SOBREVIVENTE
Nós estamos aqui com Guilherme Soares,
um dos sobreviventes do acidente do voo 727, vindo de Lisboa.
Guilherme, como é que você está agora?
Estou bem, estou tranquilo. Estou feliz.
-Mas o susto foi grande, né? -Ah, foi, claro, né?
Num avião, aquela barulheira, ninguém está esperando.
Ainda mais à noitinha. Pegou todo mundo de surpresa.
-Mas você ficou muito assustado? -Médio.
Tá. O trauma ainda é muito grande.
Guilherme, você achou que ia morrer?
Não. Vou ser sincero. Não achei, não.
Como é que é isso?
-Porque eu sou branco, né? -Quê?
Jovem branco não morre. Não é uma coisa que aconteça.
Ainda mais cis hétero.
A chance de eu morrer é muito pequena.
Então na hora que deu a balançada eu até falei:
"Ih, chegou a hora de botar a mascarinha, fechar o olho,
e deixar a bagunça acontecer.
Quando pousar lá embaixo, eu vejo o estrago."
Para eu morrer tem que ser, assim, sei lá,
correndo na minha esteira, aí dá um negócio.
Ou, sei lá, gordura... Doença de rico que come muito. Que dá.
Sei.
Mas tem vários brancos que morreram também no acidente, não é?
Sim, mas é mulher. Mulher e viado. Aí morre mesmo.
Aí esse é mais... normal.
Você viu a sua vida passar pela sua frente?
Vi porque eu estava na executiva e na minha televisãozinha
estava passando uma comedinha romântica,
aí eu me identifico muito. É nossa vida ali, né?
Tá bom. E agora, Guilherme?
Como você vai seguir sua vida normalmente?
Eu não vou mudar muito a rotina, não.
Acho que vou continuar veladamente sendo racista, machista, homofóbico,
e tudo vai continuar como era antes.
Voltamos, então, ao estúdio...
Oh, meu Deus! Ih, bala perdida mata mesmo.
Ô Solange! Traz um paninho aqui. Pode tirar a janta.
E liga pro dr. Bronstein.
-Ai, socorro! -Que isso, meu Deus?
O quê que tá acontecendo aqui?
Puta merda! Que isso?
-Eu sou pobre. -Ah, tá!
Porra, quer me matar do coração? Eu pensando...
Cuidado! Sujou todo o carro.