BUNDA GONÇALVES
-Oi, tudo bem? -E aí, tudo bem?
Que bom te ver, finalmente, Carlos. Muito prazer, Bruna.
Você está me vendo? Que eu não estou te vendo.
Ué, como você não está me vendo? Estou te vendo normal.
Será que é a minha câmera? Espera aí.
Vê agora. Vê se rolou.
Eu acho que não é problema da câmera, não.
Que eu só estou vendo...
-a sua bunda. -Não entendi.
Vira de frente e senta pra gente conversar
que eu não estou te vendo direito.
Eu já estou de frente pra câmera, Carlos.
Algum problema com a minha aparência?
Não, não, é só que eu não estou vendo seu rosto.
Carlos, não tem rosto. Eu sou isso que você está vendo.
Eu deixei bem claro nas fotos.
Não tem fake aqui, não, tá.
E eu ainda sou verificada no Tinder. Aqui, olha.
Você curtiu umas 30 fotos minhas no Instagram, pô.
Não, calma. Eu sei, desculpa. Eu vi bastante foto sua,
da sua bunda, realmente. Linda, inclusive.
Mas é que eu achei
que você era mais do que só a bunda.
É sério isso? É só uma bunda, Carlos?
A gente está há três semanas se falando pelo Tinder
sobre as nossas viagens pelo mundo,
os nossos sonhos, pra você dizer isso?
Olha, é muita cara de pau tua vindo de um cara
que eu tive que explicar sobre política econômica.
Bruna, deixa eu te falar. Não foi isso que eu quis dizer.
Eu adoro conversar com você. Você é genial.
Eu quis dizer, como é que...
Fisicamente, né. Eu achei que você teria...
Como é que fala? Um tronco, uma cabeça, uma cara.
Não, Carlos, eu não tenho.
Minha mãe já tinha pouco.
Eu nasci sem mais nada além da bunda mesmo.
Mas como é que é possível? Digo até fisicamente, assim.
Ué, Carlos, processo evolutivo mesmo, sabe?
Acho que foram gerações e gerações de mulheres silenciadas,
que encontraram na exposição da bunda
uma maneira de chamar atenção e serem ouvidas
e acabaram se adaptando por sobrevivência da espécie.
Mas você vive uma vida...
normal? Você trabalha?
Mas é claro, Carlos. Eu trabalho desde novinha.
Hoje eu tenho uma startup que ajuda refugiados
a se colocarem no mercado de trabalho.
Além daquele canal de filosofia que eu te mostrei.
-Você lembra? -Esse eu lembro. Adorei.
Uma postagem tua falando da análise
do triângulo de Foucault, brilhante.
-Realmente. -Obrigada.
Cara, que loucura.
Então tá. Então vamos nessa.
-Vamos nessa. -Que loucura.
Mas me tira uma dúvida, deixa eu te fazer uma pergunta.
Claro.
Como é que faz...
pra te beijar?
Então, Carlos.
Você já foi pra Grécia?
Oi, meu amor.
-Ué, cadê a bandinha? -Amor é o caralho, meu irmão.
Aqui quem está falando é o Mateus, namorado da Bruna,
e eu não estou gostando nem um pouco
desse seu papinho com ela, está me entendendo?
Que isso? Que namorada, o quê?
Ela falou pra mim que ela estava solteira.
Eu que sou namorado dela, cara.
É. No caso, é ex-namorado.
Mas a gente vai voltar.
E você não pode fazer nada pra impedir.
É que a Bruna não consegue perceber os meus atributos.
-Está entendendo? -Cara...
isso está errado em muitos níveis.