ME PRENDE
Tem início a audiência da Ação Penal 50465295.
Depoimento do senador Luis Claudio Costa.
Excelência, por favor, só um requerimento aqui.
-Pois não, senador. -Eu gostaria de fazer uma pergunta.
A nível de curiosidade.
Se eu confessar o meu crime, eu já vou preso daqui?
Não, agora, não. Tem a segunda instância ainda.
Tá. E essa segunda instância pode ser hoje?
Não, aí é outro juiz que marca.
Entendi. E se for outro crime?
Que outro crime, senador?
Qualquer outro crime desses que você está investigando aí:
Lava-Jato, Odebrecht, Furnas, BNDS...
Qualquer coisa dessa aí.
Não. No caso, o senhor, como senador, tem imunidade.
Só é preso em flagrante de crime inafiançável.
Que são...?
Terrorismo, tráfico de drogas, sequestro.
Tortura.
-Aí é na hora? -Não.
Nesse caso, os autos são enviados pra Câmara,
e eles decidem no voto se o senhor vai ser preso ou não.
Tá. E se eu renunciar?
Senador, se o senhor está com medo de ser preso hoje,
o senhor pode ficar tranquilo porque isso não vai acontecer.
Não, é muito pelo contráro. Eu quero ser preso hoje.
-Como assim, senador? -Minha vida está uma merda, excelência.
Entendeu? Eu roubei? Roubei.
Roubei bem, roubei legal, roubei bacana. Entendeu?
Minha mulher comprava aquelas bolsas dela
de Louis Vuitton, de Balenciaga, sei lá o quê.
Mas olha só pra minha cara, doutor.
Olha o tamanho destas olheiras aqui.
E o senhor ainda quer ser preso? Não estou entendendo.
O senhor não está entendendo porque não acorda todo dia
às 5h30 achando que a polícia vai bater à sua porta às 6h, né?
Eu estou nessa agonia. Eu acordo... Não tem nem alarme!
Já vai no automático!
O senhor lembra, na época de escola,
quando o senhor dava um pescotapa assim no seu amigo,
e ele tinha o direito de revidar?
Aí, só de sacanagem, ele não revidava,
e você passava o recreio inteiro
esperando aquele pescotapa que não vinha.
E você nem aproveitava o recreio.
Eu estou assim, doutor.
Há 2 anos e 8 meses, esperando esse pescotapa que não vem.
Isso é desumano.
Senador, eu não posso acreditar que o senhor está disposto
a abrir mão da sua liberdade por causa dessa ansiedade.
Tem liberdade, não, doutor.
Não posso ir a um restaurante, que nego me xinga.
Eu vou a um estádio de futebol, e nego me mata.
A minha mulher já não olha na minha cara.
As minhas filhas ficaram putas já comigo.
A mais nova inclusive, só de sacanagem, virou puta.
Puta mesmo. Virou puta. E ela está gostando.
Nem viajar mais eu posso.
Senador, me lembro de ter bloqueado suas contas,
agora não me lembro de ter impedido o senhor de viajar.
O senhor bloqueando minhas contas, eu não posso viajar de jatinho.
Como eu tenho que viajar agora? De avião de carreira.
Pegar voo de Tam, Gol, Avianca, essas coisas.
O senhor sabe o que acontece comigo quando eu piso num avião desses?
Já começam aquelas fileiras 12 e 13
levantar já o celular ligado com a câmera,
e os outros levantam com tocha acesa já.
E aí sou eu lá dentro, 1h30 preso, que não posso nem sair de lá.
com aqueles gregoristas lá me enchendo o saco,
mamãe-falei, aqueles...
Uma hora e meia de bullying lá dentro.
Então por que o senhor não aproveita,
já que não está conseguindo sair de Brasília,
para trabalhar um pouco, quem sabe?
Relaxar um pouco a cabeça.
Primeiro que eu não gosto de trabalhar.
O senhor deve ter a minha presença no Congresso,
que o senhor vai ver que é raríssima.
Eu vou pouco lá porque meu clima lá é uma merda.
Eu votei pra Dilma ficar, aí o pessoal da direita já não gosta.
Depois eu votei para o Temer ficar,
e o pessoal da esquerda também não vai com a minha cara.
Outro dia,o Jean Wyllys veio cuspir em mim, eu sou bom de esquiva, pegou aqui.
E aí, quem sobra para eu conversar?
Sobra Bolsonaro e Lindberg.
O senhor já sentou numa mesa com Bolsonaro e Lindberg
para tomar um chope?
É melhor arranhar um quadro negro. É mais gostoso do que isso, doutor.
Não dá para mim. E aí, quem sobra para mim?
Só meus amigos pessoais.
Senador, aí já não é da minha conta.
O senhor que vá encontrar seus amigos pessoais depois daqui.
Mas é exatamente isso que eu estou tentando, doutor.
Vai.
Senador, recomponha-se.
Senador, não adianta. Isso não é crime hediondo, senador.
Senador, não adianta.
Cagar, não. Cocô não é legal.
Não, não, senador. Por favor, não. Não, senador.