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A Morte de Ivan Ilitch, Parte 3 — 閱讀文本

A Morte de Ivan Ilitch, Parte 3

中級2 葡萄牙語 課程,練習閱讀

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3: Parte

Vou visitar Piotr Ivanovich outra vez (este era um amigo que tinha um amigo

que era médico). Tocou a sineta, pediu que preparassem o trenó e aprontou-se para sair.

– Aonde é que você vai, Jean? – perguntou a esposa com um tom melancólico pouco usual e

uma expressão estranhamente gentil.

Essa desconhecida gentileza encheu-o de fúria. Olhou-a seriamente.

– Vou ver Piotr Ivanovich!

E foi até a casa do amigo que por sua vez tinha também um amigo que era médico e juntos

foram ao consultório deste. Encontrando-o lá, Ivan Ilitch teve uma longa conversa com ele.

Recapitulando os detalhes físicos e psicológicos do que na opinião do médico estava se

passando dentro dele, pôde entender tudo.

Havia só um probleminha – sem nenhuma importância – no apêndice. Tudo ficaria bem.

Era estimular um órgão que não estava trabalhando direito, examinar o outro e tudo daria certo.

Chegou um pouco atrasado para o jantar. Comeu e falou animadamente, mas demorou um

bom tempo até que se decidisse a voltar para o trabalho em seu escritório. Finalmente foi e em

seguida sentou-se a examinar papéis, leu documentos legais e trabalhou neles, mas o tempo todohavia aquela sensação de que colocara de lado alguma coisa – um assunto pessoal, importante –

para a qual voltaria assim que terminasse o que estava fazendo. Quando terminou, lembrou que

esse assunto pessoal era seu apêndice. Mas resolveu não se entregar, foi para a sala tomar chá.

Havia visitas, entre eles o magistrado examinador, considerado um bom partido para sua filha, e

eles estavam conversando, tocando piano e cantando. Ivan Ilitch, como bem notou Prask ovy a,

passou a noite em melhor humor do que em outras ocasiões, mas em nenhum momento

esqueceu que havia esse assunto importante relativo a seu apêndice para ser analisado. Às onze

horas despediu-se e foi para a cama. Desde que adoecera passara a dormir sozinho em um

pequeno quarto junto do escritório. Trocou de roupa e pegou o livro de Zola que estava lendo,

mas, em vez de ler, pegou-se a pensar. E na sua imaginação dava-se aquela tão desejada

melhora nos intestinos. Secreção e evacuação eram estimuladas, as atividades normais eram

restabelecidas.

“Sim, é isto!”

, pensou.

“As pessoas só têm que ajudar a natureza, isso é tudo!”

Lembrou-se do remédio, sentou-se, engoliu e deitou novamente de costas, aguardando que o

remédio fizesse efeito e parasse a dor.

“Tudo o que tenho a fazer é tomar o remédio

regularmente e evitar excessos. Ora, eu já estou melhor, muito melhor!” Examinou o lado e não

sentiu dor ao tocá-lo.

“Não está sensível. Já está muito melhor.

” Apagou a luz e virou-se...

“O

apêndice está se ajeitando, já está havendo secreção...

” Mas, subitamente, sentiu a velha,

familiar e insistente dor, a mesma fisgada, constante, teimosa, terrível. Na sua boca, o mesmo

gosto desagradável, tão familiar. Seu coração se apertou, sua cabeça girou.

“Oh, meu Deus! Oh,

meu Deus!”

, murmurou.

“Lá vem ela outra vez! Nunca vai parar!” E então, de repente, como

num clarão, o problema se apresenta pela primeira vez de uma forma bem diferente.

“Apêndice! Rim!”

, ele pensava.

“Ora, não é uma questão de apêndice ou rim, mas de vida... ou

de morte. Sim. Havia vida, e agora ela está indo embora, esvaindo-se, e eu não tenho condições

de detê-la. Claro! Por que me enganar? Está claro para mim que eu estou morrendo e que é só

uma questão de semanas, de dias... pode acontecer nesse exato momento. Havia luz e agora há

escuridão. Eu estava aqui e agora estou indo embora. Mas para onde?” Um calafrio percorreu

seu corpo, a respiração ficou ofegante e ele só conseguia ouvir o coração disparando.

“Não existirei mais e então o que virá? Não haverá nada. Onde estarei quando não existir

mais? Será isso morrer? Não. Eu não vou aceitar isso!” Levantou-se e tentou acender a vela com

as mãos trêmulas. Deixou cair vela e castiçal no chão e atirou-se outra vez à cama.

“De que

adianta? Que diferença faz?”

, perguntava-se fixando, com olhos arregalados, a escuridão.

“Morte. Sim, morte. E nenhum deles entende, ou quer entender. E não sentem pena nenhuma de

mim. Estão todos se divertindo.

