T1E5
Paciente 63, episódio 5, sopa de letrinhas.
Pro registro, doutor Elisa, 26 de outubro de 2022, 4h30 da manhã, paciente 63.
Segundo a ficha, o paciente descompensou, tentou fugir, foi contido, sedado e isolado.
Quem que estava de plantão?
A doutora Rosana. Está aqui a ficha do paciente.
Ele foi medicado mais do que precisava.
É que ele estava muito alterado.
Tá, tudo bem. Obrigada por me chamar.
Foi ele mesmo que pediu para chamar você?
Pode desamarrar.
Ele pode ser perigoso.
Não, não, ele não é perigoso. Desamarra.
Agora você pode deixar a gente sozinho, por favor?
Obrigada.
Você está bem?
Eu acordei você?
Não, eu não estava conseguindo dormir.
Não se preocupa. Me falaram que você tentou fugir.
Me dá um copo d'água, por favor?
Sim, claro.
No meu ano, qualquer médico que receitasse psicofármacos iria para a cadeia.
No futuro, eles são proibidos?
Ainda não começou o grande escândalo?
Acontece que você não deveria tentar fugir.
Pode ser perigoso.
Perigoso para quem?
Para todos. Podia acontecer alguma coisa com você.
Para todos?
Você não tem medo de qualquer coisa?
Podia acontecer alguma coisa com você.
Para todos?
Para todo mundo.
O mundo?
Não tem ninguém no mundo.
Nem nesse ano.
Bom, lá também não.
Eu não vejo quem poderia se importar com isso.
Desculpe, se hoje eu não estou tão interessante como nas outras sessões.
É que eu sinto que estou ficando meio fora de mim.
Se servir para alguma coisa, eu me importaria.
Eu me importaria se acontecesse alguma coisa com você.
Você tem um jeito bem particular de expressar amor.
Você sempre tranca e dopa as pessoas que você sente atração?
Desculpe, mas eu não sinto atração por você.
Ah, não?
Não.
Então eu me enganei.
Li errado os sinais.
Nenhuma novidade na minha vida.
Eu fico feliz em saber que você está de bom humor.
Ah, eu não estou mesmo, doutora.
Você não está me vendo, não?
Eu te tranquei porque você confessou que cometeria um sequestro.
Não.
Eu disse que você cometeria um sequestro.
Você faz parte do plano.
Você é minha aliada nessa...
Nessa missão.
Doutora Elisa Beatriz Amaral Fontes.
Eu não posso esquecer de você.
Eu não posso esquecer dos detalhes.
Você está sob os efeitos de muitos remédios.
É normal que você se sinta um pouco confuso.
Você sonhou com o Pegasus.
Isso é um bom sinal.
No futuro eu vou desenhar para você um cavalo branco com asas.
E se você está lembrando dele agora,
é porque eu vou te mostrar essa imagem no futuro.
Isso é uma prova.
Um jeito de verificar.
É a nossa senha.
Uma senha?
Uma prova de que você vai ficar do meu lado.
Escuta.
Eu acredito.
Você lembra que eu achava que você estava mentindo?
Bom, eu não acho mais.
Você acredita em mim.
Eu não acho que você mente.
Eu acho que um transtorno de personalidade
é uma condição que requer um tratamento adequado
e muito respeito e confiança.
Você acredita que eu construí um delírio.
É isso que você acredita.
Eu acredito em você como paciente.
É normal que as minhas palavras cheguem mais lentas do que os meus pensamentos.
As imagens na minha cabeça são como folhas de papel na água.
Se esfarelam como se fossem uma espécie de espelho.
É normal.
Terapia eletroconvulsiva, não é?
É isso que vão fazer comigo amanhã?
Eletrochoque.
É.
Eletrochoque.
Eu achava que isso era proibido.
É que, na verdade, há muitos preconceitos.
Você vai estar sedado.
É indolor.
Os equipamentos de hoje são de última geração.
Eu lavo.
Os equipamentos de hoje são de última geração.
Eu lamento te dizer que eles também são a última geração.
Você faria isso em você mesma?
Não torna as coisas mais difíceis do que já são.
Isso é horrível. É horrível, não é?
Doutora?
Estou aqui.
Sabe de uma coisa? Eu tentei fugir para que me pegasse.
Se eu realmente tivesse querido fugir, eu não estaria aqui.
Eu não teria ideia de onde me encontrar.
E por que você fez isso?
Eu tentei chamar você, mas eles não me chamaram.
Eu precisava chamar sua atenção. Falar com você.
Se vocês me derem eletrochoque, eu não vou conseguir voltar.
Você me disse que era uma viagem só de ida.
