paulo,
agora faz sentido. A gente estava jantando ontem.
Aí na mesa, você ficava fazendo umas imitações.
Não, não. Não imitei ninguém.
Seu perfume estava me dando alergia,
então, eu espirrei.
Paulo, por que você não falou isso antes?
Ôloco, meu.
-Meu Deus. -Desculpa,
eu não queria te atrapalhar. Eu juro.
Não, você não precisa pedir desculpa.
Deve ser muito difícil conviver com isso.
Não.
Não precisa chorar também, né, Paulo.
-Vem cá. -Não. Não me abraça, não.
Desculpa. A gente comeu muito ontem, você sabe.
Eu estou...
estou com gases. Desculpa.
-Quanta coisa. -Deve ter um barulhinho engraçado
também, né. Será que...
você se incomodaria de...
-de me mostrar seu peido? -Julia, para com isso.
Deve ser um barulhinho legal.
Caraca.
Só você, cara. Vai, então.
Mais um que eu sei fazer é assim. Quando eu faço isso, olha.
Olha como é que sai.
É tetra, é tetra.
Está vendo?
Sério, é legal. É engraçado.
-Jura? -Juro.
Gargarejo não ficou nem tão estranho assim agora, né?
Não, não. Parece que abriu um outro mundo assim pra mim.
Não tem nem problema, mais.
Faz o gargarejo.
É legal o barulhinho.
Vem cá.
Não acredito.
Eu te falei, o jantar de ontem. Pesado.
-Tudo bem, eu vou fechar aqui -Salci fufu.
Ai, Paulo. Isso é muito nojento.
Ai.
Ai, não. Não vou voltar aqui, não.
Não, Julia. Foi beijo.
Foi beijo, Julia.
Sejam bem vindos a mais uma sessão do nosso grupo de apoio
aos portadores de SOC.
Quem é que gosta de ficar com a boca fedendo,
com bafo? Vocês querem?
Ficar com cárie, com a boca fedendo.
A gente precisa se libertar dessas coisas.
Eu já me libertei, gente.
Quer ver, não tenho a menor vergonha mais
pra nada disso. Vamos lá, gente.
Comigo, hein. Atenção.
Alô, minha bateria...