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Porta dos Fundos, REFÉM - EPISÓDIO 1 DE 5 (1)

REFÉM - EPISÓDIO 1 DE 5 (1)

Mãe, você casa com quem você quiser, tá?

Mas eu acho ele novo demais.

Gente, a pessoa chama Enzo. Só da pessoa chamar Enzo,

a gente já vê que a pessoa não é da sua geração.

Você chama Sueli, mãe. Nem nasce mais Sueli no mundo.

Não estou falando pra você namorar um Aristides.

Mas você podia pensar num Cláudio, né?

Podia pensar, assim, num Fernando...

Num Raul...

Rogério viajou hoje. Foi pra São Paulo.

Trabalho, sei lá.

Expresso Nilo, acho que é isso.

Está, está ligada. Por quê, mãe?

Muito bom, Valério. É...

Olha só, o ônibus estava parado aqui, bloqueando a rodovia

sem nenhum motivo aparente.

A polícia chegou para averiguar, ver o que estava acontecendo,

quando escutou um barulho,

um estrondo como se fosse um tiro.

E aí teve muita gritaria nessa hora, Valério.

-Mas há algum ferido, Marco? -Não, não.

Não temos informações.

Nós já sabemos alguma coisa a respeito das pessoas

-de dentro do ônibus? -Não, nada. Absolutamente.

E aí você sabe, muita confusão, muito corre-corre, gritaria,

e área agora está isolada.

Já há alguma exigência por parte dos sequestradores?

Não, a polícia ainda não entrou em contrato...

Desculpe. A polícia não entrou em contato com os sequestradores.

A gente está aqui com o seu Rubens. Seu Rubens.

Ele estava no momento da confusão, no momento do disparo.

Seu Rubens, e o que aconteceu ali, seu Rubens?

Não, foi aquilo que o senhor falou. Deu tiro, correria, confusão.

Sim, mas o senhor viu alguma coisa?

Eu vi correria e confusão.

Bom, ficamos no aguardo de qualquer novidade.

-Agora, futebol. -Mãe, a gente se fala depois,

tá bom?

PORTA DOS FUNDOS APRESENTA

SEQUESTRO DO ÔNIBUS

REFÉM

-Oi, meu amor. -Ai, graças a Deus, Rogério!

-Gente, ele atendeu. -Atendeu, atendeu.

Atendeu. Amor, como é que você está?

Pelo amor de Deus, onde você está?

Estou no ônibus ainda, né, minha princesinha?

Que ônibus que é? É o da Expresso Nilo?

Isso, no ônibus da Expresso Nilo.

-Das 9h30? -Isso.

Ai, meu Deus do céu... Gente, ele está no ônibus.

-Amor, como é que você está? -Eu estou bem, meu amor.

Os sequestradores fizeram alguma coisa com você?

Espera aí, eu não sei do que você está falando.

-Rogério, você está no ônibus mesmo? -Claro que eu estou.

-Onde é que mais eu ia estar? -Está falando com quem?

-Quem que está falando aí? -É... Oi, não!

É, não tem ninguém aqui, não, tá? Meu amor...

-O que essa idiota quer? -Está falando com os sequestradores?

-É... com quem? -Dá logo essa porra desse telefone,

que eu vou falar agora com ela, que vou acabar com isso aqui agora!

Rogério, o que está acontecendo?

Ele está comigo!

Não, não foi nada, meu amor, tá? Não tem nem grito.

-Eu ouvi uma voz de mulher. -Não, é uma maluca aqui do ônibus.

Um dos sequestradores é uma mulher.

Meu amor, olha só. Deixa eu falar com você depois,

porque está um clima meio esquisito aqui.

Posso te ligar depois com mais calma?

Meu amor, eu estou aqui, acompanhando tudo pela TV.

Pela TV? Como assim?

-Olha só, vem me comer agora! -Não, espera aí.

-Vem! -Espera aí, espera aí,

-só um instante. -Quem está falando aí?

-É a sequestradora? -Não, meu amor, é...

Faz o que ela está mandando, amor.

-Eles estão muito agressivos? -Mais ou menos, meu amor.

-Au! -Que que foi?

-Não, mordeu aqui. -Quem que te mordeu?

Não, é, ninguém. Amor, posso te ligar daqui a pouquinho?

Que aí eu falo com mais calma. Tem coisa pra resolver aqui.

-Não, não! Não desliga. -Não, mas eu estou bem, tá?

Eu estou bem. Pode ficar tranquila que eu estou super...

Aparece na janela pra eu saber que você está bem.

Meu amor, eu te ligo daqui a pouco, tá?

Fica tranquila, que eu estou super bem aqui!

