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Paciente 63 - Primeira Temporada, T1E1

T1E1

Paciente 63 Episódio 1 A história com que eu cresci

Hora 10h30, 22 de outubro de 2022.

Primeira sessão, paciente 63 para registro.

Quando tocar o bip a gente pode começar?

Como que você quer que eu te chame?

Olá, bom dia.

Bom dia.

Você pode me dizer como gostaria que eu te chamasse?

Por meu nome?

Ou me chame de paciente 63?

Pelo que eu estou vendo aí?

Tanto faz.

Me diz o seu nome e a sua idade.

Eu me chamo Pedro, Pedro Reuter.

Eu tenho 39 anos.

Me diz por favor, para o registro, de onde você vem?

Eu venho do ano de 2062.

Ficha de admissão, paciente de nome desconhecido, hora de entrada 9h20, sábado 22 de outubro

de 2022.

Número da ficha clínica, 63.

Exame físico, homem, aproximadamente 42 anos, negro, biotipo corporal atlético, sem

identificação.

O paciente foi encontrado nu na via pública e encaminhado à unidade de psiquiatria com

delírios, forte agitação, comportamento violento e confusão.

Diagnóstico, psicose paranoide.

Apresenta ideações e pensamentos delirantes sem contato com a realidade.

Seu delírio principal gira em torno da ideia de ter vindo do futuro.

Tratamento e conduta.

Para estabilizar a psicose, estão sendo utilizados antipsicóticos de segunda geração.

Olanzapina, 500mg, por via endovenosa e aloperidol.

Se estima a melhora da tranquilidade do paciente, se indica uma terapia comportamental e as

sessões estão sendo gravadas para avaliação do comitê de psiquiatria.

Doutora Elisa Amaral.

Hora 10h30, 22 de outubro de 2022.

Primeira sessão, paciente 63.

Pro registro.

Quando tocar o bip a gente pode começar?

Como é que você quer que eu te chame?

Olá, bom dia.

Bom dia.

Você pode me dizer como gostaria que eu te chamasse?

Pelo meu nome?

Ou me chame de paciente 63, pelo que eu estou vendo aí.

Tanto faz.

Me diz o seu nome e a sua idade.

Eu me chamo Pedro, Pedro Reuter.

Eu tenho 39 anos.

Me diz por favor, pro registro, de onde você vem?

Venho do sul, Porto Alegre.

E aquilo que você citou?

Venho do ano de 2062.

Isso, fala isso novamente, por favor, pro registro.

Ano de 2062.

Isso é o futuro?

Pra você é.

Como assim?

Pra você é o futuro.

Ok, então você diz que vem do futuro.

Eu não tenho provas, doutora...

Elisa, doutora Elisa.

Eu não tenho provas, doutora Elisa.

Sinto muito.

Mas você não acha que uma afirmação tão incomum dessas deveria estar acompanhada

por algum tipo de prova?

Eu digo pra que eu possa acreditar?

Não me interessa que você acredite em mim.

Não se ofenda.

Mas não é esse o meu objetivo.

Pelo menos não é o meu objetivo principal.

Sim, mas você concorda que é uma afirmação bem incomum.

Concordo, mas você já está acostumada, né doutora?

Eu suponho que não devo ser o primeiro nessa sala a chegar com delírios estranhos.

Infelizmente eu acho que eu não sou o primeiro na sua vida.

Ou sou?

Como assim?

Paciente delirante, quero dizer.

Não tem problema.

Escreva no seu caderno que eu sou um homem com algum tipo de disfunção mental, tenho

um surto psicótico e nós dois ficamos felizes.

O que você acha?

Você tem consciência de que tem um surto psicótico?

É você que tem que decidir isso, não eu.

Doutora, você já tem o seu diagnóstico pré-definido a horas.

Isso tudo, o gravador, essa conversa, esse show pra parecer científico, algo que você

e eu sabemos que é tão efetivo quanto um padre fazendo um exorcismo ou um médico

bruxo agitando os galhos.

Nós dois sabemos que você faz esse jogo pra seguir o protocolo, ter um diagnóstico,

por um número na minha testa, preencher a ficha e assim dormir tranquilo.

Não, não me interessa brincar disso, doutora.

Você não é mais importante nesse jogo, sem querer ofender.

E quem que é?

Quem que é?

Isso, quem que você quer convencer?

Porque você acabou de deixar claro que não sou eu.

Isso ainda não importa pra você.

Maria Cristina Borges.

Quem é?

Você disse esse nome quando te trouxeram e repetiu enquanto estava medicado.

Maria Cristina Borges.

Quem é?

É sua mãe?

Sua esposa?

Não, não é nada meu.

Nem conheço.

Não pessoalmente.

Mas é ela quem você quer convencer, não é?

E como você pretende convencer uma pessoa sem conhecê-la?

Como pretende convencê-la de que você é...

De que sou um viajante no tempo.

Eu não pretendo que ela acredite em mim.

Isso só ia servir pra que ela se distanciasse.

Eu não posso permitir que ela se distancie.

Então você fez uma viagem no tempo pra contatar uma pessoa?

É isso?

Deixa eu ver...

Deixa eu adivinhar.

Você e ela vão ter um filho e você tem que protegê-la, é isso?

Não me trate como um idiota, doutora.

Esse filme é um clássico.

Eu lembro dele.

Não.

Antes fosse isso, eu preciso convencê-la de que não faça uma coisa.

Devo evitar que ela faça algo.