” (Podia ouvir, mesmo com a porta fechada, distante, a cadência

de uma música e seu acompanhamento.) “Eles não se importam. No entanto eles também vão

morrer. Idiotas! A única diferença é que acontecerá um pouquinho mais cedo para mim e um

pouquinho mais tarde para eles. Só isso. Mas a vez deles vai chegar. Agora, porém, estão se

divertindo. Insensíveis!” A raiva cortava-lhe a respiração. Sentia-se insuportavelmente infeliz.

“Não pode ser que todos os homens sejam sempre condenados a passar por esse horror!”

Levantou-se.

“Não vou continuar assim. Tenho que me acalmar, pensar em tudo o que aconteceu desde o

começo!” E começou a refletir.

“Sim, o começo da minha doença. Dei uma batida de lado, mas

ainda estava bem naquele dia e no seguinte. Machucou um pouco, depois piorou. Depois fui

consultar os médicos, depois veio a depressão, infelicidade e mais médicos e o tempo todo eu iame aproximando, sem saber, cada vez mais desse abismo. Comecei a enfraquecer. Cada vez

mais perto! E agora estou definhando e não há mais luz nos meus olhos. A morte está ao meu

lado e eu pensando em apêndice! Pensando em como fazer funcionarem os intestinos, enquanto

a morte bate à minha porta. Mas será isso realmente a morte?” Sentiu o terror tomar conta outra

vez e respirou com dificuldade. Sentou-se para procurar os fósforos, bateu com o cotovelo na

mesa de cabeceira, descontrolou-se e virou a mesa com raiva. Desesperado e sem fôlego,

deixou-se cair esperando a morte naquele momento.

Enquanto isso as visitas se despediam. Praskovy a Fiodorovna levava-os até a porta, quando

ouviu um barulho e entrou.

– O que aconteceu?

– Nada. Fui eu que derrubei isto sem querer.

Ela saiu e voltou com uma vela. Ele ficou deitado, com a respiração pesada, como quem

acabou de correr uma milha, olhando-a fixamente.

– O que foi, Jean?

– Naada. Eu que virei...! – (“Por que falar sobre isso? Ela não vai entender”

.)

E realmente ela não entendia. Pegou a vela, acendeu-a para ele e saiu apressada para se

despedir de outro convidado. Quando voltou ele continuava deitado, na mesma posição, fixando o

teto.

– O que houve? Está se sentindo pior?

– Sim!

Ela sacudiu a cabeça e sentou.

– Sabe, Jean, acho que deveríamos chamar Leshchetitsk y até aqui.

Isto significava mandar buscar o famoso especialista, sem se preocupar com a despesa.

“Não”

, respondeu, sorrindo maldosamente. Ela ficou mais um tempo sentada, depois aproximou-

se dele e beijou sua testa.

Enquanto ela o beijava, ele odiou-a do fundo de sua alma e foi com dificuldade que

conseguiu conter-se para não empurrá-la.

– Boa-noite. Se Deus quiser, você dormirá bem!

– Sim.6

Ivan Ilitch via que estava morrendo e desesperava-se.

No fundo do coração sabia que estava indo embora e, longe de acostumar-se com a idéia,

simplesmente não conseguia entendê-la.

O exemplo de um silogismo que aprendera na Lógica de Kiezewetter,

“Caio é um homem,

os homens são mortais, logo Caio é mortal”

, parecera-lhe a vida toda muito lógico e natural se

aplicado a Caio, mas certamente não quando aplicado a ele próprio. Que Caio, ser abstrato, fosse

mortal estava absolutamente correto, mas ele não era Caio, nem um ser abstrato. Não: havia sido

a vida toda um ser único, especial. Fora o pequeno Vany a, com mamãe e papai e Mita e

Volodya, com brinquedos e um tutor e uma babá; e mais tarde com Kátia e todas as alegrias e

prazeres da infância, da adolescência e da juventude. O que sabia Caio do cheiro da bola de

couro de que Vany a tanto gostava? Por acaso era Caio quem beijava a mão de sua mãe e

escutava o suave barulho da seda de suas saias? Foi por acaso Caio quem se envolveu em

protestos quando estudante de Direito? Foi Caio quem se apaixonou? Quem presidiu sessões como

ele?

E Caio certamente era mortal e era mais do que justo que morresse, mas ele, o pequeno

Vany a, Ivan Ilitch, com todos os seus pensamentos e emoções, é completamente diferente. Não

pode ser verdade, isto seria terrível demais.

Era assim que se sentia por dentro.

“Se eu tinha que morrer, assim como Caio, deveriam ter-me avisado antes. Uma voz dentro

de mim desde o início deveria ter-me dito que seria assim. Mas não havia nada em mim que

indicasse isso; eu e todos os meus amigos sabíamos que no nosso caso seria diferente. E eis que

agora... Não... não pode ser e no entanto é assim! Como entender isso?”

E não conseguia compreender e tentava desviar seus mórbidos e desesperançados

pensamentos e substituí-los por outros mais razoáveis, mais saudáveis, mas a idéia – e não apenas

a idéia, mas a realidade tal qual se apresentava – voltava a todo momento para enfrentá-lo.