Sua mãe está aqui, está querendo falar com você.

Aliás, está toda a família aqui, amor.

Volta vivo, meu filho! Aguenta firme!

-Sai daí inteiro! -Espera aí, minha mãe?

-Imagens do ônibus... -Eu já ligo pra vocês, tá?

...foi sequestrado essa manhã. E a polícia se prepara

para fazer o contato com os sequestradores,

-embora eles... -Puta que me pariu!

-Machucou? -Não, fodeu.

...e que não aconteça nenhum problema

mais sério ou mais grave.

Voltamos ao estúdio.

Muito bom, senhores. O que temos até agora, então?

Bom, até agora a gente tem um ônibus de pa...

Um ônibus que leva... Um ônibus.

Bom, além da conclusão da Agatha Christie aqui,

a gente tem alguma outra coisa sobre quem está dentro do ônibus?

Só os passageiros mesmo. Pasageiros... do ônibus.

Sherlock, se você falar mais alguma coisa,

-eu vou enfiar esse... -Chefe, chefe!

O Assis foi na rodoviária pegar a lista dos passageiros.

-E por que não mandou por e-mail? -Porque eles só digitalizam

essa lista quando o ônibus chega no destino.

-Ótimo, cadê a lista? -Então, senhor,

-temos uma ocorrência. -Que ocorrência?

-O Assis perdeu a lista. -Ô, espera aí!

O Assis não perdeu, não. Não fala assim, não.

-Quem é Assis? -Sou eu, senhor. Olha só,

explica isso aí direito. Quem perdeu foi minha mulher.

-E tem uma segunda via dessa lista? -Não,

justamente porque a lista ainda não tinha sido digitalizada.

A culpa aí é do Expresso Nilo, gente.

Está vendo? Aí, vários culpados, né.

-Por que a sua esposa, a...? -A Silmara.

Silmara.

Como é que a Silmara foi perder essa boceta

desse caralho dessa puta que te pariu

do meu rabo dessa minha estourada hemorroida

-dessa lista? -Ela levou com ela

para Bangu, senhor.

-Onde é que pode estar lista? -Bangu.

Só pode estar em Bangu.

É, chefe... A esposa dele perdeu a sacola

-com a lista dentro. -Rapaz, não.

Perdeu também meu RG, meu CPF...

Agora é uma puta de uma dor de cabeça pra tirar isso.

Assis,

você se importa de sair da sala um minutinho, por favor?

Imagina.

Eu quero esse merda... transferido pra Vargem Grande hoje.

É, no caso... É onde ele está morando,

em Vargem Grande ele mora.

-Olá, olá, olá. -Prefeito.

E aí, pessoal?

-O que a gente tem até agora? -Bom...

Tem um ônibus, né.

Desculpa, me dá uma licencinha. Moça, moça!

-Oi. -Olha só,

você tem alguma informação?

Não, até agora nada.

Ai meu Deus, meu marido está lá dentro...

-Quê? -Eu devia avisar a polícia, né?

-Não, não, que isso. -Não?

Não, calma. Olha só, é...

-Vem comigo. -Aonde?

Você já apareceu alguma vez na TV?

-Na TV? -Isso.

-E agora? -Agora diz que você não está lá.

Como "diz que não está lá"?

Eu estou lá! A minha casa está parecendo

-um paredão de "Big Brother". -Cara, você também é muito cagão!

Cagão, o quê? Você quer que eu faça o quê?

Que você diga que você saiu de lá então!

-Ah, e eu saí como? -Você não vai me assumir, né?

Você está comigo, você fala que me ama pra me comer!

Tem nada a ver uma coisa com a outra.

Então por que você não conta pra todo mundo que está comigo?

Isso não é o melhor jeito, a melhor maneira de contar

-que está com alguém não é essa! -Rogério, faz assim:

você faz o que você quiser então.

Agora, quando você sair do ônibus, então você me liga.

Presta atenção! Olha só, esse mês está complicado

porque eu tive que botar um monte de coisa minha no nome dela

pra fugir de imposto. Mas mês que vem

-volta tudo ao normal. -"Mês que vem",

"mês que vem", "mês que vem"... Toda hora "mês que vem"!

É só mais um pouquinho, amor. Por favor, tá?

-Alô? -Amor, está tudo bem?

Jordana, olha só. Eu preciso falar uma coisa

-muito importante com você. -Olha só, tem uma pessoa

que vai falar com você aqui agora.

Ele está aí pertinho de você, tá bom?

-Pertinho onde, gente? -Alô, Rogério.

Alô? Rogério? Oi, Rogério, aqui é o repórter Marcos Goriz.

Você está ao vivo no Brasil inteiro pela GTB.

