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Portuguese With Leo (2021), Português vs Galego com @olaxonmario ​

Português vs Galego com @olaxonmario ​

Vou-vos contar uma história que aconteceu na minha adolescência há mais de uma década.

Sim, deixei de ser adolescente há mais de dez anos, o tempo passa a correr. É uma história curtinha e

vai ser um pouco mal contada porque eu não me lembro bem dos detalhes, mas basicamente

estava eu com o meu pai a pesquisar já não sei o quê na internet, e por internet refiro-me ao Google.

Quando clicamos numa das primeiras opções que nos aparece e começamos a ler o que estava escrito

e demorámos umas três ou quatro linhas de texto a perceber que aquilo que estávamos a ler

não estava escrito em português mas sim em galego. Olá a todos e bem-vindos de volta

ao Portuguese With Leo. Porque é que eu acabei de vos contar esta história não muito interessante e

sem grande conclusão? Porque hoje vamos explorar as semelhanças e diferenças entre o português e

aquela que é língua mais parecida com o português, o galego. E esta história ilustra na perfeição

o quão parecidas estas duas línguas são. E porque é que estas duas línguas são tão parecidas assim,

perguntam vocês? Pois bem, para percebermos isso vamos ter de andar para trás no tempo e aprender

um pouco sobre a história linguística da Península Ibérica. A Península Ibérica é a península situada no

canto Sudoeste da Europa, separada do resto do continente pelos Pirenéus, e está dividida entre

três países: Portugal, Espanha e Andorra. Quatro se contarmos Gibraltar, que pertence ao Reino Unido.

Esta parte do mundo já foi habitada por muitos povos diferentes desde há milhares de anos,

mas para percebermos a relação entre o galego e o português, interessa-nos a altura em que estiveram cá

os romanos, mais ou menos entre o ano duzentos antes de Cristo e o século cinco depois de Cristo.

Entre outras coisas, os romanos deixaram-nos a sua língua, o latim, nomeadamente o latim vulgar, que é o nome dado

ao conjunto dos dialetos vernáculos falados nas províncias ocidentais do Império Romano.

Mesmo após a expulsão dos romanos da Península Ibérica, o latim continuou a ser a principal língua

aqui falada, e à medida que novos reinos se foram formando e novas fronteiras foram sendo desenhadas,

os diferentes tipos de latim vulgar foram-se desenvolvendo e alterando, formando as diferentes

línguas provenientes do latim faladas na Península Ibérica, conhecidas como línguas ibero-românicas.

Ora, uma destas línguas, que se formou por alturas do século nono, era precisamente o galego-português,

uma língua única falada no Noroeste da Península Ibérica, onde atualmente está a Galiza e o Norte de Portugal.

Esta língua única só se dividiu em duas línguas, português e galego, no século treze,

cerca de um século depois de Portugal se ter tornado um reino independente, quando finalmente ficou

decidido, em Portugal, que o português, língua do reino de Portugal, seria a língua oficial.

Mais tarde, no século quinze, a Galiza foi incorporada pelo reino de Castela, a atual Espanha, e desde então o

galego também tem sofrido influências do castelhano. Isto significa que o português e o galego foram a

mesma língua durante pelo menos quatrocentos anos, e só passaram a ser duas línguas diferentes há cerca

de setecentos anos. Por isso é que são tão parecidas. Mas para percebermos o quão parecidas estas duas

línguas realmente são, precisamos de alguém que fale galego, e por isso convidei o Mario do canal

de YouTube Olaxonmario. O Mario é um galego de gema e um defensor acérrimo da língua galega e

do reintegracionismo galego, e ele vai-nos explicar algumas das características gramaticais, lexicais e

fonéticas do galego, vai-nos explicar um pouco o que é o reintegracionismo galego, e no final ele tem

umas palavras e expressões galegas para eu tentar adivinhar o significado. E claro, a nossa conversa

vai ser sempre nas nossas línguas maternas. Eu vou falar sempre em português e o Mario vai falar

sempre em galego. A nossa conversa depois continua no vídeo no canal dele, portanto, se gostarem deste

vídeo e quiserem aprender mais sobre as diferenças e semelhanças entre o galego e o português, vão ver

o vídeo no canal do Olaxonmario. Bom dia Mario, bem-vindo ao Portuguese With Leo. Olá, bom dia, como é que estás?

