A GALINHA CHOROU
Qual é, irmão.
Está vendendo ovo, né?
-Como assim? -30 ovos, 10 reais, né?
Tu nunca veio aqui comprar comigo.
-O que está acontecendo? -Eu que nunca tinha visto isso aí.
Eu moro aí, mas nunca vi o senhor.
-Mas tu nunca me viu aqui? -Nunca vi, não.
Estou aqui todo dia com essa gravação aqui
berrando "30 ovos, 10 reais" e tu nunca me ouviu?
Tá aqui, é? Direto?
Acho que eu estou trabalhando nessa hora.
Aquele Palio preto que fica ali de manhã é de quem?
É meu.
Acho que eu estou dormindo.
Eu tenho o sono muito pesado.
Eu nem escuto você gritando essas coisas.
Quem é que fica gritando "enfia o ovo no cu"?
Que isso, irmão. Porra.
Fica mandando tomar ovo no cu é o caralho, pô.
É que a voz parece muito com a sua.
Eu tenho uma voz comum pra caralho.
Todo mundo confunde minha voz.
Sabia que ficam tacando ovo em mim? Olha que ironia.
Tacando ovo no vendedor de ovo.
-Sacanagem, né? -E desperdiçando ovo, né?
Chega uma hora que o ovo acaba
aí vem comprar ovo quando acaba lá
-de tanto que tacou. -Não é só pra isso, não, também.
Às vezes, a pessoa...
ela até tacou uns ovos, né?
Mas vamos supor que ela tenha uma filha em casa
que só come ovo.
-Aqui na Kombi tem ovo pra caralho. -Então.
Vamos esquecer isso tudo. Toma 10 reais.
10?
Não bota aqui dentro, não.
Não bota aqui dentro, não, querido.
Bota aqui dentro, que não é 10 reais mais, não.
A crise bateu. Vou aproveitar.
Não é mais 10 reais, não. Aumentou.
20 reais?
Tu acha que a galinha chorou por causa de 20 reais?
Ela estava chorando por 10, né?
É, mas aí é que está. Está chorando doído agora.
Pô, eu não posso voltar pra casa sem ovo, não, irmão.
-É, que pena. -Aqui, ó.
Vamos lá.
Tu não quer um relógio, não?
Está me vendo de relógio?
Então, exatamente. Está precisando de um relógio.
É que eu não uso relógio.
Se eu quisesse relógio, porra,
eu comprava um, meu parceiro.
Pô, não tem como eu voltar pra casa sem ovo, não.
É mesmo?
Que triste. Tá tisti?
Ficou tistinho?
Não tem jeito, não?
Qual o esquema aí pra eu levar 30 ovos?
Eu quero que tu fique o dia inteiro aqui no meu lugar vendendo ovo,
-Esgoelando, sentado ali no banco. -Só isso?
É pra tu ver o que eu sinto, o que eu passo.
Ou então fica aqui em pé, encostadinho.
Porque mora uma galera gente boa aqui pra caralho.
Daqui a pouco do nada tu sente escorrendo
o melado no teu rosto. Normal, porra.
Entendeu?
Essa casquinha aqui, casquinha fininha.
Só tem uma gema e uma clara dentro,
mas quando vem do sétimo andar, é outra questão.
Entendeu? Quer, porra? Ficar aqui?
Toma esse relógio aqui e uma chupadinha.
Pô, irmão.
Vai lá, vai lá. Leva teu ovo lá.
-Ja é. -Valeu, hein.
Porra, obrigado mesmo, brother.
-Gostoso! -Filho da puta!
Porra, eu nem tenho filho, seu babaca.
Deixa eu fechar a bermuda!
Covarde!
Deixa eu fechar a bermuda aqui.
-Se fudeu! -Filha da puta!
Se fudeu, babaca!
Porra, vai gritar na casa do caralho, seu merda.
Covarde, hein?
Covarde, hein?
Te dei maior moral, hein.