Sotaque e expressões típicas do Porto (2)
Pode ser de uma panela também.
É uma tampa de um tacho. Uma tampa de um tacho qualquer.
O que é um moina?
Não sei, o que é que é um moina?
Um moina é uma… uma profissão…
Estás-te a rir? Chamar uma profissão a isso, hahaha!
Se calhar vamos voltar atrás.
Um moina é uma pessoa que está na rua a ajudar outras a arrumar os carros.
Portanto dá indicações.
“Pode vir, pode vir, pode vir, pára, pára, pára!"
É um arrumador de carros.
É um arrumador de carros… uma profissão!
É uma pessoa que arruma, que ajuda a arrumar os carros.
E que, se não aceitares a ajuda dele, risca-te o carro.
Não, no Porto ninguém te risca o carro, isso é só em Lisboa.
E se eu estiver num café e pedir um lanche.
“Olhe, queria um lanche!”
Um lanche… pois, precisas de ser mais específica.
Supostamente um lanche, para nós lisboetas e imagino que noutras partes de Portugal,
é a refeição entre o almoço e o jantar.
Para nós também é.
No entanto, um lanche é o que vocês chamam de uma merenda.
Merenda mista.
Já sei, aquela cena.
Pois, faz sentido porque uma merenda… Folhado de queijo e fiambre…
Não é bem folhado, é uma coisa. É uma cena assim.
Faz sentido porque merenda também significa a refeição entre o almoço, também é sinónimo de lanche.
Sim, mas a merenda pode ser mais uma coisa que uma pessoa leve para fora de casa, não é?
“Vou levar uma merenda para irmos fazer um piquenique”, por exemplo.
Sim, sim, sim.
E portanto uma vez uma amiga minha lisboeta, no Porto, pediu uma merenda e o senhor ficou
a olhar para ela e disse assim: “A menina quer que eu lhe faça uma merenda?”
Porque merenda é diferente no Porto… Preparar aqui um saquinho…
Preparar um saquinho para levar.
O que é que é, continuando no café, um pingo?
Deve ser um café pingado, com leite. Um café pingado.
Há uma história também engraçada, que eu uma vez pedi um pingo e há um gelado
que se chama Pingu, mas com U no final.
E eu já tinha comido a sobremesa e o empregado de mesa trouxe-me um Pingu,
mas eu na verdade queria um pingo, com O, que é um café com um bocadinho de leite.
Ainda por cima é aquele gelado… … e não um Pingu, que é um pinguim...
É um gelado de criança, que é um pinguim com um chapeuzinho.
Tu agora grizaste-te todo.
Mesmo!
Grizaste-te todo. Fiquei grisalho. Não, estou a brincar.
O que é que quer dizer?
Hmmm… Eu já soube isto, tipo… Ganda grizo! Não sei…
Não, hahahahaha!
Não, “grizaste-te todo”, ou “grizei-me tanto” é “ri-me muito”.
A sério?
Mais a norte de Portugal , mais a norte do Porto aliás, diz-se “escachei-me a rir”.
Ya, acho que se calhar, acho que isso já ouvi.
Grizar já ouvi mas não sabia o que é que era.
Então também aqui nestas palavras, se eu disser assim: “Eu ia a andar na rua e esbardalhei-me.”
Ah, isso nós usamos também.
“Espetaste-te no chão”, “mandaste uma grande queda.”
Ah, ok, eu achei que era mais do Porto, desculpa.
Esbardalhei-me.
Esbardalhei-me todo.
Então aqui uma que eu acho engraçada porque sinto que todas as pessoas fora de Portugal
vão dar-me razão com esta.
O que é que são sapatilhas?
São ténis.
As pessoas de Lisboa usam um desporto, que é o ténis, para chamar a umas sapatilhas,
que são… são o calçado que se usa para fazer desporto.
Olha, vamos buscar… Sneakers!
Exato, vamos buscar… Isto são umas sapatilhas.
Isto é um “téni”.
É um “téni”, que é uma palavra que nem existe, que é tirar um, é… bom.
É um “téni” e se fossem dois, seriam dois ténis.
Não, é um ténis.
É um ténis, pois, é um ténis.
Se eu disser: “Ai, tu és um sostra!”
Um sostra?
És um sostra.
És um preguiçoso, és muito preguiçoso, és um sostra.
Essa eu nunca tinha ouvido.
E também se pode dizer: “Ai, ao domingo eu gosto é de estar na sostrice”.
Assim, a dormir, a “tirar um cochilo”.
A o quê?
A tirar um cochilo?
A tirar um… mas isso é do Porto?
Acho que é, não conheces?
Cochilo?
