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BBC Brasil 2018 (Áudio/Vídeo+CC), Por que a Argentina está entre as 5 economias mais frágeis do mundo

Por que a Argentina está entre as 5 economias mais frágeis do mundo

[Oct 1, 2018]

Deixando de lado o caos da Venezuela, a Argentina tem hoje a economia mais frágil da América Latina.

Segundo a agência Standard & Poors, ela está entre os 5 países com a economia mais frágil do mundo. E é o segundo país da América Latina, depois da Venezuela, que gera menos confiança entre os investidores estrangeiros.

Mas o que significa frágil?

A fragilidade está baseada em variáveis muito técnicas, mas ela tem como termômetro justamente o nível de confiança dos investidores estrangeiros, que são parte importante na engrenagem das economias emergentes da América Latina.

Um dos sintomas da fragilidade da Argentina é a desvalorização do Peso, que perdeu mais de 50% de seu valor em relação ao Dólar só em 2018.

Num contexto internacional mais restritivo, as moedas de todas as economias emergentes sofreram desvalorização, é verdade - aconteceu no Brasil, onde o Dólar passou dos R$4,10 e, má notícia, vai continuar caro pelo menos até depois das eleições; no México, na Colômbia, no Chile...

Mas nenhuma perdeu tanto valor quanto a Argentina.

Por isso, o presidente Maurício Macri resolveu pedir mais uma vez socorro ao FMI, de quem a Argentina não tem lá boas lembranças.

Macri chegou a dizer: "Somos um dos países que mais dependem do financiamento externo."

Mas a vida dos hermanos nem sempre foi de crise.

No começo do século 20, a Argentina era um dos países mais ricos do mundo.

Seus habitantes eram ainda mais ricos que os alemães e os franceses.

Mas, nas últimas quatro décadas, a economia tem oscilado entre modelos muito diferentes: um que protege a indústria e outro entregue aos mercados internacionais.

O resultado da falta de um fio condutor mais claro aparece na forma de fortes desvalorizações, hiperinflação, fuga de capitais e aumento da pobreza.

A que se deve isso?

1] Primeiro, ao contrário de países que têm políticas econômicas que sobrevivem às trocas de governo, a Argentina muda radicalmente seu modelo de crescimento a cada dez ou 15 anos.

Um fecha o país, outro abre indiscriminadamente.

Um impõe controles, outro desregulamenta tudo.

Um proíbe as importações, o outro as fomenta.

Com isso, os principais problemas da economia - a desvalorização cambial e a inflação - tiveram bons e maus momentos, mas nunca uma solução pelo menos de médio prazo.

2] Segundo: os déficits.

De um lado, a Argentina tem um déficit histórico em conta corrente.

Grosso modo, isso quer dizer que ela gasta mais em bens e serviços no exterior do que recebe.

Não entendeu?

É o seguinte: isso quer dizer, por exemplo, que a Argentina importa mais do que exporta e que os turistas argentinos gastam mais no exterior do que os turistas de fora gastam dentro do país.

Foi assim em 30 dos últimos 40 anos.

Esse déficit gera o que muitos chamam de restrição externa, ou seja, a falta de dólares para financiar a economia.

Essa é uma diferença importante em relação ao Brasil: mesmo com a crise, a gente tem conseguido manter um déficit em conta corrente pequeno, equilibrado, e tem uma reserva de dólares confortável de 380 bilhões.

É por isso que o nosso problema na economia não chega a ser tão grave quanto ao do nosso vizinho: lá o desequilíbrio é a regra, e ele aparece na cotação da moeda, que sofre com períodos de forte oscilação.

Como resultado, o Dólar acaba sendo a única referência de estabilidade e os preços de imóveis, carros e eletrodomésticos acabam sendo cotados na moeda americana.

É por isso que os argentinos guardam dólares e, se um é pouco, tem ainda outro déficit que dá dor de cabeça à Argentina.

Nesse caso é o do governo, que gasta mais do que arrecada.

É o dinheiro que vai embora com o salário do funcionalismo, com assistência social ou para manter as engrenagens do Estado em funcionamento, que custa mais do que o que entra por meio de impostos.

Soou familiar?

Pois é, o Brasil sofre do mesmo mal e vem registrando déficits consecutivos desde de 2014, cada vez piores, e a gente está falando aí do que os economistas chamam de déficit primário.

Se a gente coloca na conta os juros que são pagos com a dívida, o buraco é ainda mais fundo.

O desequilíbrio das contas públicas e o medo que ele se transforme em descontrole da dívida pública é considerado hoje o ponto mais frágil da nossa economia, mas o caso da Argentina é ainda pior:

em 107 dos últimos 117 anos, o país ficou no vermelho, uma das trajetórias mais antigas de déficit fiscal.

Impressionante, né?

Existem três formas de tapar esse buraco.

1) Imprimindo papel-moeda, com o risco de pressionar a inflação.

A economia fica inundada de dinheiro e os preços, então, tendem a subir.

2) Aumentando a dívida, com risco de se chegar a uma situação limite, em que o país não possa pagar e tenha que decretar moratória, como a própria Argentina fez em 2001.

E com o risco do país nas alturas, quem vai querer emprestar para a Argentina? Nos últimos meses, diante do aprofundamento da crise, o banco central teve que elevar as taxas de juros, que chegaram aí a 60% já - situação muito diferente da nossa.

Nossa taxa Selic está aí por volta de 6,5%.

Em países da Europa ou nos EUA, ela varia entre 1 ou 2%.

3) Elevando impostos.

Um problema é que a carga tributária na Argentina já é uma das mais altas da região, empatada ali com quem?

Com o Brasil, que vive o mesmo impasse.

Aqui, o próximo presidente vai ter que resolver essa equação com direito ainda a teto de gastos, que limita a expansão das despesas à inflação do ano anterior.

O fato é que nos últimos 40 anos a Argentina não conseguiu resolver os problemas da sua economia e segue sendo frágil como uma casca de ovo.

O Brasil vive uma situação melhor, mas não dá para respirar com alívio: nossos problemas estruturais, a falta de competitividade da indústria, a burocracia, a baixa produtividade continuam sem solução.

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