DESCONSTRUÍDO
E aí, Júlia?
Poxa, só pra dizer que você está com um corpo...
super empoderado com esse vestidinho mais curto aí.
Porra, Pedro! O que a gente falou sobre assédio na empresa?
Não posso falar que teu corpo está empoderado, Júlia?
Não. Continua inconveniente. Evita falar do meu corpo.
-Então parabéns pelas tuas regras. -Minhas regras?
Já que não pode falar do corpo... "Tuas regras"...
-O que é isso, Pedro? -Desculpa, amiga.
Só estou tentando arranjar um jeito de elogiar
que não ofenda as manas.
Tá, mas cantada não rola. Nunca vi funcionar.
Não é cantada, não. Só observação mesmo.
Estou só dizendo que teu corpo... está na moral pra caramba!
Desde que começou a malhar, ele está... bem mais...
de acordo com o padrão vigente de beleza,
que é opressor, certamente, mas que, ao mesmo tempo, eu gosto.
Não que isso seja relevante, porque o que importa é o valor
que a própria mana se dá pro próprio corpo, entendeu?
Quer dizer, eu até gosto. Não vou mentir.
Mas o que importa a opinião de um macho, não é?
O que importa é estar bem consigo mesma.
Pedro, não adianta mudar o vocabulário.
Continua sendo assédio.
Mas não é só vocabulário, não. É realmente um convite.
Gostaria de te chamar pra jantar. Um lugar vegano, não é?
Sem crueldade animal. Só bicho de vida digna e o caralho, entendeu?
Depois a gente racha a conta. Eu e você. Meio a meio.
Duas partes iguais.
Tipo o que tinha que ser nosso salário.
-Que bom! -Pena que não é, cara.
Isso me deixa bolado, sabia?
Que a gente ganhe tão diferente assim
só por sermos gêneros diferentes, bicho...
Não vai colar comigo, tá, Pedro?
Depois a gente podia ir para algum lugar
explorar as potencialidades do nosso corpo, hein.
Das formas mais diversas e respeitosas sempre, não é?
Eu não descanso enquanto eu não encontrar o teu clítoris.
-Clitóris. -Ele mesmo.
-Eu tenho namorado. -Namorada, você quer dizer.
Não, é homem mesmo.
Não acredito que você está dando moral pra macho.
-Estou dando. Não só moral. -Entendi.
Nossa, me avisa quando você perceber que o amor romântico é uma cilada
que eles inventaram só pra prender a gente.
-"A gente"? -Desculpa. A gentx.
Qual é, gata! Teu nome é Simone?
Porque deve ser Beauvoir com você.
"Beauvoir". Está ligada? Simone de Beauvoir.
Qual é teu gênero de filme preferido?
O meu é igualdade. Igualdade de gênero.
Você é radfem?
Porque eu estou sentindo um negócio por você meio radical.
E feminista. Radfem.