TESTE PRA ROBÔ
Opa, Jorge. Tudo bem?
Pode sentar, por favor.
A gente tem um assunto chato pra conversar hoje.
Positivo.
Diga em poucas palavras como posso ajudar.
O banco está passando por uma reestruturação
no sistema de atendimento aos clientes.
Todos os funcionários humanos vão ser substituídos
por robôs de autoatendimento.
Você quis dizer "consultar saldo"?
-Autoatendimento, Jorge. -Ok. Pagar boletos.
Aguarde um instante.
Meu Deus...
Jorge.
Jorge.
Jorge, já chega, Jorge. A vaga é do robô e acabou.
Porra, Luiz, me dá uma chance aí, cara.
A gente já conversou sobre isso. Sou praticamente um robô, cara.
Pô, qual outro funcionário dentro dessa empresa aqui
consegue segurar um cliente na linha durante cinco horas?
Seguidas, sem pausa, sem ir ao banheiro, sem nada.
Hein? Quantas orelhas inocentes eu fiz sangrar por essa empresa?
Quantas vezes eu não fiz um comerciante
sair do trabalho dele, no meio do expediente,
pegar duas conduções pra vir na agência
só porque eu não consegui dar uma informação por telefone?
Pô, Jorge, se for pra ter um robô escroto,
eu contrato um robô escroto. Pode, sei lá,
mandar teu currículo pra Stone.
Diz que lá é só humano, que te atende em até 5 segundos.
Mas eu não nasci pra ser prestativo, Luizão.
A minha vocação é atrasar a vida dos outros.
Você mesmo disse que eu tinha potencial
pra ser totem de senha, pô. Palavras suas.
Só que os sistemas ficaram muito modernos.
Tu já viu os robôs de hoje em dia?
Cada robozão chinês, parrudo,
que fala português com voz de ator de "Malhação".
Certificado em Massachusetts.
Tu fez supletivo em Campo Grande.
Tá bom, eu estou indo embora. Beleza, Luiz?
-Poxa, Jorge. -Você vai se arrepender muito ainda.
Tá, Luiz? Porque eu tenho uma ideia
que vai deixar teus robozinhos tudo no chinelo.
É um serviço que consiste em ligar pra pessoas aleatórias
e, quando elas atendem, eu desligo.
Na cara delas, sem mais nem menos.
-Todo arrepiado. -Puta merda,
essa ideia é boa, hein, Jorge.
-Quero fazer parte disso aí, Jorge. -Pode ficar tranquilo, Luiz.
Fica tranquilo.
Você ainda vai receber uma ligação minha.
Ô Jorge, calma aí, cara.
-Tu, tu, tu... -Ô Jorge.
Ô Jorge, a parceria.
Alô, aqui é a Judite da Stone.
Alô, aqui é a Judite da Stone.
Jorge, não desliga, Jorge. Eu sei que é teu número
que está ligando pra cá o dia inteiro, Jorge.
É isso mesmo que você quer pra tua vida?
Ô dona Judite...
fiquei até sem graça agora. Me perdoa.
É que vocês atendem muito rápido aí, entendeu?
Aí me ajuda a bater a meta da empresa.
Mas eu prometo pra senhora que não vai mais se repetir.
-Me perdoa. -Tá bom, Jorge, tá bom.
No que eu posso te ajudar?
Otária!
-Alô, aqui é a Judi... -Oi, Judite, tudo bem?
Lembra de mim? Sou eu mesmo. Pa!
Pensou que era o Fábio Porchat.