LIMITE DE AMIGOS
Ô, Luiz! Porra, cara, qual é? O que está acontecendo?
Ô, brother, o que você está fazendo aqui, cara?
Porra, eu te mando mensagem, tu não fala comigo,
a gente se encontra, você está esquisito.
-O que é isso, cara? -Eu estou muito pegado, cara.
Desculpa, aí. Eu estou um amigo meio relapso, né.
Fala a verdade.
Depois que a gente começou a ficar mais íntimo, você sumiu.
Eu te fiz alguma coisa?
Pra ser bem sincero com você, cara,
eu não posso ter mais amigo, não.
-Não? -Eu cheguei no meu limite...
-de amizade. -Limite? Existe limite pra isso?
Precisa ter.
A pessoa precisa estabelecer um limite.
Eu percebi isso ontem.
Sabe, quando eu estava num casamento em Volta Redonda.
Aí eu percebi que eu não posso me envolver com mais ninguém
que me obrigue a ir pra casamento longe.
-Mas eu não vou casar. -Todo mundo diz isso,
mas só esse mês, eu tive três casamentos longe.
E a gente, a gente estava entrando num lugar de amizade
que se você casasse em Ibitipoca, eu teria que ir atrás.
Se casasse no Paraná, eu ia ter que ir lá pro Paraná.
E eu não estou podendo mais ter nenhum amigo
que me obrigue a pegar quatro horas de ônibus
pra ver velho de direita dançando Tim Maia.
Com a gravata na cabeça, "Filho, eu sou muito louco!".
Não é louco, irmão, tu é do financeiro, porra!
-Tu não sabe ser louco, não. -Luiz, eu não vou casar,
-quanto mais casar longe. -Todo mundo diz isso, cara.
Só que tem uma hora que todo mundo casa,
e hoje em dia todo mundo casa longe
porque está na moda casar longe. Nunca vi isso!
Não tem lugar perto pra casar?
-Está namorando agora? -Não.
Aposto que vai começar a namorar uma mina de Ribeirão.
Acontece muito. A menina vai falar assim:
"Ai, por que a gente não casa?" "Vamos casar onde?"
"Vamos casar em Ribeirão, que é mais barato. Vamos?" "Ai, vamos."
Você vai falar: "Vamos, é bom que só vai
os meus amigos de verdade."
Aí se eu for amigo de verdade...
Tenho que pegar 12 horas de ônibus pra Ribeirão Preto.
Ou pior.
"Ah, mas dá pra ir de avião. Dá pra pegar um avião.
Pega duas conexões da Passaredo."
Um teco-teco que está botando a minha vida em risco.
Ou seja, se a gente ficar amigo, é a minha vida que está em risco.
É fácil a gente resolver isso. Se eu casar, você não precisa ir.
Tá liberado, tá bom? Se for perto, se for longe,
ninguém tem que ir em casamento de ninguém.
E separação? Isso que é foda, irmão. Não é só casamento, não.
Separou, fodeu.
Tem que ficar um mês contigo indo em bar merda, entendeu?
Porque separado gosta de bar ruim.
É enterro de parente? Tem que ir.
Morte de cachorro? Tem que estar lá do teu lado.
Promoção, tem que estar. Demissão também.
Aniversário nem se fala! Que aniversário em karaokê...
Todo mundo hoje em dia faz aniversário em karaokê.
Aí, quando vê, amigo que é amigo tem que estar lá,
ouvindo um monte de gente branca cantando Raça Negra.
Porra, Luiz! Tu falou que não foi no meu aniversário
porque estava cuidando do teu cachorro, cara.
Nem tenho cachorro, cara.
-Ai, não acredito... -Mas olha que beleza!
Olha que bonito isso!
A gente tinha uma amizade na qual eu poderia inventar um cachorro.
O problema de amigos de verdade, amigos íntimos,
é que não dá nem pra se inventar um cachorro.
Porque você sabe que não tem.
Então o problema todo da amizade é esse.
Eu não posso mais ter relações com pessoas
que sabem que eu não tenho cachorro.
E que não me obriguem, também, a ficar lendo suas coisas,
seus projetos, porque também tem isso, né, cara?
Amizade tem isso.
Tu escreve um livro de poemas, eu tenho que ler.
Faz um crowdfunding pra um curta-metragem,
eu tenho que botar dinheiro,
porque amigo de verdade põe dinheiro em crowdfunding.
Podcast que você fizer, eu tenho que ouvir.
Duas horas você falando abobrinha, porque amigo ouve podcast, filho.
Eu não tenho nada disso, cara.
-Tu não tem um podcast? -Não!
Todo mundo tem a ideia de um podcast.
Tá bom, Luiz. É isso, então. Vai ficar assim, né?
-Vai ser assim. -A gente não se fala mais...
Não, também não é assim. A gente se fala.
A gente se fala na base do "Qual é? Beleza?".
Aí tu fala: "Vamos marcar um negócio?"
Aí eu falo: "Vamos marcar!"
"Vamos marcar?" "Vamos marcar"
"Tem que marcar."
-Beleza? -Beleza não.
-Eita. -Beleza não, Luiz.
Amizade é a gente passar perrengue junto um com o outro, entendeu?
Eu estou disposto a passar qualquer perrengue por você.
Eu não vou querer destruir essa amizade
que a gente está construindo,
essa coisa rara que a gente está fazendo aqui,
por causa de preguiça, entendeu?
"Tu és responsável..." Me cativastes.
Porra, irmão. Falou Pequeno Príncipe, me fodeu.
-Gosto pra caralho desse livro. -Caralho!
Vamos viver essa porra, então. Tá bonito, tá nascendo,
tá nascendo gostoso, vamos viver essa porra inteira.
E é até bom porque escrevi um livro, né, não sei se te contei,
que eu vou publicar, agora, segunda-feira, vai lançar o livro,
numa livraria em Curicica.
É um mangá. Uma graphic novel, na verdade.
Porra, cara. Até ia, mas eu vou ter que ficar cuidando do meu cachorro.
-Tem cachorro? -Valeu, cara!
-Ah, valeu! -Mas a gente marca isso aí.
-Vamos marcar? -Vamos marcar.
-Beleza? -Não vamos deixar de marcar, não.
-Show? -Beleza.
-Valeu, irmão! Vou lá, já. Show! -Beleza.
-Vou lá, hein. -Beleza, beleza.
Sempre?
Opa!
-E aí, tudo bem? -Tudo bem.
Eita. Isso é um flerte?
Acho que é, né.
Então acho que eu vou ter que interromper.
Não posso ficar aqui porque não estou podendo mais ter flerte.
Cada flerte é uma perda de tempo,
de expectativa que vai acontecer alguma coisa.
E aí é o dia inteiro refrescando o Instagram,
aí não foca no trabalho.
Aí, de repente, quando eu vejo, eu vou estar indo pra lugares longe
que eu nem gosto da música, só porque eu acho
que talvez você vá estar lá.
Eu estou sem tempo. Desculpa.