Eu menti. Você precisa evitar isso.
Eu sinto muito.
Se eu te convencer agora, nesse minuto, que o que eu estou dizendo é verdade...
Você cancelaria o procedimento?
Eu não posso te dar certeza.
Se eu te provar agora que eu sou um viajante no tempo...
Se eu te der uma prova irrefutável...
Algo que só você poderia saber e que confirmaria que o que eu falo é verdade...
Você cancelaria o procedimento?
Eu preciso que me dê a sua palavra.
Eu não posso te prometer nada.
Respeito e confiança são os pilares do tratamento.
Você foi quem me disse isso. Me dê a sua palavra.
Ah, deixa eu ver...
Se eu aceitar, você também vai precisar considerar a possibilidade de não me convencer.
Ao mesmo tempo, eu te peço que você aceite o tratamento, se for o caso.
A gente poderia fazer um trato.
Uma única bala, então.
Uma imagem para salvar a humanidade.
Eu estou te ouvindo.
Mas saiba que eu não tenho tatuagem de asas nas costas e que eu não pretendo ter.
Só para você não gastar essa bala.
Pegasus e o sonho... Não são provas suficientes?
É, eu tenho pensado naquilo do Pegasus.
Chama-se indução sublímbica.
Os mágicos usam isso.
Você apresenta uma imagem casual, um número, essas coisas...
O que somado a certas palavras vai configurando uma persistência dessa impressão.
Você segurava uma coisa quando eu te interroguei no primeiro dia.
Uma série de desenhos.
E um deles, eu não sei o que, mas ele estava com uma cara de um homem.
E um deles era um cavalo alado.
Ele era o único que parecia estar olhando para mim.
Eu ter sonhado com ele é um tipo de déjà vu.
Você está brincando comigo?
Não, não, não, claro que não.
As pessoas acham que elas experimentaram algo novo,
quando na verdade não foi isso que aconteceu.
O sistema visual do encéfalo está organizado em duas vias paralelas,
que processam informações complementares a velocidades diferentes, entende?
Você seria capaz de segurar um ferro em brasa
antes de mudar um milímetro sequer do seu sistema de crenças?
A ciência é um sistema de certezas.
Se eu não estivesse tão drogado, até acharia uma piada boa.
A ciência.
A ciência.
A ciência nos diz que às vezes a gente acredita estar experimentando um fato,
quando na verdade ele chega para a gente através de uma fonte, a via ventral.
Que é mais lenta e é levemente atrasada.
Quando você me perguntou o que eu tinha sonhado e disse a palavra cavalo,
a minha mente configurou o fato de que eu já tinha sonhado com isso.
Agora eu entendo porque você não conseguia dormir.
Afinal, se você precisa inventar toda uma teoria para se convencer
de que não sonhou com a porra de um cavalo com asas,
o que você precisa para acreditar em mim?
Eu não vou te pedir um fato futuro,
porque a gente tem poucas horas antes do procedimento
e não teríamos como comprovar.
Você sabe o que tem que perguntar para acreditar em mim.
Na sua ideação, você diz que nós dois estaremos juntos no futuro.
Estaremos.
Saiba que não é incomum esse tipo de pensamento entre paciente e terapeuta.
Como eu disse da primeira vez, eu nunca pensei que eu fosse o primeiro.
Mas pode continuar.
Ok. Se nós dois vamos estar juntos no futuro
e vamos criar um certo nível de intimidade,
e é melhor parar por aí,
quem sabe eu contei para você algo privado,
alguma coisa que só eu posso saber hoje.
Contou.
Um gorro horrível flutuando no rio.
Do que você está falando?
Disso. De um gorro horrível flutuando no rio.
Eu não faço ideia do que você está falando. É algum código?
Vem cá, por favor.
Seu marido tinha uma doença terminal.
Como é que você sabe disso? Como?
Seu marido estava morrendo.
Ele não queria mais continuar com a quimio.
Já não conseguia mais se mexer.
Isso não é possível.
Então você se deitou com ele,
o abraçou com força e os dois fecharam os olhos.
Você contou para ele o que iriam fazer quando voltassem à cidade que vocês amavam.
Roma.
Você recriou exatamente a rota da Vila Borghese.
A viagem anterior tinha sido no inverno e ele tinha perdido um gorro de pele e lã que era horrível,
mas que ele amava e você odiava.
E ele perdeu.
E você disse a ele antes de morrer.
Vamos para Roma para a gente buscar aquele seu gorro feio.
E ele olhou para mim e disse...
Eu já vi.
E ele olhou para mim e disse...
Eu já vi.
O gorro mais feio do mundo foi embora flutuando.
[]