BOTA-FORA DA DONA HELENA
-Oi, mãe. -Ai, Daniel, meu filho. Daniel.
Graças a Deus, você atendeu.
-Está tudo bem contigo, meu filho? -Está tudo bem.
A senhora é que está ofegante. O que é isso?
Está arrumando a casa aí?
É. Está uma zona aqui. Mas a mamãe está querendo falar contigo
porque eu tive um sonho contigo, Daniel.
Um sonho horroroso, um sonho desses sonhos precatórios, sabe?
-Premonitório? -Premonitório.
Exatamente, meu filho. Você estava mal.
Você estava todo babado, você chorava
e você olhava nos meus olhos e eu entendia tudo.
Você não dizia nada, mas eu entendia
que você estava precisando de uma air fryer.
Como assim, mãe? Do nada isso. Que história é essa?
É, meu filho, você já é um homem.
Você já mora sozinho, sabe?
Ter uma air fryer é quase
que um rito de passagem na vida de uma pessoa.
Porque isso é prático. Você faz batata frita,
você faz nugget, você faz salsichão.
Se bobear, faz até teu imposto de renda.
-Você tem panela de pressão? -Não, não.
Meu filho, você tem que crescer.
A gente só sabe que virou adulto se tem uma air fryer,
uma panela de pressão e dor no ciático.
Mas não se preocupa, não, que a mamãe vai fazer
um combo pra você, está bom?
Eu vou botar air fryer, vou botar panela de pressão.
Essa penteadeira que era da tua avó, lembra?
Da vó Adalgisa.
Eu tenho aqui esse quadro, meu filho.
Isso vai ficar lindo naquela tua sala do ping-pong, hein.
Eu estou precisando abrir um espaço aqui.
Quer dizer, eu estou precisando abrir
um espaço no seu coração pra que a mamãe mande
muita energia de prosperidade pra você...
Mãe, espera aí, espera aí. Você está querendo é me empurrar
esse monte de tralha tua aqui pra casa, né?
Que tralha, garoto? Olha como você fala das coisas da mamãe.
Olha o tom que você fala...
Espera aí. Menino.
Não, não pega esse armário ainda, pelo amor de Deus.
Eu ainda não esvaziei.
Olha minhas calcinhas, meus bustiês caindo aí.
-Puta que pariu. -Com quem você está falando, mãe?
Você está fazendo bazar na tua casa, é isso?
Não. São uns meninos que vieram aqui buscar os móveis.
Pelo amor de Deus, mãe, você está vendendo as suas coisas?
O que está acontecendo, meu Deus?
Está bom, vou te contar, Daniel, é o seguinte.
É porque eu estou no grupo das tricoteiras de Santa Bárbara,
aqui do Catete, e elas disseram
que vai ter o Amazon Prime Day, entendeu?
E aí os fretes são tudo grátis.
Um monte de promoção, um monte de coisa boa
-e eu vou aproveitar aqui. -Mãe,
você toma cuidado com essas historinhas,
que isso, às vezes, é golpe.
Esse negócio de "o patrão enlouqueceu",
promoção relâmpago, eles usam isso
pra vender as coisas pela metade do dobro.
Que nada, Daniel, você acha que eu sou trouxa?
Eu sou cascuda com coisa de promoção, meu filho.
-Eu conheço... -Mãe, mãe, calma.
Você está muito agitada, mãe. Vai ter um troço aí.
Eu estou agitada, Daniel. Eu estou agitada,
estou alvoroçada, porque eu preciso correr
porque essa promoção já é agora, dias 21 e 22 de junho, Daniel.
Eu tenho que correr. Eu vou te dar umas roupas também.
-Vê se isso cabe em você. -O que é isso? Uma cueca?
Isso é uma cueca usada, mãe?
Essa aqui é do namorado da tua irmã,
que ele esqueceu aqui em casa.
Está com uma freada aqui, mas resolve com água sanitária aí.
-Você tem abajur rosa? -Não, mãe, claro que não.
Agora tem. Mamãe vai mandar.
Vou mandar uma mesinha de centro também linda pra você.
Mas você vai pagar esse frete, pelo menos, né?
Que pagar frete, Daniel? Se eu estou te dizendo
justamente isso, que o frete é grátis.
Estou falando o frete do caminhão
pra trazer essas coisas aqui pra casa.
-Você vai pagar, né? -Puta que pariu. É mesmo.
Tem o frete do caminhão que eu vou pagar.
Espera aí. Eu vou pagar frete pra não pagar frete, Daniel.
Espera aí, Daniel.
Menino, garoto do caminhão, espera aí.
Não saiu ainda, não. Não sai, não.
Esse é o caminhão que vai pra Nilcete?
Não sai. Eu levo de ônibus.
-Espera aí. -Mãe, mãe.
Deixa que eu resolvo isso, mãe. Não vai se estressar.
-Espera aí. Mãe. -Para o caminhão.
-Meu Deus. -Para esse caminhão.