QUE GABRIEL?
–Saudade de você, viado. –Saudade. Me conta tudo.
Pelo amor de Deus, como é que tá tudo?
Tudo indo, tudo indo...
A comida aqui é muito boa.
Vamos pedir o cardápio. Uma fome...
Vamos pedir, mas vamos só esperar o Gabriel chegar.
Que Gabriel?
Gabriel, o Gabi.
–Que Gabi, cara? –Que a mãe só tinha uma perna.
Só tinha uma perna? Não lembro.
Claro que lembra! Ele que engravidou a mendiga
que morava atrás do estacionamento do Prezunic.
–Que Prezunic, cara? –O Prezunic da Vila da Penha,
que ficava do lado do escritório onde ele aplicava
silicone industrial em travestis venezuelanas. Lembra não?
Caramba, cara. Lembro disso não.
Gabriel, pô. Atropelou aquela menina loirinha, bonitinha
que vendia Paçoquita na sua rua.
A filha da Gisele?
Não, a filha da Gisele foi a que acusou ele de abuso,
aquela história horrível lá na piscina do Clube Israelita.
–Não lembra também? –Não.
Essa não ia lembrar mesmo,
porque ele tentou uma queima de arquivo.
Mandou botar fogo na casa dela e estão desabrigados,
morando debaixo do viaduto da Pinheiro Machado.
Laranjeiras?
Do lado daquela escola
que ele jogava bala com cocaína pra molecada na hora do recreio.
Não é possível.
Ah! Pronto. Lembra que cagaram no bolo do seu casamento?
Foi Gabriel.
Estava puto com a gente
porque pegamos ele mamando no padre antes da cerimônia.
Que isso, cara. Nem lembrava disso.
Rinha de pitbull na Barra da Tijuca. Ele é o criador.
Não vou lembrar mesmo, cara. Desculpa.
A fera aí.
Fala, rapaziada!
Ah, porra! O de barba, cara!
É...
Por que não falou antes?
Aí comandante, vê um copinho aí pra nós!
Aquela senhora tá me querendo, vou chegar nela.
Bote o papo em dia aqui, já volto.
–Aí, Gabriel? –Opa.
Escutei muito de você hoje.
Eu tenho barba.
Maneiro.