AMOR DELIVERY
Ô Naldo, você desculpa de não abrir a porta rápido?
É que está cheio de gente aqui em casa,
todo mundo falando ao mesmo tempo, eu não consegui escutar a campainha.
Sem problema. Aqui ó, chegou o pedido do senhor.
A galera vai matar a fome, hein?
Show de bola...
Agora deixa eu ir lá, que eu estou cheio de trabalho.
-Hoje? -É.
Ah, poxa, que pena!
Porque de repente, era uma boa oportunidade
de você conhecer mais o pessoal aqui de casa, todo mundo,
meus amigos...
Está todo mundo ali jogando um baralho, um buraquinho.
Ô seu Fernando, eu sei que...
Sei que não está tendo festa nenhuma.
Você mora sozinho e não recebe ninguém em casa.
Ô Naldo, está doido? Você acha que eu ia pedir
seis caixinhas de sushi só pra mim?
Ô Renata... Vasconcellos!
Bruno Miguel!
Nádila!
Calmon, dá um oi aqui pro seu Naldo!
Fala Naldo!
Seu Fernando, não precisa disso.
Seu Fernando, quem sou eu pra criticar o hábito de alguém?
Mas é que eu venho aqui de 3 a 4 vezes no dia
entregar comida pro senhor. Eu estou ficando preocupado.
Eu estou achando esquisito isso,
você julgando assim o hábito alimentar...
Você vai me julgar? Não estou entendendo.
É porque o senhor sempre coloca na observação do pedido
"beijos e até amanhã", seu Fernando.
Eu já entreguei mercado pro senhor duas vezes nessa semana,
e logo depois o senhor pediu cinco caixas de coxinha.
Então... eu não estou entendendo...
Qual o problema disso? Não estou entendendo.
O problema é que toda vez que eu vou embora,
o senhor liga pra central do Uber Eats
pra tentar saber se eu cheguei bem em casa.
Me deu R$ 50 de caixinha
e botou meu nome na herança do senhor!
Gente, eu só estou valorizando o trabalho de vocês.
O senhor fez um caminho de pétalas
do elevador até a porta da casa do senhor.
-O senhor acha isso normal? -Eu gosto da sua entrega, Naldo.
E eu sei que você gosta de me entregar comida também.
Eu gosto, sabe?
E eu gosto de acompanhar no mapa do Uber Eats
o caminho que você faz até chegar aqui.
Eu vejo que você fica lá dando voltas antes de subir e voltas.
Deve ficar nervoso. Que que eu penso?
-E se eu acalmar o Naldo? -Eu fico procurando lugar
pra prender minha bicicleta, seu Fernando.
E da outra vez, o senhor pediu comida no Uber Eats
e mais dois aplicativos ao mesmo tempo,
só pra ver quem conquistava seu coração primeiro.
Você venceu, Naldinho.
-Você venceu. -É, mas quando eu cheguei,
o senhor mandou esperar eles chegarem,
porque queria ver a gente disputando seu afeto.
Qual é a verdade que você quer, Naldo?
O que você quer escutar?
Que eu sou sozinho?
Que você é o mais próximo que eu tenho de uma relação
nos últimos dois anos? Eu me apeguei!
Você me fisgou pelo estômago! Estou apegado! Chega!
Poxa, seu Fernando, assim o senhor me deixa até chateado.
É porque está difícil pra todo mundo, né?
Infelizmente, ainda não dá pra pedir amor pelo Uber Eats.
Olha, o senhor me perdoa por ter te julgado...
-Aqui ó. -Eu estou vendo.
Eu só estava preocupado.
Você não está chateado comigo não, né?
Estou nada, seu Fernando. Eu fico até...
Lisonjeado.
Só um instantinho. Só um instantinho.
Alô, quem é?
Você chega agora?
Tá... Não adianta, que eu já estou com outro.
Pode ir embora, e não me procure mais!
Quem era? Era o seu ex?
Não, era o iF...
Ué, Naldo, você aqui? Eu não fiz pedido hoje.
Voltei aqui no prédio pra outra entrega.
Como assim uma outra entrega?
É que o vizinho do senhor pediu um hambúrguer,
Estou vindo aqui entregar.
Então quer dizer que qualquer um que pede você vem correndo entregar?
Ué, só estou fazendo as entregas que chegam pra mim no Uber Eats.
Entendi. Mas então acho que vou pedir do outro aplicativo.
Ih, mas aquele outro demora, hein?
Pois é, mas a vingança é um prato que se come frio.
Seu Fernando, era brincadeira, seu Fernando.
Seu Fernando? Seu Fernando.
Seu Fernando?