INTERVENÇÃO DE NATAL
Mas a gente se vê lá naquela oficina lá,
-que foi bom. Opa, ela aí. -Ai, gente.
Tanto tempo que a família não se juntava.
Ver todo mundo aqui reunido, fico até emocionada.
Que bom, prima. Todo mundo fez questão de vir, né?
O espírito do Natal, né.
Eu chamaria de intervenção. Senta aqui um pouquinho.
Senta. Tira isso aqui da cabeça, que está ridículo.
Me dá isso aqui. Está quente isso. Não pedi nada disso quente.
Ninguém aguenta mais o seu Natal.
Estamos no limite.
O que é isso, Dani? O que você está falando?
Todo mundo aqui adora o meu Natal, né, gente?
A gente não gosta. A gente mora na Baixada Fluminense.
Um calor de 40° na sombra.
A gente não aguenta mais ter que usar essas blusas de lã.
Olha lá, Fabrício desmaiou de novo. Ele tem pressão baixa.
A gente vai perder ele, que ele está no looping fazendo isso.
Mas eu fico o ano todo tricotando isso aqui.
O que a gente tem a ver com isso? Aí, chegou a cerveja, gente.
Vamos beber a cerveja pra hidratar. Pela saúde, tá.
Mas aproveita, distribui as regatas também.
-Tem regata? -Tem regata. Prioriza ali. Fabrício.
Gente, essas não são as camisetas que a gente fez
quando a tia Odete se perdeu na Floresta da Tijuca?
Tive que improvisar. Isso aí é o mais próximo
de religião que a gente tinha e eu fiz.
Essa lareira elétrica, tem como desligar esse troço estranho?
-A lareira, não. -Esse pinheiro aqui é de verdade?
-É de verdade. -Isso aí dá bicho, hein.
Aí, olha, passou no fumacê antidengue?
Não, mas é que tem toda uma tradição de escolher o pinheiro e cortar.
Por que você não planta uma árvore no meio da sala?
Um cajueiro, de preferência. Que aí você faz caipirinha.
Leva essas renas também, que elas estão me encarando.
-Acho estranho. -Cuidado.
Traz aqueles dois cachorros caramelo,
-que é uma coisa mais Brasil. -Gente,
mas vocês não gostam de nada do Natal?
A gente gosta, a gente ama o Natal.
Eu trouxe um presente pra você.
Um kit de maquiagem pra você usar agora.
Ai, obrigada. Quem Disse Berenice?
Mas não está muito cedo pros presentes?
-Está cedo ainda. -Não,
eu acho que está tarde, Joana. Pra você mudar
essa tua cara de inverno em Michigan.
Passa um batom vermelho, uma sombra com glitter.
Vem pra festa, tá?
-Brilha, brilha, estrelinha. -Mas a gente pode deixar
pelo menos um "Jingle Bells" de fundo
pra tocar, dar um clima?
Tarde demais, hein. Vem.
-O que é isso? -Aí, família,
tem um Papai Noel preso lá no buraco do ar-condicionado.
É que não tinha chaminé, né, gente?
Essa picanha sai ou não sai, hein?
Vamos lá, Odete. Aqui.
Me arruma aqui o batom.
-Me dá o batom. -O quê, gente?
Eu quero fazer uma brincadeira.
-Fazer o quê? -Dar uma animada aqui.
-Aqui. -Natal brasileiro
é bem melhor mesmo, você tinha razão.
Vou até pedir pro meu boy me dar outro desse aqui
no Dia dos Namorados, que está vindo.
Está vindo o quê, louca? É junho.
14 de fevereiro, menina. Valentine's Day.