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Flavio Mendes (Bossa Nova), Águas de Março, O ARRANJO #7 (English subtitles)

Águas de Março, O ARRANJO #7 (English subtitles)

Tom Jobim estava no sítio da familia dele, na beira do Rio Preto,

quando veio uma inspiração, muito direta: é pau, é pedra, é o fim do caminho

Ele pegou um toco de lápis e um papel pardo que estava por ali e começou a escrever, antes que esquecesse

Para ajudar a gravar a ideia, veio na cabeça dele uma melodia super simples, de 3 notas,

que ajudaria a memorizar o ritmo das palavras

Águas de Março foi escolhida a melhor canção brasileira por uma enquete do jornal Folha de São Paulo

É considerada por Chico Buarque de Hollanda o samba mais bonito do mundo,

e a sua versão em inglês, Waters of March, feita pelo próprio Tom,

foi considerada uma das dez melhores canções em língua inglesa do século XX

pelo crítico de jazz Leonard Feather

Eu sou Flávio Mendes, músico e arranjador, esse é O ARRANJO, seja vem-vindo

No início dos anos 1970, Tom realizou um sonho:

ser o produtor fonográfico dos seus próprios discos, ou seja, ser o dono deles

Pagar o estúdio, os arranjos, os músicos e ter então liberdade total

Ele já tinha trabalhado em gravadoras, ele sabia como as coisas funcionam

É uma empresa, tem que dar lucro

As gravadoras estavam sempre pensavam no lado comercial primeiro,

como serão os custos, a projeção de vendas, e em segundo plano vinha o lado artístico

Se ele mesmo financiasse os seus discos ele poderia gravar com grandes orquestras,

pensar em arranjos sinfônicos, escolher os músicos que quisesse

Águas de Março abre o disco Matita Perê, o primeiro que ele bancou

e que lhe custou 30 mil dólares em 1973

Gravado em janeiro desse ano no estúdio da Columbia, em Nova York,

teve arranjos e regência de Claus Ogerman

O disco Matita Perê é um ponto de virada na carreira de Tom, um passo à frente

É o album que marca o distanciamento da estética minimalista que caracterizou a bossa nova

em busca de uma certa suntuosidade sinfônica, de orquestrações mais densas,

que sempre estiveram na cabeça do arranjador Tom Jobim

Tom: “Mais tarde quando eu trabalhava na odeon

eu andava com aquelas pastinha cheia de arranjos, porque eu queria escrever o arranjo para orquestra,

eu só pensava na orquestra"

A sua música começa então a se aproximar da musica clássica,

da música de concerto, erudita, que Jobim tanto gostava,

ele começava a ser o herdeiro do seu ídolo Heitor Villa-Lobos

Tom: "Villa-Lobos é um gênio. Essa piteira aqui é do Villa-Lobos,

foi Dona Arminda que me deu, Dona Arminda Villa-Lobos

é essa piteira aqui que eu boto os charutos que é pra ver se eu aprendo alguma coisa”

Alguns temas do disco Matita Perê eram trilhas que Tom compôs para filmes

como A Casa Assassinada, de Paulo César Saraceni

e Tempo de Mar, de Pedro de Moraes, filho do poeta e parceiro do Tom, Vinicius de Moraes

Eram temas em geral orquestrais e instrumentais, sem letra,

que foram originalmente arranjados por Dori Caymmi e,

no disco, orquestrados por Claus Ogerman

A forma de dar créditos a esses dois incríveis arranjadores foi uma questão que Tom teve que lidar:

os arranjos originalmente foram escritos por Dori,

mas Claus teve a liberdade de interferir, e efetivamente interferiu neles, quando foram gravar o disco

Acabou ficando um crédito de agradecimentos especiais a Dori Caymmi pela elaboração dos arranjos

Tom dizia que tinha se inspirado no poema de Olavo Bilac, O Caçador de Esmeraldas,

para escrever a letra de Águas de Março

Foi lançada em um compacto simples chamado Disco de Bolso,

um projeto do grande artista Sérgio Ricardo e editado pelo Pasquim,

um jornal de humor e resistência democrática que teve seu auge nos anos 1970

A ideia desse projeto era ter um importante nome apresentando uma música inedita de um lado

e do outro lado um jovem artista

Sim, nessa época os discos tinham dois lados

No outro lado desse disco era apresentado João Bosco,

era simplesmente o lançamento em disco

de uma das parcerias mais importantes da música brasileira do fim do século XX, João Bosco e Aldir Blanc

Aguas de março fez muito sucesso pelo mundo todo

Além da versão em inglês, tem versões em francês,

em italiano,

e até em esloveno

Fez tanto sucesso que a Coca-cola usou a música como jingle em 1985

Tom Jobim cedeu por seis meses os direitos de uso da melodia da canção,

e com ele a Coca-cola estruturou toda a sua campanha mundial de propaganda naquele ano.

Com versões nas letras pra lá de duvidosas e arranjos mais chegados ao rock,

as propagandas renderam ao Tom avalanches de críticas no Brasil

O que poderia ser um sinal de prestígio da música brasileira,

afinal uma grande marca mundial escolheu uma música brasileira pra ser veiculada em todo o mundo,

na verdade foi encarada como traição,

como se Tom tivesse se vendido ao capitalismo norte americano, tivesse vendido o seu samba

Tom: "Porque esse tempo romântico em que o compositor vendia as músicas, acabou

Eu licenciei a Coca-cola de usar a música, que ela usou, aliás, muito bem"

Tom dizia ter pensado nessa melodia como uma coisa provisória,

pra depois fazer algo mais complexo.