E ele buscava outros pensamentos para pôr no lugar desses, um depois do outro, na

esperança de encontrar alento. Tentou voltar a antigos pensamentos que no passado o haviam

protegido contra a idéia da morte. Mas, estranhamente, tudo aquilo que antes costumava

encobrir, obscurecer e destruir o sentimento de morte já não fazia mais o mesmo efeito. Ivan

Ilitch passava agora a maior parte do seu tempo nessas tentativas de reencontrar a antiga

proteção mental que mantinha a morte fora de sua vista. Dizia-se a toda hora: “Vou retomar

minhas atividades – afinal de contas eu vivia para o meu trabalho!”

. E afastando todas as dúvidas,

ia para o Tribunal, começava a conversar com seus colegas e sentava em sua cadeira com ar

distraído, como era de hábito. Observava as pessoas com olhar pensativo e, descansando suas

mãos magras no braço da cadeira, como sempre fazia, inclinava-se para um colega e, puxando

os papéis para perto de si, sussurravam trocando impressões e então, subitamente levantando os

olhos e endireitando-se na cadeira, pronunciava as tradicionais palavras que davam início à

sessão. Mas, abruptamente, no meio disso tudo, a dor no lado, não importando a etapa do trabalho

em que se encontrasse, surgia e impunha-se. Ivan Ilitch, assim que tomava consciência dela,

tentava desviar o pensamento, mas ela resistia, teimosa. A dor chegava e postava-se frente a ele,olhando-o, afrontando-o, e ele enrijecia de pavor, a visão escurecia e perguntava-se se ela, a dor,

existia realmente. E seus colegas e subordinados notavam com surpresa e pesar que ele, o juiz

brilhante e arguto, estava se confundindo e cometendo erros. Tentava se recompor e recuperar o

controle e conseguia, de alguma forma, encerrar a sessão, e voltava para casa com a triste

certeza de que o trabalho já não podia, como antigamente, esconder dele o que queria que

ficasse escondido e que suas atividades não podiam, definitivamente, livrá-lo dela! E pior do que

tudo, ela chamava constantemente sua atenção, não para fazê-lo tomar alguma providência, mas

simplesmente para fazê-lo olhar direto no seu rosto e, sem poder fazer nada, sofrer, sofrer

indescritivelmente.

E para tentar salvar-se desse estado de espírito, Ivan Ilitch procurava alívio – novos abrigos –

e encontrava proteções que por um momento pareciam salvá-lo, mas em seguida mostravam-se

ineficazes, como se ela penetrasse em todos eles e nada pudesse tirá-la dali.

Algumas vezes, já tarde, ele ia até a sala de visitas que ele próprio havia mobiliado e

decorado – aquela sala de visitas onde houve a queda por culpa da qual (e como isso lhe parecia

irônico) estragara toda sua vida, pois sabia que sua doença se originara daquele machucado.

Entrava na sala e, notando que havia algum arranhão na mesa, procurava logo a causa e via que

era a capa de bronze de um álbum fora do lugar. Pegava o valioso álbum que havia arrumado

com tanto carinho e irritava-se com sua filha e as amigas por sua falta de cuidado – aqui e ali

havia uma página rasgada ou uma fotografia de cabeça para baixo. Colocava tudo em ordem e

punha o álbum de volta no lugar.

De repente ocorria-lhe mudar todos os álbuns de lugar e colocá-los no canto da sala onde

estavam as plantas. Chamava o empregado, mas quem vinha em seu socorro era sua mulher ou

sua filha, que nunca concordavam com ele, contrariavam-no e ele discutia e acabava se

irritando. Mas estava tudo bem, desde que ele não pensasse nela. Ela não estava ali.

Mas bastava sua esposa dizer, assim que o via carregar ele mesmo alguma coisa: “Deixe

que os empregados fazem isso, você vai se machucar outra vez” e imediatamente ela punha os

olhos para dentro do abrigo que o protegia. Ele podia vê-la. Ela só dera uma espiada e ele tinha

esperanças de que desaparecesse, involuntariamente. Via-se esperando por ela – e lá estava, a

mesma de antes, doendo, doendo o tempo todo e agora já não podia esquecê-la e ela o olha

atentamente por detrás das flores.

“De que adianta isso tudo?”

“E a verdade é que perdi minha vida aqui, perto daquela cortina, assim como poderia tê-la

perdido invadindo um forte. Dá para acreditar? Que coisa terrível! É ridículo! Não pode ser! Não

pode ser, mas é!”

