Cinco Minutos - José de Alencar - Capítulo 9
Capítulo 9 de Cinco Minutos de José de Alencar.
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Capítulo 9 de Cinco Minutos de José de Alencar.
Eram seis horas da tarde. O sol declinava rapidamente e a noite, descendo do céu, envolvia a terra nas sombras desmaiadas que acompanham o ocaso. Soprava uma forte viração de sudoeste, que desde o momento da partida retardava a nossa viagem; lutávamos contra o mar e o vento. O velho pescador, morto de fadiga e de sono, estava exausto de forças; a sua pá, que a princípio fazia saltar sobre as ondas como um peixe o frágil barquinho, apenas feria agora a flor da água. Eu, recostado na popa, e com os olhos fitos na linha azulada do horizonte, esperando a cada momento ver desenhar‑se o perfil do meu belo Rio de Janeiro, começava seriamente a inquietar‑me na minha extravagância e loucura. À proporção que declinava o dia e que as sombras cobriam o céu, esse vago inexprimível da noite no meio das ondas, a tristeza e melancolia que infunde o sentimento da fraqueza do homem em face dessa solidão imensa de água e de céu, se apoderavam do meu espírito. Pensava então que teria sido mais prudente esperar o dia seguinte e fazer uma viagem breve e rápida, do que sujeitar‑se a mil contratempos e mil embaraços, que no fim de contas nada adiantavam. Com efeito já tinha anoitecido; e, ainda que conseguíssemos chegar à cidade por volta de nove ou dez horas, só no dia seguinte poderia ver Carlota e falar‑lhe. De que havia servido, pois, todo o meu arrebatamento, toda a minha impaciência? Tinha morto um animal, tinha incomodado um pobre velho, tinha atirado às mãos cheias dinheiro, que poderia melhor empregar socorrendo algum infortúnio e cobrindo esta obra de caridade com o nome e a lembrança dela. Concebia uma triste idéia de mim; no meu modo de ver então as coisas, parecia‑me que eu tinha feito do amor, que é uma sublime paixão, apenas uma estúpida mania; e dizia interiormente que o homem que não domina os seus sentimentos, é um escravo, que não tem o menor merecimento quando pratica um ato de dedicação. Tinha‑me tornado filósofo, minha prima, e decerto compreenderá a razão. No meio da baía, metido em uma canoa, à mercê do vento e do mar, não podendo dar largas à minha impaciência de chegar, não havia senão um modo de sair desta situação, e este era arrepender‑me do que tinha feito. Se eu pudesse fazer alguma nova loucura, creio piamente que adiaria o arrependimento para mais tarde, porém era impossível. Tive um momento a idéia de atirar‑me à água e procurar vencer a nado a distância que me separava dela; mas era noite, não tinha a luz de Hero para guiar‑me, e me perderia nesse novo Helesponto. Foi decerto uma inspiração do céu ou o meu anjo da guarda que me veio advertir que naquela ocasião eu nem sabia mesmo de que lado ficava a cidade. Resignei‑me, pois, e arrependi‑me sinceramente. Dividi com o meu companheiro algumas provisões que tínhamos trazido; e fizemos uma verdadeira colação de contrabandistas ou piratas. Caí na asneira de obrigá‑lo a beber uma garrafa de vinho do Porto, bebendo eu outra para acompanhá‑lo e fazer‑lhe as honras da hospitalidade. Julgava que deste modo ele restabeleceria as forças e chegaríamos mais depressa. Tinha‑me esquecido de que a sabedoria das nações, ou a ciência dos provérbios, consagra o princípio de que devagar se vai ao longe. Acabada a nossa magra colação, o pescador começou a remar com uma força e um vigor que me reanimaram a esperança. Assim, docemente embalado pela idéia de vê‑la e pelo marulho das ondas, com os olhos fitos na estrela da tarde, que se ia sumindo no horizonte e me sorria como para consolar‑me, senti a pouco e pouco fecharem‑se‑me as pálpebras, e