×

Nós usamos os cookies para ajudar a melhorar o LingQ. Ao visitar o site, você concorda com a nossa política de cookies.

Promoção de Ano Novo Até 50% de Desconto
image

Paciente 63 - Primeira Temporada, T1E8

T1E8

Paciente 63, episódio 8, Gaspar Marim.

Pro registro, 29 de outubro de 2022, 9h34 da manhã.

Eu estou em reunião com o chefe da psiquiatria, doutor Aldo Risolati,

para solicitar a troca do psiquiatra responsável do paciente 63.

Eu te chamei aqui para falar sobre isso, Elisa.

Nós temos uma situação delicada que pode comprometer você.

Trouxeram ele?

Ele já está aqui, doutor.

Peça para ele entrar sozinho.

Pode entrar, por favor.

A gente está esperando alguém?

O teu famoso paciente 63.

Aconteceu uma coisa bem grave.

Bom dia, doutora.

Doutor.

Eu acho que o Sr. Marim tem alguma coisa para te contar, Elisa.

Sr. Marim?

O Sr. Marim nos envolveu numa situação extremamente grave, não é?

Eu... eu não estou entendendo nada.

Por favor, conte para a doutora.

O que?

Parou o registro e agora que você tem na sua frente a médica responsável,

você poderia repetir para ela o que contou para nós hoje no plantão da manhã?

Sim.

Meu nome verdadeiro é Gaspar Cabral Marim.

Eu sou carioca, mas moro aqui em São Paulo, na rua Arthur de Azevedo,

1335, em São Paulo.

Eu sou médico.

Sou carioca, mas moro aqui em São Paulo, na rua Arthur de Azevedo,

1332, no bairro de Pinheiros.

Eu sou separado, tenho dois filhos, um de 12 e um de 14.

Pode nos dizer a sua profissão?

Posso. Eu sou escritor.

Não.

Que tipo de coisas você escreve?

Eu sou escritor de ficção científica.

Para esclarecer, eu sou engenheiro mecânico formado pela Unicamp.

Faz alguns anos comecei a me interessar por ficção científica e a escrever sobre o assunto.

Como um hobby mesmo.

Acontece que hoje os meus livros digitais vendem bem mais do que eu esperava.

Tenho muito fã desse gênero.

Posso continuar?

Pode. Pode continuar.

Faz alguns anos que eu escrevo ficção científica

num fórum colaborativo de autores chamado Fundação SCP.

Pode procurar no Google.

SCP-PT-BR.wikidot.com

Eu estou na filial Lusófono.

Ele está mentindo.

Deixa ele continuar.

Ele me disse que...

No momento que vocês me acharam, uma semana atrás, até agora,

eu venho participando de um experimento do fórum.

Que tipo de experimento?

O fórum lançou um desafio que consistia em mentir.

Mas não mentir para qualquer um e nem de qualquer jeito.

Mentir utilizando elementos da ficção científica.

E escolher para isso alguém especialmente cético.

Um profissional.

Alguém como você, doutora Elisa.

Ele está mentindo, Aldo.

O paciente está mentindo.

Na semana passada, no mesmo dia em vários países e na mesma hora,

muitos pedros Reuters tiraram a roupa e se deixaram ser presos.

Todos tinham que convencer uma pessoa desconhecida de que eram viajantes no tempo.

Para ganhar o desafio, era preciso confirmar que eram capazes de fazer isso com alguém muito qualificado.

Com uma mentira imbatível.

No mínimo, durante três dias.

A gente já tem oito aqui.

Não, não, não. Isso não é possível.

Eu peço milhões de desculpas, doutora Elisa.

Eu estou muito envergonhado.

Eu nunca tinha participado desses desafios, mas esse...

Esse eu não consegui recusar.

Era uma provocação, sabe?

Se eu conseguisse convencer vocês,

é porque eu poderia convencer totalmente os meus leitores.

Mas não se preocupe.

Eu jamais vou revelar os nomes verdadeiros de vocês.

Provas, senhor Reuter.

Me dê provas do que você está dizendo.

A Fundação SCP é especializada em criar falácias e brechas lógicas falsas.

Porém, incontestáveis.

Pode me procurar. Anote.

Não, não. Eu não quero anotar nada.

E a Maria Cristina Borges?

É um nome que eu achei na internet, por acaso.

Eu não acredito.

Entre no fórum.

Um fórum?

Não, não.

Entre no fórum.

Um fórum?

Um fórum de escritores de ficção.

Uma ala nova da WIC de ficção que se chama Fundação SCP.

A gente tem até um videogame.

SCP é um acrônimo que significa procedimentos especiais de contenção.

Um site que se baseia num projeto de ficção colaborativa

sobre indivíduos, entidades, localizações e objetos que violam as leis naturais.