Ele então ia para seus aposentos, deitava-se e outra vez ficava a sós com ela. Cara a cara

com ela. E não havia nada que ele pudesse fazer com ela, a não ser olhar e estremecer.7

É impossível dizer como tudo aconteceu, porque deu-se aos poucos, passo a passo,

imperceptivelmente, mas no terceiro mês da doença de Ivan Ilitch, sua esposa, sua filha, seu

filho, os empregados, os conhecidos, os médicos e acima de tudo ele próprio tinham consciência

de que toda a consideração que ele podia ter pelas outras pessoas concentrava-se em um único

ponto: saber quando ele afinal partiria e libertaria finalmente os vivos do constrangimento de sua

presença e a si próprio de seu sofrimento.

Passou a dormir cada vez menos; deram-lhe ópio e passaram a aplicar-lhe injeções de

morfina, mas nada dava-lhe alívio. A angústia surda que experimentava naquele estado semi-

entorpecido, no início, trouxe-lhe certo alento pela mudança, mas logo tornou-se tão angustiante

quanto a própria dor, ou até mais.

Preparavam-lhe comidas especiais, seguindo as ordens médicas, mas esses pratos

pareciam-lhe cada vez mais sem gosto, cada vez mais enjoativos.

Medidas especiais também tiveram de ser tomadas para ajudar na sua evacuação, o que era

um constante sofrimento para ele; sofrimento pela sujeira, pela inconveniência e pelo cheiro e

por saber que outra pessoa tinha de ajudar.

No entanto, esse mesmo inconveniente foi o que trouxe a Ivan Ilitch algum conforto.

Gerassim, o criado que servia a mesa, era quem vinha sempre limpá-lo.

Gerassim era um camponês jovem e limpo, que crescera forte, graças à comida local, e

estava sempre bem-disposto. No início a imagem do rapaz nas suas roupas limpas de camponês,

envolvido naquela tarefa repugnante, deixava-o embaraçado.

Houve uma vez em que, levantando-se da privada, de tão fraco que estava não conseguiu

erguer suas calças. Sentou-se em uma cadeira baixa e olhou com horror suas fracas coxas nuas,

com os magros músculos nelas desenhados.

Gerassim entrou com seus passos leves mas firmes, espalhando um agradável aroma de

terra que vinha de suas botas e do ar fresco do inverno. Vestia um avental limpinho de tecido

rústico e uma limpa camisa de algodão com as mangas arregaçadas sobre seus fortes e jovens

braços nus, e sem olhar para Ivan Ilitch – por consideração pelos sofrimentos do doente –

,

disfarçando a alegria de viver que brilhava em seu rosto, foi até a privada.

– Gerassim – chamou Ivan Ilitch com voz fraca.

O jovem ergueu-se, temendo ter feito alguma coisa errada e, com um suave movimento,

virou na direção do inválido seu rosto fresco, calmo, simples e jovem, no qual uma barba apenas

começava a brotar.

– Senhor?

– Isto tudo deve ser muito desagradável para você. Desculpe-me. Não posso fazer nada!

– O que é isto, senhor! – E seus olhos brilhavam num sorriso de dentes brancos e jovens.

Não me custa nada. É um caso de doença. O que se vai fazer?

E com mãos habilidosas executou sua tarefa rotineira e saiu do quarto pisando suavemente,

retornando cinco minutos depois, tão suavemente quanto saíra.

Ivan Ilitch continuou sentado na mesma posição naquela cadeira.

– Gerassim – chamou de novo quando este já havia feito a limpeza –

, por favor, venha meajudar! – Gerassim foi até ele.

– Levante-me. É difícil sozinho e eu dispensei o Dimitri!

Gerassim foi até ele e, com a mesma delicadeza com que andava, pôs seus braços fortes ao

seu redor, ergueu-o delicadamente e amparou-o com uma mão, enquanto com a outra erguia

suas calças e já ia colocá-lo na cadeira novamente quando Ivan Ilitch pediu para ser levado até o

sofá. Sem esforço e sem dar a impressão de que segurava com firmeza, levou-o quase

carregado para o sofá e o acomodou.

– Obrigado, você faz tudo tão bem e com tanto cuidado...!

Gerassim sorriu outra vez e virou-se para sair. Mas Ivan Ilitch sentia tanto conforto em sua

presença que não queria deixá-lo ir.

– Só mais uma coisa. Coloque aquela cadeira perto de mim, por favor. Não, a outra, sob os

meus pés. Sinto-me mais confortável com os pés para cima!

Gerassim trouxe a cadeira, colocou-a no lugar e pôs as pernas de Ivan Ilitch em cima dela.

Ivan Ilitch tinha a impressão de sentir-se mais calmo enquanto Gerassim levantava suas pernas.

– Com as pernas para cima é melhor. Coloque aquela almofada aqui embaixo.

Gerassim foi lá e outra vez ergueu suas pernas para colocar embaixo a almofada e

novamente Ivan Ilitch notou o quanto se sentia melhor quando Gerassim segurava suas pernas.

Quando ele as largava Ivan Ilitch tinha a sensação de piorar.

– Gerassim, você está muito ocupado agora?

– Absolutamente, senhor! – respondeu Gerassim, que aprendera com os empregados da

cidade a como falar com os bem-nascidos.

