FALA PRA ELA
Quando eu sair daqui, vou montar um negócio para mim.
Vou vender tapioca e crepe.
Pensei num nome, "Tapicrepe". Maneiro.
Aí vai ter crepe de tira de filé com cheddar,
carne moída com queijo coalho,
também vai ter carne seca com catupiry.
Todo mundo gosta, né? Tapioca doce para quem gosta.
Vai ter banana com Nutella, banana com doce de leite,
banana com caramelo.
Tapicrepe de Negresco, tapicrepe de doce de leite Havanna.
Também posso fazer o infantil, que vem com M&M por cima. Caralho!
Porra!
Abaixa! Sai, caralho! Sai, porra!
Abaixa, filho da puta!
Protege, porra!
Caralho!
Porra! Por favor, não!
Soldado ferido!
Eu vou te tirar daqui. Calma, eu vou te tirar daqui.
-Escuta! Escuta, porra! -Escuto, escuto!
-Fala para a minha mulher... -Falo o que você quiser!
Fala para a minha mulher que ela tem bafo.
Desculpa, não entendi. O quê?
Fala que ela tem bafo, porra!
Que de manhã é pior, parece um esgoto.
-Fala para ela, por favor. -Jorge, espera, espera.
Você não quer que eu diga que você a ama?
-Os seus filhos... -Não, porra!
Eu falava que a amava todos os dias,
mas ela precisa saber que tem bafo.
Ninguém tem coragem de falar que ela tem bafo.
-Entendeu, irmão? -Entendi, entendi.
Fala para ela que ela tem bafo, porra!
Entendi. Eu vou fazer o seguinte, olha só.
Eu vou levá-la ao dentista
como se fosse um exame de rotina, uma limpeza.
Não, porra! Tu é meu irmão!
Tem que ser tu! Tem que ser tu, porra!
Um dentista fala isso melhor.
Eu vou falar com o irmão dela, então.
Alguém com mais intimidade, Jorge!
Não, porra! Tu! Tu é meu irmão. Eu preciso que tu fale para ela.
Puta que pariu... Deixa eu te falar uma coisa.
Eu vou pegar um papel, e você escreve uma carta,
-avisando que ela tem bafo. -Essa mão não mexe mais.
Eu estou fodido, cara.
Não dá tempo de escrever porra nenhuma.
Fala para ela que ela tem bafo!
Eu já entendi, filho da puta! Vamos fazer o seguinte?
Grava um áudio, que eu mando no "Whats".
Puta que pariu, estourou o esôfago. Puta que pariu.
-Caralho, irmão. -Fala, fala, caralho.
Avisa ao meu pai
que eu estou roubando a firma dele há anos, caralho.
Você está fazendo isso mesmo? Puta que pariu...
Não acabou, não, porra! Avisa ao meu irmão,
professor de Jiu-Jitsu, que eu comi a mulher dele,
que eu sou pai do filho del.
Avisa ao meu sobrinho que eu sou o pai dele.
Espera aí, porra! Você está fazendo merda para caralho!
Como eu vou avisar isso, Jorge?
Porra, aí você me fode, Jorge. Como eu vou chegar falando isso lá?
-O que foi? -Avisa ao meu cunhado
que eu fiz as montagens dele chupando pau...
-Não foi, não. -Eu que botei na internet.
Não foi tu, não. Tu fez isso mesmo?
Eu compartilhei para caralho. Foi tu, meu irmão?
-Valeu, cara. -Que isso...
Escuta, caralho! Avisa a minha mãe...
que meu avô me molestava...
sempre. Ai, está doendo...
Caramba! Aqui, olha! Mataram ele, olha!
Meu Deus do céu, Jeová! Que gente ruim!
Meu Deus, mataram o soldado! Mataram!
O Jorge seria o meu sócio na Tapicrepe, sabia?
Vou até fazer um crepe em homenagem a ele,
vai levar Polenguinho.
A família dele vai comer de graça, mãe, pai...
O que foi?
Tá.
-Eu pensei em crepe de frango... -Fala baixo, irmão.
Eu estou falando baixo! Que saco, porra!
É uma mistura tranquila, entendeu? Isso vem...
-Cala a boca, espera aí! -Eu estou falando baixo, caralho.
É uma mistura. Eu não sei se eu conto agora,
ou se você vai ser capaz de não espalhar para as pessoas.
Me escuta, porra. Eu estou falando do crepe.
Aí tem uma hora que, por exemplo...
Porra!
Caralho!
Meu Deus!