Que ela faça o quê?

Eu preciso evitar que ela pegue um avião.

Por quê?

É complicado de explicar.

Tenta.

Digamos que você e eu ainda não temos confiança o suficiente um no outro.

A gente ainda não criou um vínculo.

Paciente, terapeuta, esse tipo de vínculo.

Você já foi internado antes?

Não.

Já foi medicado?

Não.

Já foi diagnosticado com algum tipo de transtorno de personalidade?

Não.

Já fugiu de algum abrigo?

Não.

Olha...

Você já teve algum acidente grave?

Não.

Já se envolveu em algum acidente grave...

Você não tá me ouvindo.

Em que o responsável era você?

Não.

Não.

Alguma vez você perdeu a consciência?

Não.

Senta.

Senta de novo, por favor.

Eu preciso sair daqui.

Senta de novo.

Calma.

Eu não preciso sair daqui.

Você tá numa unidade de reabilitação psiquiátrica de um hospital geral.

Eu não posso deixar você ir embora.

Você tá me forçando a pedir ajuda.

Por favor, por favor, senta de novo.

Eu vou ter que pedir ajuda se você não sentar de novo.

Tudo bem.

Tudo bem.

Tudo bem.

Senta de novo, por favor.

Tudo bem.

Obrigada.

Quer um copo d'água?

Prefiro um cigarro.

Obrigado.

Agora você pode, por favor, me dizer o seu endereço real e onde dormiu ontem à noite?

Numa sala de embarque num lugar secreto em janeiro de dois mil e sessenta e dois.

Qual é o seu RG?

A gente não tem mais essas coisas.

Como assim, não tem mais essas coisas?

Não.

Como assim, não tem mais essas coisas?

Digamos que o genoma pode ser muito mais eficiente do que um plástico, um número, um chip.

Se você vem do futuro, eu imagino que você poderia me dizer os números que saíram na megacena

ou quem vai ganhar nas próximas olimpíadas.

Imagine que você é transportada ao ano cem em Roma.

Você pode me dizer quem vai ganhar o torneio de lançamento de disco?

Que dia a armada etrusca vai tentar atacar?

Ou que incêndio aconteceu?

Ou qual é a data da próxima enchente do tibre?

Sim, sim, eu acho que eu poderia.

Se você me desse um tempo, eu poderia fazer uma busca na Wikipedia

e eu ficaria preparada para convencer alguém de que eu venho do futuro.

Não é assim que funciona.

Não é exato. Não tem dados.

Não tem Wikipedia no futuro?

No futuro não temos nada.

Pelo menos desde o dia 23 de outubro de 2053 não temos nada.

É isso que eu estava tentando dizer.

Não, não. Eu sinto muito, mas você não consegue me convencer.

Eu já disse que esse não era o meu objetivo.

Mas você precisa que eu acredite em você.

Não por enquanto. Não neste momento.

Você saberia disso melhor que eu, não é?

O que eu sei é que você não pode ser um viajante no tempo

e eu gostaria de poder te convencer disso.

Isso é interessante. Estou ouvindo.

Você disse que vem de 2062 e que tem 39 anos, certo?

Ou seja, você nasceu em 2023.

Portanto, seus pais estão vivos agora.

Então eu posso pegar meu celular e dar um Google.

Ou eu posso pedir para você cuspir num tubo de ensaio

ou colher um pouco da sua mucosa bucal com um cotonete

e eu posso fazer um teste de DNA que deveria coincidir com o da sua mãe.

Embora não exista Wikipedia, você deve lembrar a cidade em que nasceu, não é?

Eu imagino, não sei, rua...

Rua Uruguaiana 543, Menino Deus.

Como é?

Rua Uruguaiana 543, Menino Deus, Porto Alegre.

Claro que eu me lembro da cidade em que eu nasci.

Mas isso vai ser daqui a dois anos.

Os meus pais agora não se conhecem.

A minha mãe está no quarto ano de medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul

e o meu pai está tentando montar uma banda de rock

e tem uma oficina de concertos de bicicletas com o meu avô do Bonfim.

Ok.

Então, só para continuar o seu raciocínio, eu poderia ligar agora para eles

e contar que eles vão ter um filho que, 39 anos depois, vai viajar ao passado para...

Para salvar o mundo.

Salvar o mundo.

Então, eles não se conheceriam, você não nasceria e nós não...

E não estaríamos tendo essa conversa.

Exato.

Daqui a quatro semanas, não sei a data exata,

e justamente pelo fato de que você, então, vai acreditar em mim,

quando eu já tiver ido embora daqui, você vai contatar os meus pais

e a história de uma psiquiatra paulista que fala de algo assim tão estranho

vai soar para eles tão divertido que o meu pai vai visitar a minha mãe,

eles vão tomar umas cervejas e vão começar a sair,

eles vão virar namorados e eu vou nascer.

Graças a você, doutora.

Eu cresci ouvindo essa história, a psiquiatra paulista que juntou os meus pais.

Quer uma primeira prova de que eu sou mesmo um viajante no tempo?

Você é a primeira prova.

Embora ainda não entenda, você é a primeira prova, Beatriz.

Como é que você sabe que eu me chamo assim?

Eu nunca uso esse nome.

Elisa Beatriz Amaral Fontes.

Você andou me investigando?

Quem é você?

Fala! Quem é você?

Pacientes 63 é uma série original Spotify.

Protagonizada por Mel Lisboa e seu Jorge.

Criada por Julio Rojas.

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