HOMEM MORTO
Olá. Bom dia.
Opa! A temperatura do senhor veio alterada aqui.
Eu tô febril, é?
Não, febril não. O senhor está frio, na verdade.
Frio?
26 graus, baixou pra 25 agora. Gelado, na verdade.
Não tem como. Tô nem sentindo nada.
O senhor sabe que trabalhei muito tempo no IML, né?
O que é que tem?
O que tem é que o senhor tá morto.
–Morto? –Morto.
Como tô morto? Pelo amor de Deus.
Isso aí deve estar com a pilha ruim,
deve estar quebrado, alguma coisa assim.
Não posso estar morto conversando com você agora.
Tá ótimo. O senhor quando era vivo
nunca viu aquele filme "O Sexto Sentido"?
A criança que falava com gente morta.
Tinha uma tia que conversava com espírito também,
puxei a ela e tô aqui conversando com o senhor.
–Então morri? –Positivo.
Tá bom. Perfeito...
Quer ver? O que o senhor veio fazer aqui no shopping?
Eu tô indo almoçar.
Perfeito. Morto come agora?
–O senhor vai comer onde? –No Vivendas do Camarão.
O quê?
O senhor conhece alguém vivo?
Um solão desse em casa e fala: "taí, vou no shopping andando
– porque vi que o senhor veio andando de lá –
e vou comer no Vivendas do Camarão".
Conhece alguém que faz isso? Pensa bem. Sério.
Tô falando. Nem lá no Vivendas eles estão fazendo comida mais.
Nem os Vivendas comem no Vivendas.
Venderam os pratos já pro pessoal do Spoleto,
só sobraram copos pra fazer a brincadeira do espírito.
Tô te falando.
Tu tá de deboche comigo, é isso?
Não tô, de jeito nenhum.
Se o senhor quiser entrar aí
e socializar com outros mortos que estão aí dentro,
o senhor pode. Passaram uns três aqui hoje.
Se encontrar algum adulto, jogando fliperama no Hot Zone,
alguém comprando boné naquele quiosque da Feel,
gente trocando cinto numa Taco da vida,
pode seguir, pode ir atrás
porque é espírito querendo buscar o caminho da luz.
Então, moço, eu morri. Tá? Tô morto.
Positivo.
Então vou pedir que o senhor dê um tapa na minha cara
porque se morri não vai acontecer nada,
se não morri, vai doer, vou te processar,
o senhor vai perder o emprego. O que é isso?
Tô falando que o senhor morreu.
O que aconteceu aqui agora?
–O senhor é um defuntão. –Meu Deus do céu!
Preciso falar com minha família, avisar... Me ajuda!
Me ajuda a fazer contato com minha família.
–Onde é que eles estão? –Estão no shopping.
Estão dentro do shopping.
–Estão aqui dentro? –Estão aqui dentro.
E onde eles estão?
Estão comprando palmilha na Lupo.
Foi acidente, foi?
Não é possível.
A gente ia pegar um avião da Itapemirim essa semana.
O Madero fica onde, hein?
–O quê? –O Madero.
No último subsolo.
Desce, vai descendo, vai descendo sem parar.