SOBRINHO
Gente, adorei a casa de vocês. A gente tinha que fazer mais esse encontro!
Reunir a galera. A gente está para fazer esse...
Tia, me dá dinheiro para comprar bala?
Ah, peraí. Toma aqui, dez reais. Se entope de bala.
Caramba, tia! Obrigado, te amo!
-Lindo! -Ai, que fofo o seu sobrinho!
Ai, sobrinho é assim. A gente faz tudo que ele quer, né, amor?
-Tudo. -Quem tem que educar não é a gente!
Isso é verdade! E ele é filho do irmão de quem?
Não, nem eu nem ela temos irmão. A gente é filho único, os dois.
-Ah, sobrinho de consideração. -Isso!
Só que eu que pari. A gente cria como sobrinho.
-Oi? -Ah, gente, filho é muito chato, né?
Dá muito trabalho. Ser tia é muito melhor!
A gente fica com a melhor parte!
Não, mas a parte ruim fica com quem?
Ah, com a rua. Com a vida.
A gente só queria ter um sobrinho.
Gente, mas vocês são os pais dele, né?
Biológicos.
Mas não é a gente que cria, não. Quem cria é a rua, a vida...
Tia, não quero almoçar bala de novo, não!
-Meu dente está ardendo! -Ah, então aqui, olha. Deixa comigo.
-Toma, compra tudo em figurinha. -Oba!
-Não vai contar para o seu Zé, hein? -Tá.
-Seu Zé? Quem é seu Zé? -Ah, o porteiro lá do prédio.
Gente, um amor. Super preocupado com a dentição do...
-Lucas. -Lucas, Lucas.
Ah, gente, mas esse garoto é filho de vocês!
Quem é que leva o moleque no colégio?
Eu não sabia nem que já estudava nessa idade.
É porque a gente fica com ele final de semana.
E dia de semana?
Trabalha numa fábrica de roupa, coitado.
Nasceu sem pai e sem mãe, tem que dar duro desde cedo.
Foda.
Amor, acho que está na hora da gente ir lá para o nutricionista do Chico!
-Cadê? -Aqui, amor!
Ele está super atrasado com as vacinas, né, papai?
-Te amo! Te amo! -Chiquinho da mamãe!
-Tio! -Hum?
Eu e uns amigos, a gente vai resolver um negócio ali da nossa milícia.
Tá.
Olha o tempo no computador, hein?
-Tá bom. -Faz mal para a vista.