dormi. Quando acordei, minha prima, o sol derramava seus raios de ouro sobre o manto azulado das ondas: era dia claro. Não sei onde estávamos; via ao longe algumas ilhas; o pescador dormia na proa, e ressonava como um boto. A canoa tinha vogado à mercê da corrente; e o remo, que caíra naturalmente das mãos do velho, no momento em que ele cedera à força invencível do sono, tinha desaparecido. Estávamos no meio da baía, sem poder dar um passo, sem poder mover‑nos. Aposto, minha prima, que a senhora acaba de dar uma risada, pensando na cômica posição em que me achava; mas seria uma injustiça zombar de uma dor profunda, de uma angústia cruel como a que sofri então. Os instantes, as horas, corriam de decepção em decepção; alguns barcos que passaram perto, apesar dos nossos gritos, seguiram o seu caminho, não podendo supor que com o tempo calmo e sereno que fazia, houvesse sombra de perigo para uma canoa que boiava tão levemente sobre as ondas. O velho, que tinha acordado, nem se desculpava; mas a sua aflição era tão grande que quase me comoveu; o pobre homem arrancava os cabelos e mordia os beiços de raiva. As horas correram assim nessa atonia do desespero. Sentidos em face um do outro, talvez culpando‑nos mutuamente do que sucedia, não proferíamos uma palavra, não fazíamos um gesto. Por fim veio a noite. Não sei como não fiquei louco, lembrando‑me de que estávamos a 13, e que o paquete devia partir no dia seguinte. Não era unicamente a idéia de uma ausência que me afligia; era também a lembrança do mal que ia causar‑lhe, a ela, que, ignorando o que se passava, me julgaria egoísta, suporia que a havia abandonado e que ficara em Petrópolis, divertindo‑me. Aterrava‑me com as conseqüências que poderia ter esse fato sobre a sua saúde tão frágil, sobre a sua vida, e me condenava já como assassino. Lancei um olhar alucinado sobre o pescador e tive ímpetos de abraçá‑lo e atirar‑me com ele ao mar. Oh! como sentia então o nada do homem e a fraqueza da nossa raça, tão orgulhosa de sua superioridade e do seu poder! De que me serviam a inteligência, a vontade e essa força invencível do amor, que me impelia e me dava coragem para arrostar vinte vezes a morte? Algumas braças d'água e uma pequena distância me retinham e me encadeavam naquele lugar como a um poste; a falta de um remo, isto é, de três palmos de madeira, criava para mim o impossível; um círculo de ferro me cingia, e para quebrar essa prisão, contra a qual toda a minha razão era impotente, bastava‑me que fosse um ente irracional. A gaivota, que frisava as ondas com a ponta de suas asas brancas; o peixe, que fazia cintilar um momento seu dorso de escamas à luz das estrelas; o inseto, que vivia no seio das águas e plantas marinhas, eram reis dessa solidão, na qual o homem não podia sequer dar um passo. Assim, blasfemando contra Deus e sua obra, sem saber o que fazia nem o que pensava, entreguei‑me à Providência; embrulhei‑me no meu capote, deitei‑me e fechei os olhos, para não ver a noite adiantar‑se, as estrelas empalidecerem e o dia raiar. Tudo estava sereno e tranqüilo; as águas nem se moviam; apenas sobre a face lisa do mar passava uma aragem tênue, que se diria hálito das ondas adormecidas. De repente, pareceu‑me sentir que a canoa deixara de boiar à discrição e singrava lentamente; julgando que fosse ilusão minha, não me importei, até que um movimento contínuo e regular me convenceu. Afastei a aba do capote e olhei, receando ainda iludir‑me; não vi o pescador; mas a alguns passos da proa percebi os rolos de espuma que formavam um corpo, agitando‑se nas ondas. Aproximei‑me e distingui o velho pescador, que nadava, puxando a canoa por meio de uma corda que amarrara à cintura, para deixar‑lhe os movimentos livres. Admirei