PRIMEIRO DATE
Oi, desculpa a demora.
-Oi. -Trouxe aqui meu dossiê.
-O que é isso? -Menino, isso aí
é tudo que você precisa saber.
Tem até meus antecedentes criminais aqui, tá?
Você acredita? Desculpa o atraso.
É que eu tive que imprimir tudo isso.
Não tem mais lan house na cidade.
Mas aqui tem todas as informações que você precisa saber
pra esse relacionamento dar certo. Um livro aberto.
Espera aí.
Você trouxe o seu currículo pro nosso encontro, é isso?
Eu tenho uma preguiça de conhecer gente nova.
Essa coisa de até ter intimidade. Nossa, é um atraso de vida.
Tá. O que é esse valor aqui? É pretensão salarial?
Não é não. Isso aqui é a faixa de presentes
que eu pretendo ganhar.
Não me dê perfume falsificado, por favor
porque mata minhas samambaias todas.
E nada de compra coletiva de jantar que você fica
três horas numa fila pra comer uma cebola empanada, por favor.
Petit gâteau com sorvete de baunilha, não.
Eu sou capaz de perder o réu primário, tá?
Peraí... Ana, você está acelerada demais.
Você está pulando etapa.
Aí a gente vai perder aquela parte mais gostosa.
Essa que a gente vai se conhecendo ainda,
-tem esse mistério... -Que mistério? Pra que mistério?
-Não? -Você ia gostar
de descobrir, depois de um tempo de namoro,
que a borboleta que eu tenho nas costas
foi feita pra tapar uma outra tatuagem
de um mago com olho vermelho, fazendo hang loose?
Você não ia. Meu cabeleireiro demorou tanto
pra aprender a cortar meu cabelo
que eu tive que parir meu filho de boné.
Eu estou no Google Street View mijando,
no quilômetro 140 da Rio-Santos,
que é um trecho que tem Caraguá com Bertioga.
Espera aí, mas aí você está me dando informação demais também.
Mas informação demais é uma coisa boa, Jaime.
-Como que é boa? -É, sim. Daqui a dois encontros,
a gente está peidando um na frente do outro.
Mas que desespero pra sair já peidando
um na frente do outro assim, correndo. Calma.
Tem muita coisa legal antes do peido.
Eu gosto muito desse momento de conquista.
Conquista nos detalhes, Jaime. Faz igual o Fernando...
Ai, saudade do Fernando.
-Fernando é o quê? Teu ex? -Não.
Fernando é meu gerente. Ele me apresentou
o Open Finance do Itaú. Você sabia
que você pode compartilhar os seus dados de outros bancos,
se você quiser, é claro, né. O Fernando me alertou
que eu estava gastando muito pra tratar um mofo
-que tinha nas costas de Odete. -Quem é Odete?
A minha calopsita.
Ele abriu uma linha de crédito pra mim
pra eu poder reformar uma infiltração
que tinha atrás do futon onde Odete dorme.
Olha, ele mudou a minha vida, tá?
Que eu tinha que ficar colocando papel de parede,
usar cola de sapateiro...
Eu gosto. Cola de sapateiro tem um cheirinho
que dá um negocinho, mas aí me ataca minha rinite.
Página 52, aliás. Nossa, que bonitinho.
O que foi isso que você pediu pra gente?
Isso aí é um escondidinho de camarão...
-O que foi? Ana? -Jaime, eu sou alérgica a camarão.
O quê? Puta merda...
Onde é que é a página aqui de alergias alimentares?
-Jaime... -Qual é a página? É 42? Qual?
-Página oitenta e... -Oi?
-Posso perguntar, Jaime? -Vai lá, vai lá.
-Qual o meu tipo sanguíneo? -AB.
-Acertou. -Fácil.
-Qual o meu calçado, Jaime? -Espera aí, espera aí.
-É 35 pé direito e 36 pé esquerdo. -Você está certo dessa resposta?
É, 35 pé direito e 36 pé esquerdo.
Certa a resposta.
Qual é o meu filho preferido, Jaime?
O caçula.
Acertou. Quantos caras eu peguei na faculdade?
Putz, espera aí. Eu sei essa. Foi...
-Não, não pode consultar. -22?
Errada a resposta. Isso foi na pós. Eu peguei 38 caras na faculdade.
Você manda mal, hein, Jaime.