Por acaso agora, por falar em sono lembrei-me de uma expressão que eu acho que é do…
Isso é tipo “estar na ronha”? É.
Nós dizemos ronha e ronha é aquele período entre acordar e sair da cama, quando ainda
estamos deitados na cama, já acordámos mas ainda estamos ali a dormir, meio a dormir,
não sei quê, e sabe bué da bem.
E uma expressão que eu acho que não é do Porto, mas que o Luís, que é o meu marido,
que é de Lisboa e portanto temos muitas vezes esta discussão, não conhecia, que é nanar.
Ah, isso é dormir! Dormir, pois.
Não conhecias?
Nanar.
Agora tenho uma que tem uma situação engraçada.
Eu estava com os meus pais em Lisboa e fomos a um café e atendeu-nos um empregado de mesa
que depois soubemos que era empregado de mesa há 40 anos.
E o meu pai disse: “Eu queria um pneu."
O quê? Hahahaha!
Eu quero um pneu!
Se calhar convém explicares o que é que é um pneu em Lisboa.
Certo, para já...
Mas o Leonardo só pode explicar o que é um pneu depois de eu lhe dizer, porque ele
não sabe o que é um pneu.
Não, para já um pneu para nós, e eu acho que aqui o resto do país está comigo,
o pneu é o que está à volta da roda do carro, enche-se com ar e é para as pessoas andarem.
Do carro, das bicicletas… também chamamos pneu àquela gordurinha tipo boneco Michelin,
isto aqui é um pneu.
Portanto, nunca imaginei pedir um pneu num café.
Um pneu é água das pedras, portanto água gaseificada, com açúcar e limão.
Na continuação desta história com o senhor do café… Isso é bué da específico.
É verdade.
É uma… eu até não sei se não seria há uns anos uma expressão nacional, mas a verdade
é que só no Porto é que ainda se continua a dizer.
E o empregado de mesa disse assim: “Eu nunca tinha ouvido essa expressão.
Há 40 anos que sou empregado de mesa e nunca ninguém me tinha pedido isso, ninguém sabe o que é que isso é.”
E o meu pai disse: “Então vá lá dentro perguntar!”
E o senhor entrou no café, estávamos na esplanada, o senhor entrou no café e disse assim:
“Quero um pneu!”
e o empregado que estava atrás do balcão, que era do Porto…
...preparou-lhe um pneu. Preparou-lhe um pneu!
E o empregado de mesa ficou extremamente surpreendido porque havia uma expressão que ele ainda não conhecia.
Agora a última, que é o essencial da vida.
Se eu for, nem vou dizer onde é que eu vou.
O que é um molete?
Um molete?
Pá, o essencial da vida, cá para mim… cá para mim um molete…
Um molete é um pão. Um pão?
É um pão de água, o molete é o pão básico, o pão mais básico da padaria é um molete.
Tipo uma carcaça?
Sim, uma carcaça, mas uma carcaça não se diz em Lisboa, não se diz no Porto aliás.
Pronto, vocês dizem molete. Nós dizemos molete.
Por acaso agora lembrei-me de uma coisa que devíamos dizer.
Diz, diz.
É uma mini asneira.
As pessoas do Porto são consideradas em todo o país como pessoas muito asneirentas, que dizem muitas asneiras.
Exatamente. Isso não quer dizer que as pessoas sejam mal educadas.
Quer dizer que a asneira tem menos peso no Porto.
A asneira tem muito menos peso e também não é verdade que nós digamos asneiras a torto e a direito.
Sim, apenas um pouco mais.
Dizemos mais e com mais entusiasmo.
Mas há uma asneira que é típica do Porto, que é uma asneira mas, posso dizer, que é carago.
Carago, ya sim, isso sim.
É uma expressão que agora é nacional, mas que era uma expressão do Porto.
Exato, e aliás a expressão, nós conhecemos a expressão como Porto, carago!
Ninguém diz carago fora do Porto.
As pessoas quando gritam Porto, por exemplo num jogo de futebol, em que nós estamos sempre a ganhar,
as pessoas não gritam Porto, que é difícil gritar assim Porto,
as pessoas gritam: Puorto! Sempre a ganhar?
Puorto! Sempre a ganhar?
Onde é que está? Dá cá isso! Puorto!
Pronto e com esta acabamos o episódio.
Obrigado por terem assistido até ao fim, esperamos que tenham gostado.
Digam nos comentários se nos esquecemos de alguma expressão do Porto,
para aqueles do Porto que estiverem a ver.
Digam nos comentários se já conheciam as expressões que dissemos, e…
Visitem o Porto! E viva o Benfica!