essa dedicação do pobre velho, que procurava remediar a sua falta por um sacrifício que eu supunha inútil: não era possível que um homem nadasse assim por muito tempo. Com efeito, passados alguns instantes, vi‑o parar e saltar ligeiramente na canoa como temendo acordar‑me; a sua respiração fazia uma espécie de burburinho no seu peito largo e forte. Bebeu um trago de vinho e com o mesmo cuidado deixou‑se cair n'água e continuou a puxar a canoa. Era alta noite quando nesta marcha chegamos a uma espécie de praia, que teria quando muito duas braças. O velho saltou e desapareceu. Fitando a vista nas trevas, vi uma claridade, que não pude distinguir se era fogo, se luz, senão quando uma porta, abrindo‑se, deixou‑me ver o interior de uma cabana. O velho voltou com um outro homem, sentaram‑se sobre uma pedra e começaram a falar em voz baixa. Senti uma grande inquietação; na verdade, minha prima, só me faltava, para completar a minha aventura, uma história de ladrões. A minha suspeita, porém, era injusta; os dois pescadores estavam à espera de dois remos que lhes trouxe uma mulher, e imediatamente embarcaram e começaram a remar com uma força espantosa. A canoa resvalou sobre as ondas, ágil e veloz como um desses peixes de que a pouco invejava a rapidez. Ergui‑me para agradecer a Deus, ao céu, às estrelas, às águas, a toda a natureza enfim, o raio de esperança que me enviavam. Uma faixa escarlate já se desenhava no horizonte; o oriente foi‑se esclarecendo de gradação em gradação, até que deixou ver o disco luminoso do sol. A cidade começou a erguer‑se do seio das ondas, linda e graciosa, como uma donzela que, recostada sobre um monte de relva, banhasse os pés na corrente límpida de um rio. A cada movimento de impaciência que eu fazia, os dois pescadores dobravam‑se sobre os remos e a canoa voava. Assim nos aproximamos da cidade, passamos entre os navios, e nos dirigimos à Glória, onde pretendia desembarcar, para ficar mais próximo de sua casa. Em um segundo tinha tomado a minha resolução; chegar, vê‑la, dizer‑lhe que a seguia, e embarcar‑me nesse mesmo paquete em que ela ia partir. Não sabia que horas eram; mas há pouco havia amanhecido; tinha tempo para tudo, tanto mais que eu só precisava de uma hora. Um crédito entre Londres e a minha mala de viagem eram todos os meus preparativos; podia acompanhá‑la ao fim do mundo. Já via tudo cor‑de‑rosa, sorria à minha ventura e gozava da alegre surpresa que ia causar‑lhe, a ela que já não me esperava. A surpresa, porém, foi minha. Quando passava diante de Villegaignon, descobri de repente o paquete inglês : as pás se moviam indolentemente e imprimiam ao navio essa marcha vagarosa do vapor, que parece experimentar as suas forças, para precipitar‑se a toda a carreira. Carlota estava sentada sob a tolda, com a cabeça encostada ao ombro de sua mãe e com os olhos engolfados ao horizonte, que ocultava o lugar onde tínhamos passado a primeira e última hora de felicidade. Quando me viu, fez um movimento como se quisesse lançar‑se para mim; mas conteve‑se, sorriu‑se para sua mãe, e, cruzando as mãos no peito, ergueu os olhos ao céu, como para agradecer a Deus, ou para dirigir‑lhe uma prece. Trocamos um longo olhar, um desses olhares que levam toda a nossa alma e a trazem ainda palpitante das emoções que sentiu noutro coração; uma dessas correntes elétricas que ligam duas vidas em um só fio. O vapor soltou um gemido surdo; as rodas fenderam as águas; e o monstro marinho, rugindo corno uma cratera, vomitando fumo e devorando o espaço com os seus flancos negros, lançou‑se. Por muito tempo ainda vi o seu lenço branco agitar‑se ao longe, como as asas brancas do meu amor, que fugia e voava ao céu. O paquete sumiu‑se no horizonte.
Fim do capítulo.