Sotaque e expressões típicas do Porto
Hehehe, Porto campeão...
Olá a todos e bem vindos de volta ao Portuguese With Leo!
Hoje trago-vos um vídeo que já anda a ser pedido nos comentários há muito tempo, que é:
o sotaque do Porto.
Para isso tenho aqui a minha amiga Bárbara, que é do Porto, como se vê pelo cachecol,
e, como todos os meus vídeos, vamos fazer primeiro uma curta introdução sobre a cidade do Porto,
depois vamos falar um pouco sobre as características do sotaque do Porto,
e no final tu tens aí umas palavrinhas, umas palavras típicas do Porto
para eu tentar adivinhar o que é que significam.
Começando por falar sobre a cidade do Porto, o Porto está no Norte de Portugal e é uma
das cidades mais antigas do país.
Estima-se que haja pessoas a viver no Porto desde o ano 300 a.C. e sabemos que em 868 d.C.
toda a zona do Porto foi conquistada por Vímara Peres e o nome que foi dado a
essa região foi Portus Cale, que é uma mistura do Latim, portus, que significa porto,
e cale, celta, que também significa porto, e se este nome vos
soa familiar é porque é a origem do nome Portugal.
Por isso Portugal significa porto porto.
Obviamente as pessoas do Porto adoram este facto porque dá muita importância à sua cidade
e é daí que vem também o nome da cidade Porto.
Outro facto que deixa as pessoas da cidade do Porto, também conhecidos como tripeiros,
muito orgulhosos da sua cidade, é o facto de esta nunca ter sido conquistada por ninguém
desde que faz parte de Portugal, desde que Portugal foi criado em 1123.
E por isso a cidade chama-se… Mui Nobre, Sempre Leal, Invicta Cidade do Porto.
Normalmente as pessoas dizem só Invicta, e invicto que dizer “que não é vencido”.
Ou seja, o Porto nunca foi vencido.
E o clube FCP?
Raramente o é.
Raramente é vencido, exceto quando joga contra o melhor clube de Portugal, o Benfica.
Aqui discordamos.
Eu disse que as pessoas do Porto se chamam tripeiros.
O nome oficial é portuenses, mas tripeiros vem de uma história do século XV em que,
quando Portugal estava a começar a explorar outros continentes, estabelecemos uma base naval no Porto
e as pessoas do Porto deram ao Infante D. Henrique,
que foi quem deu origem à expansão marítima portuguesa, e à sua tripulação,
deram-lhes das melhores carnes e dos melhores alimentos, ficando as pessoas do Porto com as tripas dos animais.
Ah, o que são tripas?
Tripas é a parte de dentro do animal, é, são os intestinos (entrails).
Portanto, comer as tripas de um animal, em vez de se comer a carne, o músculo, come-se os intestinos.
É delicioso!
E portanto esta história dos tripeiros demonstra a hospitalidade das pessoas do Porto. Exatamente.
E essa hospitalidade manteve-se ao longo dos séculos e, em 2000 e… já não sei,
mas recentemente, *Portugal* ganhou 4 vezes o prémio da World Travel Awards de Best European Destination,
Melhor Destino Europeu para férias.
Portanto, depois do Covid?
É um local a visitar. Exatamente.
Uma cidade a visitar e em que as pessoas são muito simpáticas.
Exatamente, é verdade, é verdade.
E portanto agora vamos lá falar sobre o sotaque do Porto.
O que é que tu nos sabes dizer, as características mais típicas do sotaque do Porto?
O sotaque do Porto é muito característico e é diferente dos outros sotaques do Norte de Portugal
apesar de muitas vezes ser confundido com outros sotaques do Norte de Portugal,
como Braga, Guimarães, Viana do Castelo, que têm sotaques distintos daquele sotaque que é do Porto.
Portanto, dizer que um sotaque é do Norte é errado.
No Norte do país as cidades têm diferentes sotaques e o Porto é uma delas.
Hmmm, o sotaque do Porto é mais aberto do que o sotaque de Lisboa, portanto as pessoas
falam com um, um… mais aberto, e portanto, normalmente para pessoas que não são nativas
em português, é mais simples compreender o sotaque do Porto.
É, exatamente.
