×

우리는 LingQ를 개선하기 위해서 쿠키를 사용합니다. 사이트를 방문함으로써 당신은 동의합니다 쿠키 정책.

신년 할인 최대 50% 할인
image

Portuguese With Leo (2021), Uma brasileira que cresceu em Portugal e fala como portuguesa

Uma brasileira que cresceu em Portugal e fala como portuguesa

Olá a todos e bem-vindos de volta ao Portuguese With Leo. Hoje temos um vídeo muito especial

porque tenho aqui a minha amiga Camila. Hello. Que é do.. Brasil. Brasil. No entanto, quando nós falamos um

com o outro, tu falas com esse teu sotaque.. Bem português. Bem português. E é precisamente isso

que vamos ver no vídeo de hoje, a Camila fala na perfeição o português de Portugal e o português

do Brasil, porque nasceste no Brasil mas cresceste em Portugal e hoje vamos ver então do ponto de

vista linguístico, do ponto de vista dos sotaques, das palavras, da forma de pensar até, como é que é

crescer com estas duas versões da língua. Eu tenho uma história muito engraçada porque eu e a Camila

somos colegas do turismo, ambos somos guias turísticos. Quando nós éramos colegas no turismo, nós

tínhamos outro colega que era brasileiro, que é brasileiro, o Eduardo, e eu reparei que a Camila estava a falar

com sotaque brasileiro com o Eduardo, e uma coisa que é muito comum cá em Portugal, uma vez que o

nosso português é muitas vezes difícil de perceber para os brasileiros que nunca tiveram contacto com

esta variedade do português, muitos portugueses adaptam o seu sotaque, quando falam com brasileiros

para que eles os percebam melhor. Mas o Eduardo já vivia cá há anos e não precisava desse tipo de

adaptação. Se eu falar com o meu sotaque, o Eduardo percebe. E então eu disse à Camila, porque eu achava

que a Camila era portuguesa, "Camila, não é preciso falares com sotaque brasileiro porque o Eduardo percebe,

podes falar com o teu sotaque normal". Ao que a Camila diz "não, mas eu sou brasileira", e diz com sotaque

português "mas eu sou brasileira", e eu "o quê? Estás a gozar? Não és brasileira". E pronto, e ao que parece, a Camila é mesmo brasileira.

Sim. Se eu ouço uma pessoa que fala português de Portugal, imediatamente eu falo português de Portugal,

mas se eu ouço que a pessoa é brasileira é-me super desconfortável falar com sotaque português, quer dizer, pode não

fazer sentido para algumas pessoas porque é no fundo a mesma língua, mas é tão diferente, quer dizer, a pessoa

fica diferente. Já me disseram, "não, tu pareces muito mais doce quando falas português do Brasil". E eu tenho o meu

sotaque da minha zona de onde eu nasci, de onde a minha família é, então, isso tudo já tem, tipo, a língua tem muito uma

conotação, não é? Tem muito um quentinho que vem, tem um acolhimento específico, mas eu sempre passei muito

por isso, tipo, "O quê? Tu não és nada brasileira!". Mas sim, sou. Quem te ouve falar não acha que sejas brasileira. Sim.

Então, eu vim para Portugal quando tinha sete anos, porquê? Porque, isto foi em 2001, na altura a minha família,

o Brasil estava numa crise económica, eu sou de Salvador, da Bahia, um estado muito grande, muito lindo e

maravilhoso no nordeste do Brasil. Não é uma zona economicamente muito forte do país, a minha mãe é

programadora, o meu pai trabalhava, tinha uma empresa com a família, as coisas não correram muito bem, ele ficou ali

numa altura assim um bocadinho perdido de trabalho e havia uma grande demanda de pessoas que fossem

programadores para códigos de banco que é o que a minha mãe faz. Ela tinha uma prima que veio para

Portugal, se não me engano, nos anos oitenta, fazer um mestrado. Estava farta do Brasil, foi para o Porto,

casou-se com um português, ficou e disse "pá, venham, tudo funciona, saúde pública, educação pública", e viemos. Venham para

Portugal. Ok, agora, os brasileiros que nos estiverem a ver estão a perguntar-se "hm..ela não soa muito brasileira". Sou sim, eu

falo os dois gente, falo tudo certinho. Pronto, aí está, obrigado. De nada. Precisávamos que provasses que és brasileira. Provei já,

bem baiana também. Bem baiana? Pronto. Depois talvez façamos um vídeo no futuro só a focar-nos no sotaque do Nordeste.