– O que é que você ainda tem para fazer?

– O que eu tenho para fazer? Eu já fiz tudo. Só falta cortar a lenha para amanhã!

– Então levante as minhas pernas um pouco mais, pode ser?

– Claro que sim – e Gerassim ergueu as pernas de seu patrão mais para cima e Ivan Ilitch

teve a impressão de que nessa posição não sentia absolutamente nenhuma dor.

– Mas e a lenha? !

– Não se preocupe com isso, senhor. Há tempo.

Ivan Ilitch pediu a Gerassim que sentasse e segurasse suas pernas e começou a conversar

com ele. E curiosamente parecia-lhe sentir-se mais confortado pelo fato de Gerassim estar

segurando suas pernas.

Depois disso, muitas vezes Ivan Ilitch chamava Gerassim e pedia que colocasse suas pernas

sobre seus ombros e sentia prazer em conversar com ele. Gerassim fazia tudo calmamente de

boa vontade, com simplicidade e uma bondade que comoviam Ivan Ilitch. Nas outras pessoas,

saúde, força e vitalidade ofendiam-no, mas a força e a vitalidade de Gerassim, ao contrário de

aborrecê-lo, transmitiam-lhe calma.

O que mais atormentava Ivan Ilitch era o fingimento, a mentira, que por alguma razão eles

todos mantinham, de que ele estava apenas doente e não morrendo e que bastava que ficasse

quieto e seguisse as ordens médicas que ocorreria uma grande mudança para melhor. Mas ele

sabia que nada do que eles fizessem teria outro resultado que não mais agonia, mais sofrimento e

a morte. E a farsa desgostava-o profundamente: atormentava-o o fato de que se recusassem a

admitir o que eles e ele próprio bem sabiam, mas insistiam em ignorar e forçavam-no a

participar da mentira. Esse fingimento que se estabeleceu em torno dele até a véspera de sua

morte, essa mentira que só fazia colocar no mesmo nível o solene ato de sua morte, suas visitas,suas cortinas, seu caviar para o jantar... eram-lhe terrivelmente dolorosos.

E muitas vezes, quando estavam encenando sua farsa para o bem dele, achavam, ele por

pouco não se punha a gritar: “Parem de mentir! Vocês sabem, eu sei e vocês sabem que eu sei

que estou morrendo. Portanto, pelo menos parem de mentir sobre o fato!”

. Mas nunca chegou a

ter coragem para isso. O horrível, terrível ato de sua morte, ele via, estava sendo reduzido por

aqueles que o rodeavam ao nível de um acidente fortuito, desagradável e um pouco indecente

(mais ou menos como se comportam com alguém que entra em uma sala de visitas cheirando

mal), e agiam assim em nome do mesmo decoro ao qual ele próprio subjugara-se a vida inteira.

Notava que ninguém se compadecia dele porque ninguém estava com disposição nem mesmo de

pensar em sua situação. Gerassim era a única pessoa que entendia o que ele estava passando e

lamentava por ele, e por isso Ivan Ilitch só sentia-se bem em sua presença. Sentia-se confortado

quando Gerassim levantava suas pernas – às vezes a noite toda – e recusava-se a ir dormir,

dizendo: “Não se preocupe, senhor. Eu posso dormir o suficiente mais tarde”

. Ou subitamente

tropeçava no linguajar de camponês e dizia ocê ao invés de você e acrescentava: “Se ocê não

tivesse doente era outra coisa, mas nessa situação era estranho se eu não servisse ocê!”

.

Gerassim era o único que não mentia, estava claro que só ele entendia a situação e não achava

necessário disfarçá-la e simplesmente tinha pena do patrão doente, à beira da morte. Uma vez,

quando Ivan Ilitch queria mandá-lo dormir, chegou a dizer diretamente:

– Nós todos vamos morrer, portanto, o que custa um pouco de esforço? – querendo dizer que

não se importava com o trabalho extra porque o estava fazendo para alguém que estava

morrendo e esperava que alguém fizesse o mesmo por ele quando chegasse sua hora.

Além de toda a mentira, ou talvez por causa dela, a pior coisa para Ivan Ilitch era ver que

ninguém tinha pena dele, como precisava que tivessem. Em alguns momentos, depois de um

período prolongado de sofrimento, desejava, mais do que outra coisa – envergonhava-se de

confessá-lo –

, alguém que sentisse pena dele como se tem pena de uma criança doente. Ansiava

ser cuidado e beijado como as crianças são cuidadas e confortadas quando doentes. Sabia que

era um funcionário importante com uma barba que começava a ficar grisalha e portanto era

impossível o que queria, mas mesmo assim era o que desejava de verdade. E na atitude de

Gerassim para com ele havia algo desse tipo, por isso sentia tanto conforto em sua presença. Ivan