As pessoas do Porto são quase sempre identificadas fora da sua cidade por serem do Porto,
mesmo depois de muitos anos fora, porque o sotaque mantém-se e há uma certa sonoridade aberta
que não é muito comum nas pessoas… “Abéarta”, sim.
Eu não consigo fazer, mas exatamente… Eu uma vez disse a um amigo nosso que me perguntou,
que me disse que eu tinha muito sotaque à Porto, e eu respondi: “ieue?!”
Quando habitualmente uma pessoa de Lisboa diz “eu”.
Exato, “eu”.
Eu, e nós dizemos “ieu”.
Habitualmente colocamos um -i antes das vogais.
E muitas vezes acabam com um -a, “ieua?!”
Com um -a final, exatamente.
Torna mais divertido.
Exato.
No Porto, toda a gente troca os Bs pelos Vs, existe aliás uma frase que diz, do Almeida Garrett, que disse:
“Na minha terra trocam-se os Bs pelos Vs mas não se troca a liberdade pela escravidão.”
A cidade do Porto sempre teve este pendor muito liberal, muito independente,
e orgulhamo-nos muito disso. Exatamente.
Mas no Porto trocam-se sempre os Vs pelos Bs, bem como em quase todas as regiões do Norte de Portugal,
excetuando por exemplo Aveiro, onde essa troca não existe muito
e a partir daí para baixo já não é tão comum.
Mas se ouvirem alguém a dizer baca, que é vaca, ou a dizer… trocar todos os Vs pelos Bs,
coisa que eu habitualmente troco, é um sinal de que é uma pessoa do Porto.
A melhor forma de ver este sotaque em ação é obviamente com expressões típicas do Porto
e tu preparaste umas palavras e umas expressões aí no teu caderninho.
Ora bem, se eu te disser: “Ah, o João vive nos quintos!”
Onde é que ele vive?
Não sei, no quinto andar?
Não sei.
Se eu disser: “Bem, o João vive nos quintos.”
Ouve, tá sempre na lua.
Não.
Isto quer dizer que o João vive muito longe, vive num sítio que é muito longe,
vive nos quintos do inferno, é a frase completa.
Ou seja, “vive no cu de Judas.”
Exatamente, vive muito longe, vive nos quintos.
Se tu entrares agora aqui na minha sala e eu te disser assim: “Leonardo, és de Braga?”
O que é que eu quero dizer com isto?
Não sei, eu não sou de Braga.
Braga é uma cidade do Norte de Portugal, e quando se pergunta se alguém é de Braga,
quer dizer que deixou a porta aberta, porque em Braga a porta nunca acabou por ser construída, a porta da cidade.
Portanto, quando alguém entra numa sala e se pergunta “és de Braga?”, a pergunta é:
deixaste a porta aberta, portanto vai fechá-la.
A sério?
Aqui mais uma, aprendeste uma coisa hoje.
Se eu disser assim: “Luís, andor violeta!”
Luís?
O Luís está ali.
Luís, andor violeta!
Não sei.
Despacha-te, vai!
Vai, andor violeta, vamos embora, rápido, rápido, vamos embora!
Porquê, porquê? Não sabes?
Honestamente, esta expressão eu não sei...
Andor, andor nós usamos, é para dizer tipo “vai!” só, “andor!”
Toca a andar!
“Andor violeta” não...
Se eu disser assim: “Ó Leonardo, vai-me à loja!”
Eu vou à loja.
Para ir comprar alguma coisa?
Vai-me à loja é quando eu quero dizer: olha, não, não me chateies com isso, não…
Desampara-me a loja!
Ah, tá certo, mas desampara...
Desampara-me a loja quer dizer no fundo “não me chateies, não me incomodes com isso.”
Mas vocês usam “desampara-me a loja”?
Usamos mais “vai-me à loja.”
Mas nós, acho eu… o Luís é de Lisboa, está aqui fora do, fora da câmara.
Desampara-me a loja é tipo “baza!”
Pois, não… Tipo “deixa de me chatear!”
Ya, é assim uma mistura, ok. “vai-me à loja” é um bocadinho mais:
“Ó… vai-me à loja!”
“Não me chateies!”
