PAPO DE AMIGA
Aí ele disse: "Deixa o dromedário andando de patins."
Ai, amiga. Você não existe.
Que bom que você percebeu, finalmente.
-O quê? -Que eu não existo, Jéssica.
Que eu sou fruto da tua imaginação.
A gente está há horas nessa conversa louca aqui
e uma pessoa imaginária tem o direito ao descanso, sabe?
Carla, o que você está falando? Você fumou rapé?
Olha só, você começou essa conversa me chamando de Júlia.
Aí no meio dela, você começou a me tratar
como se eu fosse o Bruno Gagliasso te chamando pra sair.
-Era você me passando trote? -Que trote, Jéssica?
Você acha que aquele querubim erótico ia querer passar
um final de semana salvando animais selvagens com você, Jéssica?
-Isso é insanidade. -Você é minha amiga, Carla.
Você veio aqui em casa ontem
assistir à temporada nova de "Chaves" comigo.
Que temporada nova de "Chaves"?
Você achou que estava assistindo a uma série,
mas você estava vendo uma lasanha congelada girar no micro-ondas.
No final, você até riu com o "pipi".
-Isso não faz o menor sentido. -O que faz sentido aqui, Jéssica?
Eu começar esse assunto falando:
"Deixa o dromedário andando de patins"?
Que piada merda é essa que termina com essa frase?
Por que você só me avisou disso agora?
Mas é você que está se avisando, Jéssica,
através de mim, que sou você.
Aliás, eu não sei nem quem sou eu.
-Eu estou cansada, Jéssica. -Eu só queria ter uma amiga.
O Gasparzinho também.
E isso só trouxe dor e confusão pra quem estava perto.
Eu não faço ideia de como isso começou.
Você ligou pra uma companhia aérea
pra tentar ter o teu dinheiro de volta de voo cancelado.
E aí você ficou ouvindo aquela musiquinha da espera
que foi conduzindo pra essa loucura e eu nasci.
-Que voo? Eu não ia viajar. -Claro que você ia.
Você ia pra Hogwarts.
Não tem aeroporto em Hogwarts. Só tem trem e vassoura voadora.
-Eita porra. -Você que é maluca
e eu que não existo.
Aliás, você está segurando o grampeador.
Sua louca.
Meu Deus, e eu aqui arrumando problema
no grupo de família à toa, gente.
Oi. É do Super Sucos?
Tudo bom?
Me traz aí qualquer coisa.
É, senhor. Qualquer coisa.
Senhor, é porque eu preciso saber se eu existo.
E aí se o entregador chegar aqui e não encontrar ninguém,
mistério resolvido, já foi. Oi?
Se eu quero granola em qualquer coisa?
Pode ser, senhor. Traz à parte. A gente joga.