ESCRITOR BRANCO
Hoje a gente conversa, aqui, com Heitor Perazza,
escritor branco, que aqui a gente faz questão de lembrar
que existe, sim, uma literatura branca nesse país.
Heitor, como é para você, um escritor branco
dentro dessa questão da branquitude?
É que eu não me vejo como um escritor branco, não, mas como...
-Um escritor, só. -Percebo que, no seu livro,
você, apesar de branco, meio que evita o tema da branquitude.
Sim, é que essa não é uma questão relevante para mim.
-Mas você é branco. -Aham.
-E seus personagens são brancos. -São.
Te contar uma coisa, eu gosto de quando eu te leio,
a gente meio que consegue ouvir a voz dos brancos, sabe?
É um mergulho, mesmo, na cultura branca, na coisa do dialeto.
Das gírias, ali, um "por obséquio", um "não obstante" que você põe.
Como é que foi para você... Onde que você aprendeu o dialeto branco?
Acho que...
Acho que foi na vida mesmo.
E como é que foi a recepção dentro da comunidade branca?
Foi boa, eu acho. Foi legal.
Você não acha que tem uma coisa de uma inveja
dos outros autores brancos, que não tiveram a mesma projeção que você?
Desculpa, uma inveja branca.
Essa coisa da inveja, não sei, eu nunca senti, não, assim.
Mas eu preferia não falar só desse assunto.
Será que a gente pode falar do livro?
-Ah, claro. Não, do livro, sim. -Não sei se você leu...
Eu estava dando uma olhada no livro
e eu percebi que as páginas são brancas
e a última página, não sei se por acaso, está em branco.
Não, isso é por acaso, sim. Totalmente por acaso.
Eu consigo pegar uma referência ali, de...
Monteiro Lobato, Rubem Fonseca e Mauricio de Sousa, né?
Olha, não. Sinceramente, não vi nenhum desses três, não.
Acho que não tem nada em comum entre eles e o livro,
a não ser o fato de eles serem brancos.
Não sei, é porque eu vejo você,
não sei se você se imagina nesse lugar,
mas como um representante, mesmo, da juventude branca nesse país.
-Como é para você isso? -Olha, sei do que você está falando.
-É mó responsa, né? -Normalmente,
os brancos, eles vão para o mercado financeiro,
alguns desviam e vão para o Congresso,
para a fabricação de cerveja artesanal
e você não, você foi para a literatura,
o que é muito difícil, né? Muito inusitado, um jovem branco...
Como é que foi essa coisa de migrar para a literatura?
Olha, foi, sei lá, desde pequeno que eu gosto de escrever.
-Mesmo sendo branco? -Mesmo sendo branco.
Que bonito isso. Heitor, muito obrigado.
Gente, a gente conversou hoje com Heitor Perazza, foi uma honra
para a gente mostrar para o nosso público
que lugar de branco é onde ele quiser.
Oi, gente, hoje eu estou aqui com o Bruno Magalhães,
cantor hétero que atrai o Brasil todo.
Multidões héteras vão assisti-lo.
E eu quero saber um pouquinho quais são os próximos passos
dessa sua carreira hétero. Inclusive, já começo perguntando:
Você não fica com medo de ser rotulado como "cantor hétero"?
E, diga-se de passagem, parabéns pela ousadia
de estar de bermuda cargo em pleno 2019.
Esse é mesmo!