Se eu disser mesmo no Porto: “Ó… bai-me à loja!”
E como é que em Lisboa se percebe à distância que alguém é do Porto? Tirando o sotaque?
Sabes como?
Andam aqui com estes cachecóis… Sim, assim também.
Mas se eu disser assim: “O Leonardo está à minha beira.”
Ah, exato, exatamente.
Em Lisboa diz-se sempre “o Leonardo está ao pé de mim” e nós no Porto dizemos sempre “está à minha beira.”
E os dois significam “estar ao lado”.
Ao lado, exatamente.
Agora vamos para as palavras?
Bora!
Se eu estiver num restaurante e pedir: “Quero um fino.”
Ah, tá bem.
Um fino é um copo de cerveja, e em Lisboa nós dizemos uma imperial, e eu acho que a verdade é que
fino diz-se em quase todo o país, já reparei, pelo menos de Coimbra para cima é fino.
Portanto, vá, o Sul de Portugal, de meio para baixo é imperial, de metade para cima é fino.
Essa nós conhecemos.
Eu tenho este espírito educador de dizer sempre fino para ensinar às pessoas dos cafés,
dos restaurantes o que é que é um fino.
Exato, se bem que uma imperial é muito mais bonito.
Hmmm.
Bom, o que é que é um… isto vamos continuar aqui na culinária, cozinha, bebidas, se eu disser assim:
“Eu antes do arroz faço sempre um estrugido”.
É um refogado, essa eu sei.
É um refogado, só que aqui entramos num pormenor engraçado das diferenças de palavras
entre o Porto e Lisboa, que é: as pessoas do Porto consideram, pelo menos eu considero,
os meus amigos consideram, a minha família considera que as palavras que os lisboetas
consideram ser sinónimos não são exatamente sinónimos porque para nós,
nós temos mais palavras que querem dizer a mesma coisa.
Então, estrugido é, habitualmente quando se faz um arroz em Portugal corta-se fininho
uma cebola, um alho, um bocadinho de chouriço e põe-se a lourar com o azeite.
E aqui depois coloca-se o arroz e a água.
Enquanto que um refogado é algo que pode ser mais complexo para preparar um prato mais…
mais completo.
Portanto, estrugido e refogado no Porto não querem dizer a mesma coisa.
E aqui entramos na lista de palavras que as pessoas de Lisboa acham que são a mesma coisa,
mas para o Porto têm algumas diferenças. Têm uma diferençazinhas, ok.
E por isto eu considero que as pessoas do Porto têm mais vocabulário.
Tá bem, tá bem, tá bem.
Então a terceira palavra, que pode vir até na sequência do teu vídeo sobre treino, ok?
Se eu for para um ginásio e levar um aloquete?
Ah, esta, esta eu sei. Eu lembro-me, tu já nos ensinaste esta.
É um cadeado.
É um cadeado, mas para o Porto não é bem um cadeado.
Um aloquete é a peça que fecha uma segurança, não é, que fecha, tranca uma porta.
Sim, sim sim.
Que tem uma chave.
Um cadeado pode ser a totalidade, portanto o aloquete com um arame, que feche por exemplo um portão,
isso é um cadeado, ok?
Exato, aqui é que nós discordamos porque para nós toda a cena não é um cadeado,
um cadeado é só o objeto, o aloquete.
Então, esta eu acho que tu também sabes, o que é uma cruzeta?
Esta eu sei, é um cabide.
É um cabide.
Para nós o cabide é o sítio onde à porta de uma casa ou de um café temos um local
onde pendurar casacos, é um cabide.
Ok.
Uma cruzeta é onde se penduram as camisas para se pôr no armário.
Vamos buscar uma cruzeta?
Vai buscar uma cruzeta!
Traz uma bonita, pelo menos.
Uma cruzeta para o meu amigo Leonardo. O nosso assistente Luís Arruda.
Isto é uma cruzeta. Isto é uma cruzeta, e isto em Portugal…
em Lisboa e noutros sítios de Portugal isto é um cabide.
E um cabide para vocês é aquela coisa...
É uma estrutura onde se colocam casacos.
O que é um testo?
Esta eu sei, é uma, é uma tampa de uma panela?
É um tampo de um tacho.