Como o personagem Pedro Reuter.

O desafio era simples.

Era preciso fingir ser um viajante no tempo.

Mas...

E o Pégaso?

Pégaso?

Os medos do fim do mundo já não mais são representados por guerras nucleares,

nem pela mudança climática, mas sim por um vírus.

O Pégaso é o medo natural da próxima coisa que poderia vir.

Eu sou escritor, doutora.

Eu ganho dinheiro por mentir, por inventar.

Eu passei os últimos nove anos escrevendo no fórum sobre futuros distópicos.

E o que acontece com as teorias...

Eu tirei tudo do fórum.

Pode procurar.

Pegue seu celular, faça a busca.

O meu nome é Gaspar Marim.

Meu apelido é Gregor Reuter.

Você manipulou a informação confidencial do Pégaso.

O que eu falei para o meu marido antes de morrer...

Eu sonhei...

Eu sonhei que...

Você mesma postou nas redes.

Tudo está nas suas redes.

Você me hackeou?

Não.

Não, não, não.

Eu nunca faria isso.

Eu só conferia suas publicações.

As pessoas postam coisas muito íntimas na web e não percebem.

Tudo que eu sei de você eu tirei das redes sociais, sem violar privilégios.

Tudo que eu sei de você eu tirei das redes sociais, sem violar protocolo nenhum.

As pessoas esquecem o que elas publicam.

Suas fotos de Roma, Algorra...

Seus parentes e amigos também postam coisas sobre você.

É informação pública. Tudo é público.

Ah, eu sinto muito o que está acontecendo com a sua irmã.

Não se atreva a falar da minha irmã.

Ok, ok, ok. Já é o suficiente.

Você já conseguiu o que procurava. Agora vai ficar trancado até a polícia chegar.

Doutora, eu não quis fazer mal a você.

Isso não estava nos meus planos.

O que é que não estava?

Que se envolvesse tanto com o paciente 63.

Você está doente, sabia?

Elisa!

Você é um narcisista! Um narciso perverso!

Chega, Elisa, por favor.

Eu compreendo a sua raiva, doutora.

As suas impressões digitais.

A gente não achou registro algum em nenhuma base de dados.

É que o paciente ociana clelato com suco de abacaxi na ponta dos dedos.

Isso produz uma condição chamada adermatoglifia transitória.

É mais difícil de pronunciar do que de fazer.

Eu sinto muito, doutora.

Às vezes, quando o truque do mágico é revelado, tudo fica óbvio e bobo.

Vamos acabar com isso, por favor.

Se sairmos daqui, você vai ficar com a minha irmã.

Você veio para algo, doutora.

Eu pensei que iria me sentir satisfeito e orgulhoso, mas...

Não é assim que eu estou me sentindo, sabe?

Eu me sinto...

Eu me sinto decepcionado comigo mesmo.

Desculpe, doutor. Eu vou ficar detido por quê?

Você usou recursos públicos, horas de profissionais, o tempo de uma profissional reconhecida...

Bom, mas isso porque vocês resolveram fazer desse jeito?

Vocês me rotularam, eu não.

Eu nunca disse que precisava de ajuda psiquiátrica.

Vocês que inventaram.

Não podem me trancar por contar uma história.

E se o fizerem? Se essas seguranças que me trouxeram aqui me trancarem...

Bom, aí eu vou ser obrigado a contar o que aconteceu aqui.

Desculpe, isso é uma ameaça, senhor Marim.

Eu só estou dizendo que se não me permitirem ir embora por essa porta depois dessa conversa...

Eu posso publicar todas as irregularidades que aconteceram no meu caso.

Fazer um teste de polígrafo sem minha autorização.

Trazer pessoas de fora do hospital violando a privacidade terapêutica, médico, paciente.

Ser submetido a uma terapia psicofarmacológica agressiva e errática.

Uso da força, sequestro, ameaça de eletrochoque.

Posso continuar?

Registro das minhas sessões sem o meu consentimento.

Como agora, porque eu estou vendo que vocês estão gravando aí, não é?

Isso destruiria a reputação da doutora Elisa.

Sem contar que ela se deixou enganar por um viajante no tempo.

E isso não seria bem visto sob hipótese nenhuma.

Sabe de uma coisa?

Vá embora daqui.

Se eu souber de você de novo, eu estou me lixando com as suas ameaças.

Eu vou enfiar você na cadeia. Está me ouvindo?

Bom, com licença.

Você tinha razão, doutora.

Eu sou simplesmente uma fraude.

Mas tem uma coisa.

Algo que você pode ter certeza que eu não menti.

Podemos mudar o futuro.

Acredite no futuro, doutora.

Learn languages from TV shows, movies, news, articles and more! Try LingQ for FREE