T3E3
A MENSAGEM DE UMA MENSAGEM
Falta muito?
Não, é logo ali. Estamos pertinho.
Então, você teve aquele episódio e foi parar no banheiro do aeroporto.
Depois, o que aconteceu?
Bom, claro que eu pensei que eu estava tendo um surto psicótico.
Mas, eu segui a vida.
Marquei uma consulta com um colega e resolvi ignorar tudo.
Até que alguém falou do teu livro na internet.
Paciente 63.
Eu li e gelei.
O que a gente costuma ver é que as causas sejam anteriores aos efeitos.
E lá estava eu.
Ou outra eu, psiquiatra, passando pelo mesmo processo.
Cortando cabelo, tatuando asas, correndo para o aeroporto.
Eu lembro que fiquei enjoada.
Mas eu já tinha passado pelo colapso.
E ele me afetou menos do que eu pensava.
Óbvio que eu quis saber de você.
Eu fiquei me perguntando quem é que escreveu isso aqui.
Aí eu pesquisei sobre você.
Eu vi que você não tem família, não tem filhos.
Verdade que você não lembra nada do seu passado?
Não.
Você não gosta de falar disso?
Não é bem que eu não me lembre.
É como se eu assistisse o meu passado em terceira pessoa.
Sem certezas.
Eu fui encaixando aos poucos.
As lembranças que eu tenho...
Como é que eu posso explicar?
São...
Só informação.
Sem a riqueza da experiência.
Sem a textura da vida real.
Eu olhava para o meu passaporte e não me reconhecia.
Aos poucos eu fui olhando as fotos do meu celular.
Eu nem sequer consegui continuar trabalhando.
Não era um engenheiro mecânico.
Lia as coisas, os projetos.
Hoje eu não sou capaz de fazer nenhuma conta sequer.
Você se sente como se olhasse tudo de fora.
Como se não fizesse parte.
Aonde você quer chegar?
Não, estou só me perguntando.
Alguém que nunca escreveu nada na vida, nunca.
De repente escreve um livro de ficção científica cheio de detalhes enigmáticos.
Eu não quero me meter no seu processo criativo, mas...
Você não acha esquisito?
Você está me tratando como se eu fosse um paciente.
É o que você está querendo dizer?
Você se lembra mesmo de ter escrito esse livro?
Você consegue se ver, lembrar de você na frente do teclado?
Procurando coisas na internet?
Bolando uma história?
Fazendo anotações?
Você se lembra de algum momento pontual desse processo?
Por que você não fala logo o que você tem para falar?
E para de brincar de interrogatório.
Sussurros e semeaduras.
É isso que eu acho.
O mundo está lotado de sussurros e sementes do futuro que nos alertam sobre o que vai acontecer.
Mas a gente está tão imerso subindo fotos, postando, retuitando, assistindo stories, que ninguém percebe os sinais.
Que sinais?
Os sinais que interessam.
Chegamos. É aqui.
Maria Cristina Borges trabalha nesse prédio gigante.
Que lugar é esse? Um hospital?
Parece inofensivo, né? Um prédio velho.
Mas não é. É tudo menos inofensivo.
É pra gente entrar?
Estão esperando pela gente.
Paciente 63. Temporada 3. Episódio 3. Sussurros e semeaduras.
Obrigada, Vincenzo.
Antônio, Beatriz, os crachás, por favor. Venham comigo.
Roma é gelada nessa época. Primeira vez aqui?
Não. Você é...
Perdão. Sofia Palatino. Pesquisadora associada do Lázaro Spallanzani.
Maria me contou que viriam. Eu estava esperando vocês.
É. A gente precisa falar com ela. E pelo que eu sei, ela trabalha aqui com você.
Venham. Por aqui, por favor.
Que lugar é esse? O que é que vocês fazem exatamente aqui?
Vocês podem passar os crachás ao leitor, por favor?
Essas pessoas atrás do vidro. Com macacões de segurança.
Desculpe. Onde é que a gente está mesmo? O que é que vocês fazem aqui?
Trabalhamos com material biológico. Por isso os equipamentos de proteção individual, as luvas, portas duplas, tudo isso.
E os protocolos. O hospital Spallanzani é um laboratório de nível 4 de biossegurança.
Um dos mais importantes. Na Europa só tem três que nem esse.
A gente trabalha com patógenos de alto risco.
Vírus?
É. Vírus.
E o que vocês fazem exatamente? Vacinas?
