OFERENDA
Mentira que você lembrou do meu dia!
Não precisava!
-Omolú? -E sabe o meu nome, que amor!
Pipoca! Eu adoro pipoca!
É meu prato favorito, pipoca com lasca de coco.
-É uma oferenda para você. -Estou vendo, meu amor!
Que coisa linda!
-É que eu estou... -Olha!
Estatuinha! Quem te falou que eu colecionava, tipo Marvel?
O pai de santo... o...
-O Pai Cláudio de Obaluaê. -É!
Que sacana!
Ele me ligou um dia desses perguntando o que eu gostava,
eu nem desconfiei.
Não vá me levar a mal,
mas esse sou eu, eu já tenho.
-Você fica chateada se eu trocar? -Não!
Tá bom, então, eu vou... Onde você comprou?
Na Casa do Mago, no Humaitá, conhece?
Eu sei onde é!
Eu passo lá e troco por um Xangô, está tudo certo.
-Tá. -Mas eu adorei tudo!
Cumbuca de barro, eu estava precisando tanto.
-Pode ir no micro-ondas, essa? -Ué, eu acho que pode.
Que maravilha!
Agora, o charuto, eu não vou nem pegar.
É porque eu parei... Eu podia até mentir,
"ah, quero", e jogar no mato.
Não vou fazer isso.
-É que eu parei fumar. -Ah...
-Tá. -Pode retirar.
Não é nem questão de saúde, é segurança.
Aqui, olha.
Que com essas palhas secas aqui a manutenção é complicada.
Tudo bem, sem problemas.
Em dia de sol, eu nem saio muito, com medo de gerar fagulha.
Mas eu adorei que você veio. Você é minha filha?
-Sou sua filha! -Conversa!
-Sou sua filha! -Eu achei que não tinha filha.
Achei que eu era estéril.
Porque o pessoal é mais filho Iansã,
mais filho de Iemanjá, o pessoal mais bombado lá...
Eu trabalho mais no underground mesmo.
Eu não estou nem no pacote básico dos búzios.
O que eu te dou? O que você quer de mim?
Você quer o quê? Amor em três dias?
-É o Jorge ainda? -Não!
Sou casada com o Antônio.
Mas não ama o Antônio, que a gente sabe.
Vou trazer o Jorge para você, me dá três dias.
Não, espera!
É... Uma moto para o meu cunhado, então.
-Moto? -Moto.
Mas o meu trabalho não é muito...
Moto não é muito a minha seara, né?
-Ah, é? -Meu negócio é mais saúde.
Você não tem uma doença para eu curar?
-Estou até puxando aqui, mas... -Nada? Uma gripe?
-Coceira braba, ziquizira? -Não...
Alguma coisa? Aquela coceirinha sua, já resolveu?
-Já, já... -Fui eu.
-É... -Está tudo ótimo, obrigada.
Mas fica chato para mim, né?
Você me dar uma oferenda e sair de mão abanando.
Nada? Vamos dançar!
-Vou botar uma música para a gente. -Não, não precisa.
-Precisa, sim! -Não, é que...
Você veio até aqui.
Eu sei que não é fácil fazer oferenda para mim.
Tem que ser em encruzilhada perto de bambuzal.
É muita exigência...
Não sou nem eu que peço, são os empresários.
-Mas vamos pelo menos nos divertir. -Tá.
Venha cá me ajudar, venha cá me defender
É um grande orixá
Quem? Atotô Obaluaê
Venha cá me ajudar
E vem, e quebra
E vem na paradinha
-Deu minha hora. -Mas já? Agora que eu estou...
Já, já.
Vai ter uma festa para mim num terreiro lá na Penha.
Não dá ninguém.
Mas a mãe de santo é tão amorzinho, que eu faço questão de ir.
-A bênção, meu pai. -Não tem nada de pai, nada.
-A gente é amigo. -Mentira...
Obrigado mesmo, viu? Amei que você veio.
É a primeira pessoa que faz isso por mim.
Olha quem está aqui.
Que maravilha. Xangô?
Não sabia que vocês eram amigos, conhecidos...
Não, não é Xangô, não.
Esse aqui é um cara que faz tatuagem lá no Baixo Gávea.
Tatuagem de henna.
Ele vai comigo para a Penha, vai para a minha festa também.
Vamos, Nilo?
Tchau, obrigado, viu? Não vamos perder contato.
-Não. -De verdade. Eu...
-Prazerzão, viu? -Prazer...
Nunca ninguém fez nada parecido, de verdade.
-Vem aqui... e cruza... -Atotô Obaluaê...
Aí, irmão.
Vai se queimar com o cigarro aí.
Puta que pariu! Eu tenho uma raiva de fumante!
Não assopra, que alastra, idiota!
Tem que rolar!