VICIADO EM CARTA
Filho, como foi seu dia?
Responde seu pai, garoto.
Fala, tô ouvindo.
–Como foi seu dia? –Com certeza.
Pode parar de escrever carta enquanto a gente fala com você?
Ih, mãe, pelo amor de Deus,
tenho que responder o Douglas, mandou um negócio importante.
O Douglas não pode esperar?
Você está viciado em carta.
Qual a graça, posso saber?
O Marquinhos mandou pra mim uma piada da gente.
Não vão entender.
Deixa eu ver.
Mostra pro seu pai, deixa a gente rir também. Ha ha ha.
Não vejo a hora do ensino médio acabar,
senão vou me tacar daqui.
Vou ter que cortar seu correio, é isso né,
garoto, que está me obrigando a fazer?
Manhê, como vou ficar falando com as pessoas?
Igual eu fazia. Gritando pela janela.
Gritando pela rua.
Eu me virava muito bem fazendo uma fogueira.
Não tinha essa molezinha de pombo não.
Jorge, acha que essas crianças sabem fazer fogueira hoje?
Não, é tudo pombo, tudo pombo.
Por isso que tá aí sedentário, tá com escoliose.
Depois não bate lá no quarto pra reclamar não.
Mãe, todo mundo usa pombo.
E por isso que todo mundo está do jeito que está.
Tá bom?
Escreve carta e fica esperando resposta pro mês seguinte.
Porque é tudo com pressa, tudo pra ontem.
Na minha época guerra durava 100 anos.
Agora com essa coisa que tem que ser tudo correndo,
guerra não tá durando nem 10 anos mais.
Imagina.
Hoje em dia, Jorge, o pessoal só não tem pressa pra casar.
Já vi um bando de meninas solteironas de 13 anos,
falando que só vai casar com 16.
Com 16 eu já tinha três filhos.
Eu matava bicho no soco!
Eu fazia amor com cabra!
Não tinha coisinha de carroça,
tecnologia de estilingue não.
Pai, o que tem uma coisa a ver com a outra, gente?
Tudo começou a degringolar
quando essa porcaria de pombo...
Tá me ouvindo?
Peraí, pai, estou lendo uma matéria super importante.
Desde quando dá pra confiar no que pombo diz?
Esse negócio de pombo só serve pra espalhar mentira e doença.
Óbvio que não.
Estou até me formando em medicina por pombo.
Profissão de viado, teu filho!
Então, aproveitando...
Acabou essa palhaçada!
Acabou!
Não, mãe! Não, não! Meu pacote de pombos!
Hoje vai ter churrasco.
O que é essa capivara aqui?
É uma capivara medieval.
Se eu não enviar para 10 cavaleiros,
a Inquisição me taca na fogueira.
Sei...
Príncipe da Nigéria?
Ah, é um herdeiro.
Falou que se doasse um pouco do ouro,
me dava toda a herança dele.
–Mas isso aqui é uma piroca! –Isso aqui é uma outra coisa...