Tecnocracia #52: Ao trocar transparência por lucro, Facebook coloca em risco toda a sociedade (3)
A partir do tamanho que atingiu, da relevância que tem nas nossas vidas e da sombra das consequências do Big Oil ignorando dados oficiais, o Facebook não tem mais esse direito. Ninguém está falando de abrir ao público informações financeiras. Estamos falando de dados que nos permitam entender quais são os impactos das decisões do Facebook no debate público, na forma como a sociedade se organiza e quem usa suas ferramentas para fins terroristas, como é o caso da tentativa de golpe em 6 de janeiro, nos Estados Unidos.
A Big Tech se tornou presente demais em nossas vidas para decidir se vai divulgar dados ou apenas relatórios de PR com um spin positivo.
Para fechar, o que se pode fazer? Das nomeações de Tim Wu para o Conselho de Economia Nacional e Lina Khan para a FTC (a Anatel deles) às frases recentes, o governo Biden já deixou claro que uma das suas prioridades econômicas é a regulamentação de monopólios para devolver a competitividade a setores como a tecnologia. A Big Tech sabe disso. O que o Facebook faz é um conjunto de medidas desesperadas para tentar atrasar o inevitável. Entre as medidas, uma óbvia é a exigência de APIs abertas para quem quiser ter acesso a dados brutos anonimizados que permitam analisar as dinâmicas internas da plataforma. De novo: ninguém está falando em ter acesso ao seu nome, telefone, CPF e tamanho de cueca ou calcinha. É preciso que essas plataformas onde a sociedade se comunica forneçam dados que permitam análises e estudos independentes para entendermos o que acontece lá dentro. Se o Facebook vive em seu mundo de ilusão, isso não quer dizer que a sociedade tenha que viver junto, com todas as consequências escabrosas. Há décadas eram baleias. Hoje, somos todos nós, seja pelas mentiras do Big Oil ou, agora também, pelas da Big Tech.