Tecnocracia #55: Como o bolsonarismo usou a tecnologia para prender nossos pais em uma realidade paralela (3)
Se o líder do culto falou, é preciso remodelar até tornar aquilo verdade. Quando o líder do culto é um mitômano como Bolsonaro, é preciso um alongamento iogue para acomodar as mentiras dentro de uma uma realidade. Como quase ninguém é capaz de — metafórica ou literalmente — colocar o calcanhar atrás da orelha, então perde-se o contato com a realidade. Não é uma questão de burrice: muitos são cultos, letrados, mestres e doutores. Mas repetem barbaridades que deixariam qualquer pessoa de bom senso horrorizada. Esse é o verdadeiro Brasil paralelo.
Eu vejo todas as razões descritas no episódio perfiladas numa parede de delegacia e eu me demoro um pouco mais olhando para o fator socialização da história.
Durante a criação desse episódio eu não consegui tirar da cabeça aquelas histórias horrorosas de cultos em que um sujeito megalomaníaco se vê na condição de antever o Apocalipse. É tudo groselha, óbvio, mas o sujeito é capaz de arrastar uma multidão, hipnotizada por suas palavras, para comunidades próprias e, em casos extremos, à própria morte. Um dos casos mais famosos de seita é do reverendo Jim Jones, que acabou com um suicídio coletivo. Em 1978, “918 pessoas, incluindo 304 crianças e adolescentes, haviam morrido em Jonestown, assentamento agrícola erguido no coração da selva guianense por integrantes da seita americana Templo do Povo”. A seita era liderada por Jones, segundo a reportagem da BBC Brasil traçando seus passos no Brasil. Já se gastou muita tinta e papel tentando entender o que leva essas pessoas, muitas em condição de fragilidade financeira e/ou social, a embarcar num culto do tipo. Antropólogos e cientistas sociais gastarão ainda mais para adicionar nesta bibliografia um capítulo sobre os traços de seita vistos no apoio e na organização da base dos autocratas impulsionados por plataformas digitais. A crença cega está lá. Até a morte, como mostra a postura negacionista frente à pandemia de Covid-19, também está lá. Só é um pouco mais lenta e sofrida e atinge muito mais gente.
Por fim, você ouviu o episódio, se emocionou com a história inicial por espelhar um pouco a relação que você tem com pai/mãe/tio/avô e se identificou mais do que gostaria com muitos trechos. O que fazer? Eu não tenho a menor ideia. Eu até tenho dúvida se há algo a ser feito. Se (e esse é um grande se) o foco principal desse fenômeno não é a veracidade dos dados, mas a socialização, o sentimento de pertencimento, então talvez uma saída não esteja necessariamente em enxugar o gelo de corrigir as mentiras espalhadas industrialmente, mas organizar no atacado aulas de hidroginástica, clube do filme e rodas de truco.