O oposto das vacinas.
Vocês já ouviram falar no conceito de ganho de função?
Ganho de função. É. Eu acho que é pegar um vírus e manipular ele para aumentar o seu nível de dano. Não é isso?
É um pouco mais complexo. Mas basicamente é.
É pegar um vírus nocivo ou potencialmente nocivo e fazer ele virar algo pior.
E por que vocês fariam algo tão idiota assim?
Ao aumentar os possíveis riscos a gente pode ajudar a prever futuras pandemias e acelerar o desenvolvimento das vacinas.
Os críticos dizem que criar patógenos que não existem na natureza pressupõe um risco grande.
Porque eles poderiam escapar. Mas se você não conhecer o inimigo nunca vai conseguir derrotá-lo.
Por isso, isso aqui. O teu livro. Foi muito importante pra gente.
O meu livro?
Maria trouxe ele pra mim. E toda a minha equipe leu.
E o que o meu livro tem a ver com um laboratório como esse?
O Pegasus nasceu do sangue derramado por Medusa quando Perseus cortou a cabeça dela.
O que por si só já é uma ótima metáfora da mutação do coronavírus.
Com suas proteínas spike enroladas que nem serpentes.
No seu livro, Antônio, a variante Pegasus vai acabar com a humanidade.
O desgaste progressivo da espécie, os negacionistas das vacinas, as mutações drásticas parece assustador, não é?
Depois de ler, a minha equipe e eu, a gente ficou se perguntando como deveria ser esse vírus pra gerar um efeito desses.
Sentem, por favor. Um segundinho só.
Aqui ninguém vai incomodar a gente.
Olha, a gente não tá com tempo. A Maria sabe que a gente tá aqui? Você pode avisar pra ela?
Olha, eu vou ser um pouco técnica, mas vocês vão perceber que é necessário.
O escape imunológico, o vírus, a gente não tem tempo.
O escape imunológico, o vírus escapar de uma vacina, é o nosso inimigo.
A gente tá trabalhando com uma nova variante.
A última mutação significativa com algumas melhoras.
A gente pensou muito sobre o Pegasus, sobre a sua descrição do Pegasus.
E achamos uma resposta aqui, no seu livro. Página 89.
Algo bem desconcertante, muito ilustrador também.
Você pode me explicar o que significa uma frase que você escreveu?
Aqui. Transmissão aérea. No microscópio é branco. Parece ter asas. É rápido.
Carrega uma mutação chave. L452R e T478K.
Você pode me dizer o que significam esses dois códigos?
Não. Eu não consigo.
Como assim? Você botou esses códigos aí por acaso? É isso?
É. Ou talvez eu pesquisei em algum site. Eu não lembro.
Impossível. Não. Não dá pra achar isso no Google.
É a descrição precisa de uma mutação relevante da proteína spike de um vírus, e não de qualquer uma.
Ele ensina no lugar de arginina, na localização 452, de 1.273 aminoácidos.
Uma chave exata que faz da variante algo assustador.
A gente quer saber quem é você.
Como você descreveu exatamente a mutação mais vantajosa para que uma variante que ainda não aconteceu possa se fixar melhor na célula?
Afetar a árvore brônquica?
Chama a Maria, por favor.
Produzir uma tempestade de citocinas e escapados imunizantes.
Como é que você pôde escrever isso se você não conhece?
Se você não faz ideia do que você tá falando?
Você é um espião?
A gente tá falando de uma arma biológica sem precedentes.
Você poderia estar na cadeia por isso.
A Maria foi cuidadosa.
Ela tinha uma outra explicação.
E ela compreendeu.
Eu não tô entendendo. Ela compreendeu o quê?
A gente precisa falar com a Maria agora!
Com esses dados a gente manipulou o vírus.
Produzimos um ganho de função.
O resultado? Um vírus novo.
Que pode ler a informação de uma vacina e escapar.
Escape completo.
Vai embora, Antônio. A gente precisa sair logo daqui.
Abre a porta!
Vocês já ouviram falar do efeito Streisand?
É quando alguém quer evitar alguma coisa e o resultado é exatamente o contrário.
Puta merda! Cadê a Maria?
Vocês sabem como se chama o vírus novo?
Olha aqui, ó.
Branco. Parece que tem asas.
Olha o nome. Olhem.
Cada vírus tem um nome científico.
Uma taxonomia. Leiam.
Pigenoma A50.
P-I-G-A 50.
