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Era uma vez, numa cidade muito movimentada, cheia de prédios altos e ruas sempre cheias, vivia uma rapariga chamada Aurora. Tinha o cabelo comprido, claro como o sol, e uns olhos que brilhavam quando ficava contente.
Numa tarde de sol, ela estava no parque a treinar tiro com arco. Pôs uma flecha, respirou fundo e murmurou:
— Calma… olha só para o centro.
Largou a flecha. “Tac!” Quase no meio.
— Eh pá! Que pontaria! — disse uma voz atrás dela.
A Aurora virou-se logo, com o coração a bater mais rápido.
— Quem está aí?
Um rapaz da idade dela apareceu a sorrir, com as mãos no ar.
— Desculpa! Eu sou o Sam. Estava a passar e parei para ver. Não queria assustar-te.
— Assustaste um bocadinho — disse ela, mas depois sorriu. — Eu sou a Aurora.
— Prazer. Tu treinas aqui sempre?
— Quase todos os dias. Gosto quando está mais calmo.
O Sam olhou para o alvo.
— Como é que consegues acertar assim? Eu já tentei numa feira e… foi um desastre.
— Numa feira é mais difícil — respondeu ela. — Mas mesmo assim, é treino. E respirar.
— Respirar eu sei — disse ele, a brincar. — Mas acertar não.
A Aurora riu.
— Queres ver mais de perto? Fica atrás da linha.
— Combinado. Sou um espectador educado.
Ela pegou noutra flecha.
— Vou tentar acertar mesmo no centro.
— Estou a olhar! — disse o Sam, quase sem piscar.
A flecha saiu direita e ficou muito perto do centro.
— UAU! — O Sam bateu palmas. — Isso foi incrível!
A Aurora ficou um pouco corada.
— Obrigada. Treino desde pequena. O meu tio ensinou-me.
— E eu posso tentar? Só uma vez?
A Aurora olhou para ele, séria por um segundo.
— Só se seguires as regras. Nunca apontas a ninguém. Só atiras quando eu digo. E se te sentires estranho, paras.
— Ok, chefe. Prometo.
Ela entregou-lhe o arco.
— Pés afastados. Ombros relaxados. Isso. Agora puxa devagar.
O Sam puxou e fez uma careta.
— Isto é pesado! Nos filmes parece fácil.
— Nos filmes também ninguém sua — disse a Aurora.
Ele riu, puxou outra vez e largou cedo demais. A flecha caiu na relva.
— Ups…
— Não faz mal — disse ela. — Pelo menos foi seguro.
— Obrigado por não rires muito.
— Eu ri só um bocadinho — disse a Aurora, a sorrir.
— Crueldade em forma de sorriso.
Ele tentou mais uma vez. A flecha foi para o alvo, mas ficou na parte de fora.
— Acertei! — gritou ele, todo contente.
— Boa! — disse a Aurora. — Já está melhor.
O Sam devolveu o arco e respirou como se tivesse feito um desporto enorme.
— Tenho uma ideia: competição.
— Competição? — A Aurora levantou uma sobrancelha.
— Cinco flechas cada um. Quem fizer mais pontos ganha.
— E o que é que o vencedor ganha?
O Sam pensou um segundo.
— Um gelado. O perdedor paga.
— Tu és corajoso — disse ela. — Vais perder.
— Eu tenho esperança. E gosto de gelado. Vale o risco.
— Está bem. Mas sem desculpas.
— Sem desculpas. Palavra de Sam.
Começaram. A Aurora acertava sempre perto do centro. O Sam alternava entre “quase” e “nem perto”.
— Aurora, tu és uma máquina — disse ele.
— Não. Sou só teimosa.
No quarto tiro, o Sam acertou bem mais perto do centro.
— VISTE?! — Ele saltou de alegria.
— Vi! Boa! — disse a Aurora, genuinamente feliz.
O sol começou a descer e o céu ficou cor-de-rosa e laranja. O parque ficou mais silencioso.
O Sam baixou a voz.
— Sabes… eu não estava num dia muito bom. Mas isto ajudou.
— Porquê? — perguntou a Aurora.
— Coisas da escola. E eu estava meio sem energia. Depois vi-te aqui, super focada.
A Aurora encolheu os ombros.
— Quando eu treino, o resto fica mais longe.
— Eu sinto isso quando desenho — disse ele.
— Tu desenhas?
— Sim. Olha. — Ele mostrou um desenho no telemóvel: um alvo e uma rapariga com arco.
A Aurora riu.
— Sou eu?
— Mais ou menos. Ainda não acertei na cor do teu cabelo.
— Então tens de praticar — disse ela.
— E tu tens de me ensinar mais.
A pontuação final era clara.
— Ok — suspirou o Sam. — Eu pago o gelado.
— Pagas, sim — disse a Aurora. — Mas jogaste bem.
— Voltamos aqui depois de amanhã?
— Sim. Mesma hora.
— Feito — disse o Sam. — Até depois de amanhã, Aurora.
— Até depois de amanhã, Sam.
E, sem ela perceber ainda, aquele encontro simples ia ser o começo de uma aventura maior.