ME VÊ UM CU
-Ficou bonito aqui. -Ficou.
Olá. Sejam bem-vindos. Já sabem qual vai ser o pedido?
-Vou ficar na salada de quinoa. -Salada de quinoa. O senhor?
-Um cu. -Um cu? Maravilha.
-Ao ponto? -Ao ponto para mal.
-Perfeito. Com licença. -Obrigado.
-É, deu uma... -Como assim, Felipe?
-Quê? -Desde quando você come cu?
Acordei com uma boca para cu. Falei: "Quer saber? Vou no cu."
-Do nada? -O cu. Normal, cu.
Faz tempo que não como um cuzão bom.
Engraçado, em casa você não come cu. O cu da rua você quer.
É diferente. O cu de casa é uma coisa.
Aqui é feito com uma especiaria ou outra. Tem todo um preparo.
Você conhece? Conhece a qualidade desse cu?
Se foi criado em cativeiro, se foi criado livre?
-Eu já comi muito cu aqui. -É?
Já conheço a cozinha. É tudo higienizado.
Eles tratam o cu como se fosse deles.
-Sério? -Vale. Vale. Deixa eu...
Garçom, desculpe. Me traz uma água com gás?
-Eu quero também. -Para o cu descer. Dois.
Vou te pedir guardanapo, quando eu como cu, eu me lambuzo.
É como frango a passarinho. Fico todo cagado. Pode ser?
-Pode ser. -Obrigado.
Você quer muito. Se eu soubesse,
reservava a cuzeria que abriu em Botafogo.
-Dessas coisas novas eu não gosto. -Sério?
Fica tudo uns cuzinhos iguais. Uns cuzinhos rosinhas pequenos.
Nem enche a boca.
Eu gosto de cu antigo do Rio de Janeiro de Tom Jobim.
Um cu com borda recheada, um cu mais largo
que não tinha preocupação com assalto.
-Cu criado na cevada, todo abaulado. -Que delícia!
-Isso é... Olha. Está sentindo? -Senti agora.
-Isso é cheiro de cu. -Gente...
O cu bom a gente sente pelo cheiro.
-Será que eu peço? -Ah, pede.
-Você acha? -Pede.
-Vou pedir. Garçom, por favor... -Pede então.
-Sim? -Dá tempo de cancelar o pedido,
porque eu acho que vou querer o mesmo do dele?
Infelizmente não. Era o último cu do dia.
Nem degustação, uma coisinha assim?
-Nada. É especialidade da casa. -Cu tem que comer na hora.
-Senão nunca mais tu come. -Vem bem servido?
-Se vier, a gente divide. -Depende do tamanho da fome.
Desculpa. Cu é individual. Não dá para dividir.
Eu boto um inteiro na boca, deixo dissolver, masco.
Posso até te dar uma beirola da lasca da prega.
-Vou querer a salada mesmo. -Não vai na salada.
Não precisa ir na salada. Sempre salada de quinoa.
-Vai no negócio... Se deixa levar. -Será?
-Vai. -Como está a boceta Oswaldo Aranha?
Olha, está boa. Mas hoje a gente fez uma bocetada que olha...
-Fresquinha? -Fresquinha.
-Como faz essa bocetada? -Com a boceta ainda viva.
A gente pega, joga na água quente para dar um choque térmico,
aí é mais fácil para depenar. Aí bota na farinha de trigo,
-com orégano, um pouco de alho... -Estou quase babando. Vou querer!
-Vai querer? -Vou querer.
Uma bocetada para dois e um cu.
-Cu. Perfeito. -Tá bom?
-Mais alguma coisa? -Pimenta dedo de moça.
-Faz isso não, senhor. -Melhor não?
-Melhor não. -Às vezes, é mais graúdo.
-Vê só limão. -Obrigada.
-Que bom! -É uma maravilha.
Depois, de sobremesa, a gente pode pedir o sacolé.
Seu Ademir é um deles. Cria cu há mais de 30 anos
numa chácara perto de Guaratinguetá, no Vale do Paraíba.
Meu pai foi o primeiro criador de cu aqui da região.
Chegamos aqui, mas criávamos pouco. Só para consumo próprio.
Hoje estamos exportando cu por esse mundo.