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Porta Dos Fundos 2019, ESCRITOR BRANCO

ESCRITOR BRANCO

Hoje a gente conversa, aqui, com Heitor Perazza,

escritor branco, que aqui a gente faz questão de lembrar

que existe, sim, uma literatura branca nesse país.

Heitor, como é para você, um escritor branco

dentro dessa questão da branquitude?

É que eu não me vejo como um escritor branco, não, mas como...

-Um escritor, só. -Percebo que, no seu livro,

você, apesar de branco, meio que evita o tema da branquitude.

Sim, é que essa não é uma questão relevante para mim.

-Mas você é branco. -Aham.

-E seus personagens são brancos. -São.

Te contar uma coisa, eu gosto de quando eu te leio,

a gente meio que consegue ouvir a voz dos brancos, sabe?

É um mergulho, mesmo, na cultura branca, na coisa do dialeto.

Das gírias, ali, um "por obséquio", um "não obstante" que você põe.

Como é que foi para você... Onde que você aprendeu o dialeto branco?

Acho que...

Acho que foi na vida mesmo.

E como é que foi a recepção dentro da comunidade branca?

Foi boa, eu acho. Foi legal.

Você não acha que tem uma coisa de uma inveja

dos outros autores brancos, que não tiveram a mesma projeção que você?

Desculpa, uma inveja branca.

Essa coisa da inveja, não sei, eu nunca senti, não, assim.

Mas eu preferia não falar só desse assunto.

Será que a gente pode falar do livro?

-Ah, claro. Não, do livro, sim. -Não sei se você leu...

Eu estava dando uma olhada no livro

e eu percebi que as páginas são brancas

e a última página, não sei se por acaso, está em branco.

Não, isso é por acaso, sim. Totalmente por acaso.

Eu consigo pegar uma referência ali, de...

Monteiro Lobato, Rubem Fonseca e Mauricio de Sousa, né?

Olha, não. Sinceramente, não vi nenhum desses três, não.

Acho que não tem nada em comum entre eles e o livro,

a não ser o fato de eles serem brancos.

Não sei, é porque eu vejo você,

não sei se você se imagina nesse lugar,

mas como um representante, mesmo, da juventude branca nesse país.

-Como é para você isso? -Olha, sei do que você está falando.

-É mó responsa, né? -Normalmente,

os brancos, eles vão para o mercado financeiro,

alguns desviam e vão para o Congresso,

para a fabricação de cerveja artesanal

e você não, você foi para a literatura,

o que é muito difícil, né? Muito inusitado, um jovem branco...

Como é que foi essa coisa de migrar para a literatura?

Olha, foi, sei lá, desde pequeno que eu gosto de escrever.

-Mesmo sendo branco? -Mesmo sendo branco.

Que bonito isso. Heitor, muito obrigado.

Gente, a gente conversou hoje com Heitor Perazza, foi uma honra

para a gente mostrar para o nosso público

que lugar de branco é onde ele quiser.

Oi, gente, hoje eu estou aqui com o Bruno Magalhães,

cantor hétero que atrai o Brasil todo.

Multidões héteras vão assisti-lo.

E eu quero saber um pouquinho quais são os próximos passos

dessa sua carreira hétero. Inclusive, já começo perguntando:

Você não fica com medo de ser rotulado como "cantor hétero"?

E, diga-se de passagem, parabéns pela ousadia

de estar de bermuda cargo em pleno 2019.

Esse é mesmo!

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