Nossa, e tem vários. Há muitos imigrantes que vêm e ficam em zonas com muitos imigrantes, não foi o nosso caso. Nós ficámos

em Lisboa. Então eu estudava em escolas que, na altura, eram, pelo menos a minha primária era 99%, eu não me lembro de um aluno ser

imigrante na minha escola, então, era só o que nós, era só, pronto, era o que nós tínhamos. Não havia nenhum outro colega

brasileiro, portanto, só ouvíamos português. Havia muito uma diferença na minha família de, em

casa, Brasil, saímos de casa, muito, muito Portugal. Chegou lá uma fase em que era uma mistureba absurda que

os meus pais não percebiam nada e os portugueses falam muito rápido, nós enrolamos muito, não dizemos as últimas sílabas.

Os brasileiros é tudo muito mais mastigado. Então, pá, eu lembro-me de, depois, eu e a minha irmã, a minha irmã tem

mais três anos que eu e nós, tipo às turras e vinha o português de Portugal e, olha, chegou uma fase em que a minha mãe "Olha,

meninas, vamos-nos entender. Comigo, vamos tentar mais devagar, português do Brasil, mais devagar". Pá, e depois

nós íamos todos os Verões, passávamos lá. Então voltávamos, era tipo português do Brasil,

português do Brasil. Depois, vínhamos já era mistura de português de Portugal, então, realmente ficou muito "overwhelming"

e chegou uma fase em que foi, tipo, ok, bora tentar separar as coisas. Uma pergunta, tu com a tua irmã falas como?

Então, engraçado, português de Portugal. Maioritariamente. Porque vocês cresceram num ambiente se calhar.. social português, as

duas, não é? Sim, porque nós, quer dizer, tu passas muito tempo na rua, não é? Quando és miúdo, na rua, na escola, é onde passas a

maioria do teu dia. Se bem que a minha família sempre teve muito aquela cultura latina de, ao final do dia toda a gente janta na mesa e

conversa. Ou seja, todos os dias da minha vida eu tinha, eu falava as duas línguas, os dois idiomas, digamos, na mesma

língua. As duas versões na mesma língua. Sim. Então, depois, eu não me lembro sinceramente em que ponto é que a chavinha virou

e eu era capaz de misturar, de distinguir. Como se fossem duas coisas separadas. Separadas, mas eu lembro-me de ser muito

assim, quando vínhamos do Verão, ou seja, ficávamos de Junho até final de Agosto no Brasil, vínhamos e era logo, parecia que era

tipo, oh pá, outra vez uma fase de adaptação, tipo, e é cansativo também. E agora já não acontece isso?

Não, é assim, acontece de, eu estou com muito mais sotaque da minha cidade quando venho, mas eu não tenho dificuldade

nenhuma em.. tenho assim, por exemplo eu passei quatro meses no Brasil agora, no início do ano, então, troco muito o "me".

Sim, mas isso.. E há coisas que, é tipo, eu cresci aqui, por exemplo, aprendi a conduzir aqui. Eu nunca

digo "travão". É freio. É "freio" e é "freio de mão", "freio de mão". Eh pá, não me perguntes porquê porque

eu aprendi a conduzir aqui. Estranho, ya, ya. Eu não.. não sai. Mesmo assim usas "freio". "Freio de mão". Pá, uma das coisas.. hoje

em dia tem muita piada, mas na altura era super frustrante de.. sítio no Brasil é uma quinta, tipo, uma fazenda, uma quinta, é campo.

Eu tenho uma quinta, eu tenho um sítio. A sério? Ya, e eu lembro-me de, e eu sempre fui muito sociável. De, gostava de

brincar, de fazer desporto e não sei quê e dos miúdos "ah, tu falas esquisito, de onde é que és, de que sítio é que tu vives?". E eu

"ah, eu não moro em sítio", "não, em que sítio é que vives?" e eu "gente, eu não moro em sítio, eu moro, tipo, numa cidade, em

Lisboa". Sabes, e tipo, na altura era tão frustrante porque eu ficava bué tipo "eu não percebo porque é que eles não me

entendem. Porque, tipo, na minha cabeça era, tipo, é isto, quer dizer. Sítio é campo. E eu tipo "não, please!".