Eu estou ótimo e espero que tu também, e antes de mais nada gostava que te apresentasses

aqui para as pessoas que não te conhecem. Bom, pois, eu sou o Mario e tenho um canal

no YouTube que se chama Olaxonmario onde falo geralmente sobre cultura, focado numa ótica

galega porque obviamente eu sou um galego-falante, é sobre cultura e línguas, geralmente.

Olha Mario, nem de propósito, eu não sabia que tu ias usar uma t-shirt vermelha, eu também não escolhi de

propósito, mas, por acaso, uma pergunta que eu te queria fazer é, em francês, em espanhol, em italiano, a

palavra "vermelho" diz-se "rojo", "rosso", "rouge". Em português diz-se "vermelho", que não tem nada a ver. Em galego,

qual é que é? Obviamente, muita gente no seu dia a dia hoje usa a forma espanhola "rojo", por pressão

linguística do espanhol, ainda que "vermello" seja a forma correta em galego. Outro termo que também

é muito usado é o "encarnado". Eu de facto acho que ouvi poucas vezes as minhas avós a

referir-se a esta cor de outra maneira, diziam sempre "encarnado". "Encarnado" também se usa em português, eu

uso mais "vermelho", acho que "vermelho" é o que mais se usa mas, "encarnado" também é uma palavra que

também se usa muito em Portugal. "Encarnado" vem da cor da carne. Eu tinha aqui umas perguntas que te

queria fazer sobre a fonética do galego. Das poucas vezes que ouvi galego na minha vida, sempre me

pareceu português com sotaque espanhol. Ora bem, é que obviamente é isso, é a tendência é que o galego

mimetize mais a fonética espanhola por pressão da língua hegemónica que é o espanhol. Mas, com palavras muito

mais portuguesas do que espanholas. Exato, o léxico é hoje em dia quase idêntico ao do

português de Portugal. Eu tinha assim umas perguntas sobre certos sons. Eu já percebi que vocês, o "c" dizem

como os espanhóis, o "/θ/", não é? No galego normativo, na norma aprovada, na norma que se usa hoje em

dia, ou como oficial, sim, é coincidente com o "c" espanhol, mas eu concretamente, sou da

costa e aqui temos um fenómeno que é o "seseo", então confundimos o fonema "/θ/" com o fonema /s/,

então dizemos sempre /s/, não dizemos "cinco", que seria em galego normativo, mas sim "sinco", nem "zapato",

dizemos "sapato". Também queria saber sobre o "ch" ou dois "l's" (ll). Por exemplo, "chuva" e "chover",

como é que vocês escrevem e dizem? Ora bem, o "ch", claro, em português o "c" confunde-se o som do "ch" mais do

"x". Há aí uma conversão no português e então é quase coincidente, mas em galego não, o "x" é "/ʃ/". E o "ch" é "/tʃ/".

Como por exemplo "chover" é "tchover", não "shover". Ok, depois também o dois "l's" (ll) ou "lh", como é que vocês escrevem

e como é que vocês pronunciam? Escrevemos um "l" duplo (ll), em vez de "lh" ou "lh" como geralmente se diria

em galego porque "hache" é como seria a letra em espanhol, não se diz "agá". Claro. Escrevemos com dois "l's" (ll).

Antigamente sim, conservava-se a pronúncia que também há no catalão de realmente um "l" duplo (ll) que seria "muller", em vez de

"mu/ɟ/er" como dizemos hoje em dia. Ok, e agora dizem "muller"? Sim, "muller", /ɟ/... Com dois "l's"?

Sim, com dois "l's" (ll), dizemos "muller". Eu estou a reparar também que tu, quando há um "j" em português,

vocês usam "x". "Hoxe", não é? "Hoje"? Mas palavras com "g", tu dizes "/ʁ/", "Portu/ʁ/al". Essa também é outra

característica da minha zona, que se chama Gheada. Geralmente, no galego normativo,

e na maioria da área geográfica galega, dir-se-ia "gato", mas nós dizemos "ʁato". Mas,

no galego, o "j" ou lá como se diz, não existe no alfabeto galego, é sempre "x". Claro.