Mas o 5 poderia ser um S.
E o 0 um O.
Com o tempo, alguns anos, as pessoas vão começar a chamar ele de outro jeito.
Um jeito mais simples.
Pegaso.
Que graças a você, Antônio, agora existe.
A equipe construiu um novo modelo de vacina.
Agora já existe.
A equipe construiu o Pegasus graças ao seu manual de instruções.
Nesse prédio, no centro de Roma, o cavalo alado que vai destruir tudo, já existe.
Você queria impedir?
Você inspirou a sua criação.
Efeito Streisand.
Você pode, por favor, abrir a porta e chamar a Maria?
A Maria tá num táxi rumo ao aeroporto.
Ela foi se encontrar com a sua irmã, eu acho.
Daniela, né?
Ela foi pra Madri.
Daniela?
É, Maria é doadora voluntária pra uma terapia imunológica.
E os resultados chegaram.
Compatibilidade completa.
É, a minha irmã, ela tem leucemia.
Eu não sabia que a Maria era doadora.
A gente precisa sair daqui.
Abre essa porta agora!
Quando a Maria soube que era compatível, que eu podia não dar tempo, ela olhou pra mim e disse...
Chegou a hora, eu tenho que ir.
Antecipar o plano.
Vai ser hoje.
O que você tem pra dizer?
O que quer dizer antecipar o plano? Que plano?
O plano da Maria.
Vocês sabem qual é?
É por isso que vocês estão aqui, não é?
Você tá dizendo que a Maria pegou o vírus?
E se infectou?
Não, não.
Os recipientes não permitem o contágio até serem abertos.
Enlouqueceu?
O que você fez?
Vocês já se apaixonaram alguma vez?
Não quer dizer, vocês já se apaixonaram mesmo?
Eu vou fazer tudo, eu tô disposta a tudo pra ajudar a Maria.
Vocês ouviram ela?
Digo, no mínimo, vocês já escutaram as razões dela?
Abre a merda dessa porta agora!
A gente é um câncer que destrói tudo.
Duas vezes na beira da extinção, pandemia, ameaça nuclear.
Isso tudo tem que gerar uma reação.
Uma euforia.
A maior euforia de todas.
Nosso ganho de função como espécie humana.
A gente vai se sentir invencível.
E isso vai nos destruir.
Precisamos como espécie fazer alguma coisa pra nos reiniciar.
E não dá pra esperar que um líder vai mudar tudo.
A gente precisa do Pegasus.
Não vamos chegar nunca em 2062.
Esse é o plano da Maria?
Acabar com tudo?
Não, é impedir isso.
No último minuto, no fim.
Em 2062.
E como é que ela pretende fazer?
Com isso aqui.
Isso que parece uma garrafa térmica,
é um recipiente criogênico pra conservação de amostras.
Eu vou deixar vocês irem embora.
Mas vocês... vocês têm que levar isso aqui.
A Maria pediu pra eu entregar pra vocês.
Isso é muito importante.
Você só pode estar delirando.
A gente não vai comprar nada.
Eu vou deixar vocês irem embora.
Eu vou deixar vocês irem embora.
Eu vou deixar vocês irem embora.
Isso é muito importante.
Você só pode estar delirando.
A gente não vai compactuar com isso.
Deixa a gente sair.
Beatriz, calma.
Sofia, eu não tô entendendo.
O que que tem aí dentro?
Dentro do recipiente tem duas doses de antígenos
pra primeira variante do Pegasus.
Uma proteção pra primeira onda.
Eles estão a 6 graus.
Beatriz, você é médica.
Vai poder aplicar a injeção.
O recipiente consegue conservá-los
pelo menos durante 12 horas.
O mais rápido possível.
Mas se não puderem, o frigobar do hotel
pode ser uma boa pra conservar.
Ela não vai atender.
Desligou o celular.
O número que há chamado não é disponível.
Pega, Antônio.
Liberar e conter.
Maria, libera.
Você contém lá no futuro.
Eu? No futuro?
De que que você tá falando?
Como assim do que eu tô falando?
Você?
Vamos, Antônio. A gente tem que sair daqui.
Espera, Beatriz. O mensageiro?
Gaspar Marim.
O que acontece com ele?
Como assim? Ele ainda não falou com você?
Ele ainda não te contou
quem você realmente é?
Paciente 63
é uma série original e Spotify
protagonizada por Mel Lisboa e Seu Jorge
criada por Julio Rojas.