Ilitch sente vontade de chorar e de ter alguém que o conforte e chore com ele, mas eis que entra

seu colega Shebek e, ao invés de chorar e ser confortado, assume um ar grave, sério, profundo e,

por força do hábito, vê-se expressando sua opinião sobre uma decisão do Tribunal de Apelação e,

obstinadamente, insistindo no assunto. Essa falsidade em volta e até mesmo dentro dele, mais do

que qualquer outra coisa, envenenou os últimos dias de Ivan Ilitch.8

Era de manhã. Ele sabia que era de manhã porque Gerassim já se fora e Piotr, o outro

criado, havia entrado, apagado as velas e puxado uma das cortinas. Começou a arrumar o quarto

em silêncio. Se era manhã ou noite, sexta-feira ou domingo, não fazia para ele a menor

diferença, era tudo a mesma coisa; dor aguda, agoniante, sem descanso, a consciência da vida

esvaindo-se inexoravelmente, mas ainda não-terminada. A implacável aproximação da sempre

temida e odiada morte, sua única realidade, e ao mesmo tempo toda essa mentira. O que podiam

significar dias, ou noites, semanas ou horas do dia para ele?

– Vai querer o seu chá, senhor?

“Ele quer fazer tudo direitinho e isso inclui o patrão tomar o chá da manhã,

” pensou Ivan

Ilitch, e recusou.

– Gostaria de passar para o sofá, senhor?

“Ele tem que arrumar o quarto e eu estou atrapalhando. Eu sou sujeira e desordem,

pensou, e disse tão-somente:

– Não. Deixe-me em paz!

O rapaz continua se movimentando, ocupado com suas tarefas. Ivan Ilitch estendeu o braço.

Piotr aproximou-se, pronto a obedecer.

– O que é, senhor?

– Meu relógio.

Piotr pegou o relógio que estava por perto e alcançou-o para o patrão.

– Oito e meia. Eles já levantaram?

– Não, senhor. Só Vladimir Ivanovich (o filho de Ivan Ilitch), que foi para a escola. A

madame deixou ordem para ser acordada caso o senhor precise dela. Quer que eu a acorde,

senhor?

– Não, não é necessário.

Pensou se deveria tentar tomar o chá.

– Sim... traga-me o chá!

Piotr foi até a porta. A idéia de ficar sozinho encheu-o de terror. Como fazer para manter o

rapaz ali um pouco mais? Ah, sim, o remédio.

– Piotr, pegue o meu remédio!

Afinal de contas, o remédio deveria lhe fazer bem. Pegou a colher e engoliu uma dose. Não,

não fez efeito algum. Era tudo perda de tempo, desilusão, concluiu assim que sentiu aquele gosto

desaminador tão familiar.

“Não, não dá mais para acreditar nisso. Mas e a dor – por que é que eu

tenho de sentir essa dor? Se ao menos parasse por algum tempo!” E deu um gemido. Piotr virou-

se.

– Não foi nada. Vá. Traga-me o chá!

Piotr saiu. Ao ficar sozinho Ivan Ilitch gemeu não tanto de dor, por pior que esta fosse, mas

de angústia. Sempre e para sempre a mesma coisa, sempre esses intermináveis dias e noites. Se

ao menos fosse tudo mais rápido. Tudo o quê? A morte. A escuridão. Não, não! Tudo menos a

morte!

Quando Piotr voltou com o chá em uma bandeja, Ivan Ilitch olhou-o confuso por um tempo,tentando entender quem era aquele rapaz e o que queria. Piotr ficou desconcertado com esse

olhar e seu embaraço trouxe Ivan Ilitch novamente a si.

– Ah, sim! O chá. Que bom! Ponha ali. Só ajude-me a me lavar e vestir uma camisola

limpa.

E Ivan Ilitch começou a lavar-se com pausas para descansar. Lavou as mãos, depois o rosto,

escovou os dentes, penteou o cabelo e olhou-se no espelho. Teve um baque com o que viu,

especialmente com o pouco cabelo que grudava-se à sua pálida testa.

Enquanto trocava de camisa, pensou que ficaria ainda mais assustado ante a visão de seu

corpo e evitou olhá-lo. Até que finalmente tudo terminou. Vestiu seu robe, cobriu-se com uma

coberta e sentou na poltrona para beber o chá. Por um momento sentiu-se mais disposto, mas

mal havia começado a beber e lá vinham de novo aquele gosto e a dor. Terminou o chá com

esforço e recostou-se, esticando as pernas. Deitou-se e deixou que Piotr se fosse.

Era sempre o mesmo círculo: por um momento um breve toque de esperança e no

momento seguinte um violento mar de desespero e sempre a dor, sempre sofrimento e dor

novamente, incessantemente. Todo esse sofrimento solitário era terrível. Ele bem que gostaria de

chamar alguém, mas sabia de antemão que, com outras pessoas no quarto com ele, seria ainda

pior.

“Se ao menos eu pudesse tomar mais morfina, eu perderia um pouco a consciência. Vou

dizer a ele, vou dizer ao médico que ele tem de pensar em outra coisa. É impossível continuar

assim, simplesmente impossível.

