SEQUESTRARTE
Papai, papai, me ajuda. Estou com medo.
-O que é isso? Isabel? -Quem é que está falando?
-É o Paulo. -Escuta aqui, Paulo.
Nós sequestramos a Isabel, a sua filha.
Queremos 50 mil pra devolver ela, porra.
Que filha? Eu não tenho filha, irmão.
Eu tenho... Isabel é minha sobrinha.
Mas ela claramente não é esse cara de peruca loira aí.
Meu amigo, se puder abraçar a história
pra gente seguir em frente, vai me ajudar muito.
-Vamos lá. -Que história?
Caralho. Cortou, galera. Segura aí cinco minutinhos.
Deixa eu me apresentar. Eu sou o Cleverson.
Eu moro aqui na penitenciária de Bangu
e trabalho com sequestro por telefone.
Infelizmente, na pandemia, as coisas apertaram.
O nosso setor não ficou imune.
Então eu pensei: "É hora de inovar."
E junto com os meus comparsas, nós criamos o...
-Sequestrarte. -Sequestrarte.
Que a nossa trupe vai levando pra você
a mesma experiência do sequestro por telefone,
só que uma apresentação mais visual, mais apelativa pra gerar
maior tensão entre vítima e espectador.
Tá, mas agora eu já sei que é golpe, né, meu querido.
Eu não vou ficar aqui dando corda pra bandido.
Eu estou desligando. Com licença.
Não fala assim. O Sequestrarte é muito mais que um golpe.
É um projeto superbacana. Inclusive, já estamos
pré-aprovados na Lei Rouanet, que começou
lá na penitenciária de Tremembé com um comparsa meu.
Me passou a visão, eu trouxe pra cá
e está sendo um grande sucesso aqui.
E por favor, valorize e respeita porque a gente está
há mais de três meses no banho de sol
ensaiando pra entregar um material bonito pra vocês.
Então vocês querem que eu colabore pra que vocês tentem me roubar?
É isso? Vocês estão de sacanagem, né?
Não, senhor. Eu quero que o senhor colabore
com a arte e com a inclusão.
Que antigamente, o camarada chegava aqui na prisão,
ele era enrabado.
Hoje a gente traz ele pra arte, traz ele pra esse mundo.
Inclusive, chegou um moleque recente.
Moleque na cela 4B, o Marcelinho. Poeta brabo.
Fala aí, Marcelinho.
Passa, passa, passa.
Passa a carteira, o relógio e o cordão.
Passa antes que eu te dê um tiro.
Na cabeça, no fígado e um no coração.
Puta que pariu.
Poeta.
Tá. Tá bom, mas isso aí pra mim não vai dar. Tá, gente?
Eu vou embora. Boa sorte pra vocês.
-Sejam felizes. -Calma aí, seu Paulo.
O senhor tem alguma coisa melhor pra fazer agora?
Do que ser roubado pela internet? Com toda certeza.
Porra, Paulo. Você está há meses em casa, cara.
Nada de interessante está acontecendo na tua vida.
Nada. Você não pode nem sair na rua pra ver
como é que é a violência urbana do Rio de Janeiro.
Qual foi a última vez que alguém botou uma arma na tua cabeça?
Para pra pensar.
Você vai estar comprando uma história aqui comigo.
Vai poder falar pros seus amigos, vai produzir
um conteúdo bacana pros seus 30 seguidores.
Tua última chance, irmão. Gerar um engajamento bacana.
Isabel, meu Deus.
Opa, vai voltar aqui, galera. Concentra.
Papai, papai, estou com muito medo.
A crueldade nos olhos do meu sequestrador
é tão palpável quanto viver numa cidade injusta.
Take 1.
Papai, socorro. Eles me "sesse"...
Eles me sequestra... Espera aí. Desculpa.
Papai, socorro. Eles me "sessestraram".
Porra, desculpa.
Alô, pai?
Eles me pegaram contra a minha vontade.
Aqui. Sequestrei teu filho. Acabei de cortar a língua dele.
Língua, não. Orelha.
Estou com teu filho aqui.
Acabei de cortar a orelha dele, hein.
Pessoal está assustado. Isso aqui é frango.
Mágica do cinema.