Tu aprendeste o sotaque lisboeta de propósito? Houve algum esforço da tua parte ou foi completamente..

absorveste sem querer? Era o que eu ouvia. Eu nunca poderia falar à Porto, não é? Quer dizer, se eu estou em Lisboa e se é isso que eu

ouço.. Eu lembro-me porque a minha tia era casada com um açoriano, e eu lembro-me que eu já tinha dificuldade com o

português de Portugal, o facto de ele ser açoriano e nós passarmos as primeiras, quando chegámos em

casa deles, pá e eu via-me grega, tipo, não percebia nada nada nada, nada nada. E era uma aflição aquela coisa do "Hã? Hã?".

Pois, uma pessoa às tantas não quer, sente-se mal de voltar a perguntar. Sim, sim, sim. Mas então, o sotaque de Lisboa sempre foi

o que eu ouvi, portanto é o que eu falo, é o que me sai. Eu acho que eu passei durante uma fase em que eu queria que não fosse

tão óbvio que eu era diferente, que eu era de outro sítio e eu encarnei muito isso. Tanto que a minha mãe

me ligava e falávamos, e eu propositadamente falava português de Portugal porque tinha pessoas à minha volta

e não queria que ninguém percebesse, e ela dizia às vezes tipo "ai, não.. fala como deve ser, não estou

a perceber". E eu ficava tipo "mãe, agora tem tanta gente aí". Ah pá, já me aconteceu, por exemplo, de eu estar no metro, estarem a falar mal

de brasileiros e eu, tipo, "vou fazer de propósito". E então? "Alô!". E as pessoas tipo. Eu acho que quanto mais velha eu fico, mais à

vontade eu estou com as várias versões de mim. Sim. Eu acho que quando era mais nova havia uma necessidade maior de, eu sou

isto, ou eu sou aquilo e eu estou com brasileiros, eu falo português do Brasil. Agora eu já estou

mais confortável em, pronto, as duas fazem parte do "package", portanto, as duas estão aqui. A imigração é

um processo muito traumático para qualquer.. não é um assunto que é muito falado. Mas eu acho que a

imigração é um processo muito traumático para qualquer família. Digam nos comentários se querem

que num vídeo futuro exploremos mais esta questão da imigração, e se calhar do ponto de vista de uma

imigrante do Brasil, mas que não imigrou como adulta mas sim como criança, portanto viu, cresceu, conseguiste crescer em

Portugal. Se quiserem um vídeo mais focado nessa parte, digam nos comentários e voltamos a ter a Camila aqui.

Mas vamos voltar à parte da língua, que é o foco de hoje. Uma das coisas que eu ficava.. Pá,

das primeiras situações de enlouquecer foi, ir à Staples comprar material escolar. Porque eu vim, eu cheguei em maio

e em setembro comecei o segundo ano, eu saí do primeiro, já fui logo para o segundo. E a minha irmã

saiu da escola para o quinto ano então eu fiquei, tipo, sozinha. Mas lá fomos as duas à Staples que era lá no cu de Judas para

comprar.. Pá, e tínhamos a lista do material escolar, tipo, três horas para encontrar uma cena. A minha mãe "que porra é afia?!,

que porra é afia?!". É lapiseira gente. Não, o afia é para afiar. É, mas lá, na Bahia é lapiseira. Lapiseira é para afiar.

Tipo. Aqui a lapiseira. Eu sei, lapiseira é.. Mas é para eles, isto é para eles, que nos estão a ver. É esferográfica? Não, lapiseira é tipo

a caneta com bico de lápis. Exatamente, isso. Com bico de carvão. Com ponta.. Isso.

Que tu trocas, que são as minas. Eu sei, lá tem outro nome. Pronto, pois. Também acho que é lapiseira, se eu não estou louca.

Learn languages from TV shows, movies, news, articles and more! Try LingQ for FREE