Passou-se uma hora desse jeito e depois mais uma. Ouve-se a campainha da porta da

frente. Seria o médico? Sim, é o médico. Saudável e com boa aparência, gordo e animado, com

aquela expressão no rosto que parece dizer: “O paciente está um pouquinho nervoso, hein? Mas

logo, logo vamos dar um jeito nisso”

. O médico sabe que essa frase não faz sentido nesse caso,

mas ele a adotou de uma vez por todas e não consegue tirá-la, como alguém que vestisse um

fraque de manhã para fazer uma série de visitas.

O médico esfrega as mãos naquele seu jeito seguro e cheio de vivacidade.

– Brr... que frio! Está geando. Só deixe eu me aquecer! – diz, como se fosse apenas uma

questão de esperar um ou dois segundos até que se esquentasse e então poria tudo em ordem.

– Bem, e então, como estamos?

Ivan Ilitch sentiu que o médico queria perguntar: “E então, como vai aquele probleminha?”

.

Mas até ele sente que seria demais e pergunta: “Como passou a noite?”

.

Ivan Ilitch olha para o médico, como se dissesse: “Você nunca vai se envergonhar de

mentir?”

. Mas o médico não tem nenhuma vontade de entender e Ivan Ilitch diz:

– O mesmo horror de sempre. A dor não pára, não me deixa em paz. Se ao menos você

pudesse me dar alguma coisa que...

– Ah... vocês doentes são todos iguais... Bem, agora acho que descongelei e nem Praskovy a

Fiodorovna, sempre tão exigente, acharia nada de errado com a minha temperatura. Agora já

posso cumprimentar.

E aperta a mão de seu paciente e logo abandona o ar descontraído e começa com ar sério a

examinar o paciente, sentindo o pulso e tirando a temperatura, auscultando-lhe e dando-lhe

batidinhas.

Ivan Ilitch sabe muito bem que isso tudo não passa de fingimento, mas quando o médico,

ajoelhando-se, debruça-se sobre ele, colocando o ouvido mais em cima, daqui a pouco maisembaixo e com a expressão mais sábia executa vários movimentos de ginástica sobre ele, Ivan

Ilitch submete-se a tudo como costumava submeter-se aos discursos dos advogados no Tribunal,

mesmo sabendo muito bem que eles estavam mentindo o tempo todo e sabendo muito bem o

porquê.

O médico ainda estava ajoelhado no sofá, escutando-o, quando se ouve o farfalhar da saia

de seda de Prask ovya Fiodorovna e sua voz repreendendo Piotr por não tê-la avisado da chegada

do médico.

Ela entra, beija o marido e imediatamente põe-se a explicar que já está de pé há muito

tempo e somente por algum mal-entendido não estava lá quando o médico chegou.

Ivan Ilitch olha para ela, examina-a da cabeça aos pés e analisa, cheio de rancor, a

brancura, a suavidade e a maciez de seus braços e pescoço, seus fartos cabelos e o brilho vivo de

seus olhos e detesta-a do fundo de sua alma. E quando ela o toca ele é sacudido por um espasmo

de ódio.

A atitude dela em relação a ele e sua doença ainda é a mesma. Assim como o médico

adotara uma linha de conduta com seu paciente que não conseguia mais abandonar, também ela

escolhera uma atitude em relação a ele – a de que ele não estava fazendo algo que deveria estar

fazendo e era o único culpado e ela estava amorosamente chamando sua atenção – e não podia

mais mudar.

– Você viu só? Ele não me ouve, não toma o remédio na hora certa. E o que é pior, inventou

agora de deitar-se em uma posição que deve fazer-lhe muito mal – com as pernas para cima.

E descreveu como ele fazia Gerassim erguer suas pernas.

O médico sorriu com um ar condescendente, que queria dizer: “O que é que se pode fazer,

não é? Os doentes, você sabe, pegam às vezes manias tão estranhas, mas nós temos de perdoá-

los”

.

Quando o exame terminou o médico olhou para o relógio, e Prask ovy a anunciou a Ivan

Ilitch que naturalmente ele decidiria, mas ela já havia procurado um célebre especialista que o

examinaria e se reuniria depois com Mihail Danilovich (o médico da família).

– Por favor, não faça objeções. Estou fazendo isso por mim – disse cinicamente, dando a

entender que estava fazendo isso por ele e só dizia o contrário para não lhe dar o direito de

recusar. Ele ficou em silêncio, franzindo as sobrancelhas. Sentia-se emaranhado em uma rede de

tamanha falsidade que ficava difícil livrar-se do que quer que fosse.

Tudo que ela fazia para ele era inteiramente para si mesma, e ela costumava dizer a ele que

estava fazendo por ela mesma o que de fato ela estava fazendo por ela mesma, como se isso

fosse tão inacreditável que só pudesse significar o contrário.