Rogério, como é que está a situação aí dentro?

Tá... Marcos, a situação aqui é muito tensa.

Onde é que você está, exatamente?

Eu estou escondido dentro do banheiro.

Sim, mas nos passe alguma informação,

quantas pessoas são, quantos sequestradores são...

-Isso! -Isso o quê, Rogério?

-Exatamente. -Parece que a gente

está com um pequeno problema de sinal.

-Rogério, tem algum ferido? -Há grande possibilidade.

-O que os sequestradores querem? -Muitas coisas.

Tá, mas alguma específica,

-alguma...? -Não!

-Rogério, você está bem? -Eu... Não, olha só.

Acho que eu nunca estive numa situação

-tão tensa na minha vida. -Quê?

É... Olha só, eu estou ouvindo vozes aqui, aliás.

Por favor... Tenta preservar a minha vida.

Eu peço que vocês não fiquem me ligando.

A partir de agora, eu entro pra fazer contato com vocês, tá?

Tchau.

É... Bom, parece que a gente perdeu o contato com o Rogério.

Mas felizmente a gente conseguiu

escutar alguém de dentro do ônibus, né?

-Rogério... -Não precisa falar nada,

-eu estou aqui. -...pras famílias

dos parentes das vítimas do sequestro.

E a única chance de comunicação que a gente tem é o Rogério.

-Ai, meu Deus do céu, olha aí. -Voltamos ao estúdio.

Até gente de trabalho mandando mensagem.

"Rogério, forças, estamos... O Brasil inteiro está com você."

-Puta que pariu! -Tá bom, Rogério,

estou indo embora então, tá?

-Está indo pra onde? -Estou indo pra casa!

Pelo amor de Deus, a gente combinou

de passar o dia inteiro aqui de conchinha junto!

Tá, só que você não está aqui comigo, você está lá!

Espera aí. Você não pode me deixar aqui sozinho,

-pelo amor de Deus. -Ué, então vai embora.

Como "vai embora"? Todo mundo pensa que eu estou lá!

E quando eu falo "todo mundo", Mirela,

-é realmente todo mundo! -É, só que eu não posso fazer nada.

-Lógico que você pode fazer. -É? O que você quer que eu faça?

Entra atirando.

-O senhor tem certeza? -Quem morrer, morreu.

A gente podia pensar num plano de...

O plano é tirar essa porra do meio da rua!

Por bem ou por mal.

A gente pode negociar com eles e ver se tem alguma saída.

Negocia com a minha rola.

Eu só acho que a gente podia pensar com um pouco mais de calma...

Calma de cu é rola. Resolve.

Mata.

-Sim, senhor. -Isso, isso. Manda recolher tudo.

-Ô, senhor prefeito. -Olá, olá, olá.

Então, não quero uma gota de sangue derramada!

Claro, senhor prefeito.

Ano de eleição é foda! Se tiver qualquer sinal de violência,

eu mando todo mundo transferido pra Rondônia!

Ih! A família da minha mãe é toda lá de Rondônia.

-Menos ele, que vai pra Curitiba. -Meu pai é lá de Curitiba.

Qual seria o pior castigo do mundo pra vocês?

Ah, ó, ficar aqui no Rio,

porque as coisas estão muito caras aqui.

Vou te contar, hein, prefeito.

Eu quero um plano perfeito pra resgatar todo mundo,

todo mundo bem!

Está todo mundo olhando pra esse ônibus,

por conta dessas Olimpíadas que vão acontecer aqui.

Não pode dar nada errado nessa operação, entendeu?

-Seu governador? -Entra atirando.

-Mas... quê? -Vamos acabar logo com isso.

Mas e as eleições?

Eu já perdi essa merda, eu quero que se foda!

Quanto mais rápido isso acabar, melhor.

Eu já estou com uma rebelião de presídios na manga pra soltar,

pra desviar as atenções quando der merda.

-Porque vai dar merda. -O senhor tem certeza?

Mata.

Governador.

Prefeito.

Rapazes, é...

O presidente quer falar com vocês.

Prefeito, coronel, os senhores estão aí?

-Sim, senhor. -Sim, senhor.

Então...

Alô?

-Alô. -Alô!

Achei que tivesse caído. Eu ia ficar falando horas,

e descobrir só no fim que tinha caído.

E é muito chato ter que... Estão aí ainda?

-Estamos. -Sim, estamos.

Bom... o que eu ia falar mesmo? Ô, meu Deus, esqueci.

Que saco! Sabe quando você esquece? Ô, meu pai...

Era sobre alguma coisa...

Espera aí, eu estava deitado, vendo TV.

Aí eu fui no banheiro, li o jornal...

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