Ver com outros olhos
Agora chega. Essa mala tem que chegar hoje! Passamos a manhã inteirinha no telefone falando com a companhia aérea, e a informação era sempre a mesma: Não sabemos com certeza onde a mala está, ainda não tivemos confirmação, blá, blá, blá.
Nem preciso dizer que minha companheira de viagem continuava deprimida. Chegou até a dizer que, chegando em Roma ela compraria uma passagem e voltaria para o Brasil (e, subentende-se que, me largaria sozinha). Obviamente eu fiquei chateada com esse comentário.
Mais tarde, ela me pediu mil desculpas por estar estragando o meu passeio, e eu simplesmente respondi, que eu estava muito triste de vê-la sem ânimo. Nós estávamos num local paradisíaco, talvez essa fosse uma chance única de viajar para um lugar tão especial, e ela não estava aproveitando nada, por causa de uma mala. Ela não disse nada, mas eu percebi que o meu comentário tocou no fundo da alma.
Eu só disse o que disse, porque estou há muitos anos na Dinamarca, onde os valores são de aproveitar a vida e ver o lado bom das coisas, e eu achava que seria beneficial se Luciane visse a situação dela com outros olhos. Numa situação dessas, os dinamarqueses dizem que a mala é um troço inanimado, sem importância. O importante são as pessoas, é a saúde. Eles simplesmente aproveitariam a viagem ao máximo, mesmo sem bagagem. Eu gosto desse modo de ver as coisas, eu diria que essa é a cultura do SER.
A cultura do brasileiro é diferente. É a cultura do TER, ou melhor, do comprar e mostrar. Porque não adianta nada ter as coisas, se você não puder mostrar para os outros o que você tem. É o que eu chamo de viver de aparências, e isso aguça muito a cobiça dos outros, e também faz com que você dê valor demasiado aos bens materiais. E foi justamente esse o problema. O valor dos bens materiais. Antes da viagem, minha amiga gastou horrores comprando roupas novas e caras, que ela pretendia usar nos passeios. E quando a mala não chegou, foi decepção, que é um sentimento forte.
Mas veja o lado bom, pelo menos a mala não tinha sumido, ela estava simplesmente atrasada.
agora chega = (expressão) basta; é suficiente. Agora chega, não aguento mais!
subentender = não exprimir claramente; entender por interpretação; supor
troço = qualquer coisa, qualquer objeto
aguçar = no texto tem sentido figurado, significa "aumentar a cobiça" cobiça = desejo pelo poder, dinheiro, bens materiais, glórias