E, assim, às onze e meia chegou o famoso especialista. Mais uma vez houve exames e

conversas sérias, na sua presença e no quarto ao lado, sobre o rim e o apêndice. E perguntas e

respostas com um ar de tamanha importância que, mais uma vez, ao invés da verdadeira questão

sobre vida e morte, a única que lhe interessava, o assunto se restringia ao rim e o apêndice que

não estavam se comportando como deveriam e que seriam agora atacados pelo Dr. Mihail

Danilovich, mais o especialista, e forçados a entrarem nos eixos.

O célebre especialista despediu-se com expressão séria e solidária, mas pouco animadora.

À tímida pergunta feita por Ivan Ilitch com os olhos cheios de medo e esperança, sobre se havia

alguma chance de recuperação, respondeu que não podia garantir, mas que certamente haviauma possibilidade. O olhar de esperança com que Ivan Ilitch observava o médico ir embora era

tão patético que ao vê-lo, quando passava pelo escritório para fazer o pagamento, Praskovy a

começou a chorar.

A chama de esperança acesa pelo médico não durou muito. A mesma sala, os mesmos

quadros, as mesmas cortinas, o papel de parede, os vidros de remédio estavam todos ali e ali

estava também o mesmo dolorido e sofrido corpo. E Ivan Ilitch pôs-se a gemer de dor. Deram-

lhe uma injeção subcutânea que o deixou inconsciente.

Já estava escuro quando voltou a si. Trouxeram-lhe seu jantar e ele forçou-se a engolir um

pouco de caldo de carne e outra vez estava tudo igual com mais uma noite se aproximando.

Depois do jantar, às sete horas, Praskovy a entrou no quarto, arrumada para sair, com seus

seios exuberantes bem erguidos, o rosto coberto de pó-de-arroz. Ela lhe havia lembrado de

manhã que iriam ao teatro. Sarah Bernhardt estava na cidade e eles tinham um camarote que ele

mesmo fizera questão de reservar. Ele havia esquecido completamente e aquele traje dela era

um insulto. Mas disfarçou a irritação ao lembrar que fora ele próprio, realmente, quem insistira

em fazer a reserva porque seria um grande prazer estético e contribuiria para a educação das

crianças.

Praskovya Fiodorovna entrou com um ar muito satisfeito, mas levemente culpado. Sentou-

se, perguntou como ele estava, só por perguntar, como ele bem notou, e foi dizendo o que seu

papel lhe exigia que dissesse: que por ela nada a faria sair, mas o camarote já havia sido

reservado e Ellen e a filha iam, assim como Petrischev (o magistrado pretendente da filha), e

que nem se podia cogitar deixá-los ir sozinhos. Mas, sem dúvida, ela teria preferido mil vezes

sentar ali com ele um pouco, e que ele, por favor, não deixasse de seguir as ordens médicas.

– Ah, sim, Fiodr Petrovich (o pretendente) gostaria de entrar um pouco. Você se importa? E

Liza também!

– Pode chamá-los!

Sua filha entrou com um vestido de noite, sua carne jovem e branca ali à mostra, enquanto

que a dele o fazia sofrer tanto. Ela, ao contrário, exibia a sua: era forte, saudável, visivelmente

apaixonada e naturalmente impaciente com doença, sofrimento e morte porque vinham

atrapalhar sua felicidade.

Fiodr Petrovich entrou também em traje de noite, os cabelos encaracolados à la Capoul, seu

pescoço longo e forte envolto em um colarinho branco, o peito da camisa também branco e

calças pretas, justas, bem esticadas sobre as fortes coxas. Uma luva branca cobria-lhe

delicadamente uma das mãos e na outra segurava um chapéu de ópera.

Atrás dele vinha, quieto, sem se fazer notar, o garoto, em seu novo traje, pobrezinho, usando

luvas e com aquele horrível círculo azul embaixo dos olhos que Ivan Ilitch sabia muito bem o que

significava.

Seu filho sempre lhe parecera um tanto patético e agora lhe era terrível ver aquele olhar de

pena no rosto assustado do menino. Com exceção de Gerassim, Ivan Ilitch tinha a impressão de

que Vassya era o único que o entendia e compadecia-se dele.

Sentaram-se todos e mais uma vez perguntaram como ele estava. Seguiu-se um silêncio.

Liza perguntou para a mãe se ela estava com o binóculo e houve uma discussão entre mãe e filha

sobre quem tinha ficado com ele e onde o haviam colocado, o que causou um certo mal-estar.

Fiodr Petrovich perguntou a Ivan Ilitch se ele alguma vez havia assistido Sarah Bernhardt.Ivan Ilitch demorou um pouco para entender a pergunta mas, depois de algum tempo, disse:

– Não. Você já?

– Sim, em Adrienne Lecouvreur.

Prask ovya Fiodorovna mencionou alguns papéis nos quais Sarah Bernhard estivera

particularmente bem. A filha discordou.

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