Mas a simplicidade precisa dessas notas

fez ele perceber que seria um erro tentar complicar essa melodia

Tom ficou muito feliz com o resultado da letra que ele escreveu para Águas de Março,

sem adjetivos, no presente, usando praticamente um único verbo, o ser

Não é uma letra narrativa, é imagética,

como um fluxo de consciência

Como eu falei, ele a começou a escrever a musica no sítio da familia dele,

e ficou tão empolgado que foi na mesma noite mostrar para a irmã e o cunhado, Helena e Manoel

Nessa época o cunhado tocava a obra de uma outra casa que tom estava construindo no terreno,

talvez por isso as referências a projeto da casa e obra, presentes na letra

Em 2011, 17 anos depois da morte de Tom,

o Rio Preto transbordou muito depois de uma forte chuva

e acabou destruindo a casa em que Jobim estava quando compôs Águas de Março

É como se a letra da música tivesse sido premonitória,

a chuva chuvendo, é a lama, é a lama

Na edição americana, Tom incluiu no disco a sua versão em inglês de Águas de Março

Ele nunca ficava satisfeito com as versões em inglês das suas músicas feita por letristas norte americanos,

e tão logo ele começou a dominar o inglês ele passou a fazer as suas próprias versões no idioma

Mas Tom dizia que essa música deu muito trabalho, que a tradução não saía

Um dia, meditando sobre o verso "um espinho na mão e um corte no pé", ele percebeu tudo:

essa letra não faz sentido nos Estados Unidos porque ninguém lá anda a pé

Além do mais as águas de março no Brasil marcam o fim do verão,

e no hemisfério norte marcam o fim do degelo,

é quando os rios voltam a correr de novo

O que no Brasil é promessa de vida, lá virou a promessa da primavera

Livre então da obrigação de fazer uma traduçao literal, ele, hospedado no Adams Hotel, em Nova York,

faz uma letra em inglês evitando ao máximo palavras de origem latina, buscando palavras anglo-saxônicas

De uma certa forma pode-se dizer que Águas de Março é uma exceção no disco Matita Perê

É o unico samba em um disco sinfônico, com cordas, madeiras e metais

Tem muito da simplicidade e da economia da bossa nova, e a sua orquestração não foge dessa estética,

desenvolvida por Jobim no fim dos anos 1950

Piano e violão, tocados por Tom, mais contrabaixo, bateria, percussão,

4 flautas e um naipe de cordas sem violas, com 12 violinos e 5 cellos

Como eu já falei nos outros vídeos, nos discos gravados pelo Tom nos Estados Unidos

ele sempre preferia músicos brasileiros na sessão rítmica, bateria e percussão

Nessa gravaçao ele conta com os grandes Airto Moreira na percussão e João Palma na bateria.

Nas mais variadas gravações dessa música normalmente um detalhe do arranjo sempre se repete:

é a introdução de violão, criada por Tom e que está presente desde a primeira gravação,

é uma marca registrada dessa música

É uma tríade maior

com a sétima menor no baixo

Na gravação com a Elis, Tom explicou assim:

Tom: "Escuta, eu quero aquele... aquele cara cortando pau lá do outro lado do rio

Ô João, tu não vem almoçar, não?

A introduça!"

Tom grava a voz dobrada nessa musica,

grava um take sobre o outro, como um efeito de encorpar o som da voz

A primeira intervenção é da flauta, no caso dois flautins,

dobrando com o piano duas notas bem agudas

Fica o efeito de um assovio

4 compassos de cellos tocando uma única nota,

a tônica do tom, a nota que define o tom da música,

no caso, si

Agora os cellos e 4 flautas baixo tocando as mesmas notas,

os cellos uma oitava abaixo das flautas baixo

Notem que o ritmo do contrabaixo não é o de samba,

não é sincopado, só toca nos tempos fortes

Essa é uma das características da forma clássica de se tocar de bossa nova

Uma frase com sentido ascendente nas flautas com cama harmônica das cordas

Os violinos agora vão mais pro agudo com apoio harmônico agora do piano,

este com novas notas e tensões para o acorde

Agora os violinos em uníssono vão pro agudo,

com os cellos fazendo a cama harmônica

Agora uma parte instrumental, com as flautas e o piano dobrados,

de novo com o efeito de assovio

E com cama harmônica de 4 vozes de violinos e cellos,

duas vozes em cada naipe

No fim do trecho instrumental os violinos vão bem pro agudo, abrindo duas vozes

Agora as flautas tocarão por muito tempo um intervalo de oitava,

vão repetir muitas vezes,

isso em música é chamado de ostinato

Agora a flauta em dó sobe uma oitava

para a parte final do ostinato

Flautas e piano dobradas nessa frase

Notem de novo que o piano traz novas notas e tensões para os acordes

Agora na coda o piano só dobra as primeiras notas da frase das flautas,

dando de novo o efeito de assovio

No fim os violinos vão pra uma região bem aguda

e os cellos fazem o apoio harmônico a 4 vozes

Eu sou Flávio Mendes, esse foi O ARRANJO,

se você curtiu dá um like, se inscreve no canal e até a próxima, muito obrigado

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