Depois também o "nh" ou "ñ", vocês.. No galego normativo escreve-se "ñ". Realmente o "ñ" também é propriamente

galego, mas na norma do galego reintegrado utiliza-se também o "nh". Já vamos falar daqui

a bocado do galego reintegrado, exatamente. No galego reintegrado, obviamente, usa-se o "nh".

Há uma coisa muito típica, uma diferença muito.. que aparece em muitas palavras do espanhol e

do português, que é, em muitas palavras portuguesas, a versão espanhola é.. quando digo espanhola estou a dizer na

língua castelhana. É igual, mas o "o" fica "ue", o "e" fica "ie" e o "ei" fica "e", por exemplo, "porto" ou "porta", fica

"puerta" ou "puerto". "Merda". "Merda", aí está, fica "mierda", em espanhol. Ou "quero", "eu quero", fica "yo quiero".

E depois com "ei" fica "e", tipo, "primeiro" - "primero", "terceiro" - "tercero", etc. O galego, qual, para qual dos

lados é que vai? O galego, acho que quase que na total maioria, há alguma exceção,

mas na total maioria é igual ao português. É "porto", não é "puerto", é "merda", não é "mierda", "mierda" é

em espanhol. É "ferreiro" não é "ferrero". Pronto, já vimos a fonética, agora o que eu te queria

perguntar era, eu fiz um vídeo sobre o "vós", como é que é a situação do "vós" no galego? É, ora bem, o "vós"

é a forma hegemónica do galego, tal como era antigamente no Norte de Portugal, ainda que hoje

o seu uso está em claro declínio, não? No tratamento formal, em galego, nas situações formais, usa-se o

"vostede", em singular e "vostedes" em plural. Ou seja, no galego é muito claro e muito definido. "Ti",

uma pessoa, "vos", várias pessoas, informal. "Vostede", uma pessoa, "vostedes", várias pessoas, formal. E é sempre assim.

No tratamento formal, em galego, usa-se o "vostede", "vostedes" em plural, ainda que obviamente,

nestes contextos formais, usa-se geralmente o espanhol devido à imposição linguística desta

língua como a língua de poder. Mas no Sul de Espanha, o pronome "ustedes", que seria o "vocês", em

espanhol, também tem um uso muito mais estendido que o "vosotros" que é geralmente o pronome

que se usa no espanhol. Mas deu-se a casualidade que no estado espanhol a capital assentou-se mais

ao Norte e promoveu-se a prevalência do "vosotros". Em Portugal aconteceu o contrário, a capital

assentou-se no Sul e prevaleceu o "vocês" em vez do "vós". Se a capital fosse

no Porto, provavelmente prevaleceria o "vós" sobre o "vocês". Este é um exemplo bem claro de como,

no final, regiões linguísticas respondem ao poder político. O português e o galego, como nós já vimos e

como eu expliquei no início, vem da mesma língua, até cerca do século treze, portanto, não há assim tanto

tempo éramos a mesma língua, mas o português espalhou-se até ao Sul da Península Ibérica,

que é uma zona que teve muita influência árabe, e o galego manteve-se no Noroeste da Península

Ibérica onde os muçulmanos não chegaram. Não chegaram, que eu saiba. A minha pergunta é, vocês

têm influência árabe, ou não, ou se têm, é porque houve muçulmanos na Península Ibérica ou é posterior, do espanhol?

Ora bem, tem-se defendido muito a influência árabe para defender a diferença do galego com o português.

Fala-se de que teria havido um substrato árabe que teria modificado muito a fonologia portuguesa,

mas hoje em dia, isto está demonstrado que não foi assim. As variações fonéticas portuguesas

devem-se a outros fenómenos. Ainda que é certo que a influência árabe no galego foi quase nenhuma.

Além de palavras que vieram através do português ou do espanhol como "almofada", "alcalde", "arroz",

"azucre" ou "aldea", que todos conhecemos hoje em dia. Há um ou outro caso isolado onde em português emprega-se

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