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Tecnocracia, Tecnocracia #52: Ao trocar transparência por lucro, Facebook coloca em risco toda a sociedade (1)

Tecnocracia #52: Ao trocar transparência por lucro, Facebook coloca em risco toda a sociedade (1)

Até o século XIX, baleias iluminavam ruas e aqueciam casas. Não as baleias em si — ver o maior animal do planeta trocando a lâmpada de um poste seria alucinógeno demais até para o Buñuel —, mas algo que elas carregam. Durante décadas, um dos produtos mais cobiçados provenientes da carcaça da baleia foi a sua gordura, da qual químicos eram capazes de extrair um óleo. Entre algumas utilidades, como produzir margarina, esse óleo também servia como combustível para os recém-inaugurados sistemas de iluminação pública nos Estados Unidos e na Europa. Mais que isso, o óleo de baleia foi usado como lubrificante para as máquinas da Revolução Industrial. A demanda pelo óleo fez a indústria baleeira crescer até atingir seu ápice em 1820.

“Novas tecnologias, incluindo armas com arpões e navios a vapor, tornaram os baleeiros ao redor do mundo mais eficientes. A frota de baleeiros dos EUA, baseada na Costa Oeste, operava centenas de navios no Atlântico Sul, Pacífico e no Índico. Caçar baleias era uma indústria de milhões de dólares e alguns cientistas estimam que mais baleias foram mortas no começo dos anos 1900 do que nos quatro séculos anteriores somados”, diz reportagem da National Geographic. Herman Melville se baseou nesse massacre para escrever um clássico da literatura mundial — Moby Dick é de 1850, algumas décadas após o ápice.

Havia outros tipos de óleos disponíveis, mas nenhum queimava tão bem e com tão pouco resíduo como o de baleia. A matança só terminou a partir de 1854, quando descobriu-se que era possível sintetizar um óleo ainda mais eficiente a partir de um óleo cru extraído de bolsões debaixo da terra.

O geólogo canadense Abraham Gesner foi capaz de transformar carvão em uma substância mais clara cuja queima não produzia tanta fumaça escura. Era a querosene. Anos depois, o norte-americano Samuel Martin Kier inventou um processo que chegava na mesma querosene a partir daquele caldo escuro e espesso encontrado debaixo da terra. Saem as baleias, entra o petróleo. Este foi o ponto zero da indústria que domina o consumo de energia da humanidade.

A indústria petrolífera está ativa há cerca de 150 anos — o primeiro poço de petróleo comercial no mundo foi aberto em 1858 no Canadá. Dada a importância que tem em nossas vidas, parece muito mais tempo. Nesse um século e meio, a indústria petrolífera passou por uma série de fases acompanhando sua crescente relevância. Começa com as explorações experimentais, vai para as primeiras histórias de sucesso, passa pela horizontalização do negócio com empresas operando transporte e refino, continua com a consolidação do mercado e chega mais ou menos a como estamos hoje, com a indústria sob uma pressão inédita.

Se você assistiu (e eu te aconselho a ver, caso não tenha), “Sangue negro” cobre essas primeiras fases em que o negócio se provou e, com isso, desencadeou uma corrida maluca para achar, comprar e colocar para funcionar poços em regiões com reservas de petróleo e como quem teve sucesso nessa empreitada virou barão da energia. As baleias se salvaram, pelo menos temporariamente, dos arpões. O que elas não contavam é que havia outra ameaça no horizonte: a temperatura da água e o volume de plástico lançado no oceano. Ambos também eram causados pela necessidade humana de energia.

O nome mais conhecido desse fenômeno que hoje a gente chama de “Big Oil” foi John Rockefeller, um sujeito que fundou e liderou a Standard Oil, a maior empresa petrolífera do mundo. Entre algumas inovações técnicas no setor de energia, como o processo de Frasch para extrair enxofre, a Standard Oil também inovou na forma como atacou o mercado para formar trustes, ou seja, a integração de todos seus negócios como forma de dominar todo o setor, ou impedir que rivais conseguissem se fortalecer no mercado ao praticar margens negativas (você vende um produto com prejuízo para quebrar um rival que, ao contrário de você, não tem gordura para sobreviver). A história da Standard Oil durou 41 anos, até 1911, quando a Suprema Corte dos EUA entendeu que a empresa era um monopólio e decidiu pela sua quebra. Existe um livro excelente que reconta a ascensão e queda da Standard Oil chamado The prize: The epic quest for oil, money, and power, do Daniel Yergin. O livro, que tem uma edição em português da editora Paz & Terra chamado O petróleo: Uma história mundial de conquistas, poder e dinheiro, ganhou o Prêmio Pulitzer. A gente já falou sobre a questão da Standard Oil no episódio do Tecnocracia sobre monopólios.

A quebra do monopólio da Standard Oil foi a decisão correta e resolveu alguns problemas por algum tempo, como a falta de competitividade no setor, mas não corrigiu todos os problemas para sempre. Eu não estou defendendo que não havia nada a ser feito, tá? Existia, sim, a necessidade de devolver competição ao setor. A quebra foi a decisão correta, mas a gente precisa entender quais foram os desdobramentos daquela decisão para não ficar com aquela síndrome de filme da Disney — na vida real, o “felizes para sempre” não encerra a história.

Após ser quebrada, a Standard Oil foi, aos pouquinhos, se reconstruindo. Das sete empresas desmembradas, o mercado norte-americano tem, hoje, quatro: a Chevron, a ExxonMobil, a BP e a Marathon. É um fenômeno muito parecido com o que a gente vê em tecnologia. No Brasil, a quebra do sistema Telebrás em 1998 criou 12 novas empresas de telefonia. Aos poucos, o sistema foi se concentrando. Hoje a gente tem três saudáveis, a Tim, a Claro e a Vivo, e uma nos seus estertores há quase uma década e prestes a ser repartida entre as três rivais, a Oi. mas isso é assunto para um outro episódio. Pode ser, inclusive, o segundo da série “O que foi”.

Um dos problemas que a quebra não resolveu foi a questão de como essas gigantes petrolíferas lidavam com seus dados.

A partir da década de 1940, elas passaram a financiar estudos para entender o impacto que seus negócios tinham no planeta. Os diferentes estudos conduzidos por diferentes cientistas chegaram majoritariamente a uma mesma conclusão: a queima de combustíveis fósseis naquela escala libera monóxido de carbono suficiente na atmosfera para desengatilhar mudanças relevantes no meio ambiente. Uma das principais mudanças é no clima: o excesso de carbono na atmosfera após a queima do petróleo faria com que a temperatura da Terra aumentasse o suficiente para causar impactos catastróficos para humanos, fauna e flora.

Com as conclusões em mãos, o que fez a Big Oil? Mais que esconder o problema, criou uma estratégia de comunicação baseada em confundir. “Por décadas, as principais empresas de petróleo e gás entenderam ciência por trás das mudanças climáticas e os perigos dos combustíveis fósseis. Ano após ano, os principais executivos ouviram dos seus próprios cientistas alertas explícitos e frequentemente pintando um cenário terrível. Em 1979, um estudo da Exxon defendeu que a queima de combustíveis fósseis ‘causará efeitos ambientais dramáticos' pelas décadas seguintes. ‘O problema potencial é enorme e urgente', conclui o estudo. Mas, em vez de confiar nas evidências das pesquisas que financiavam, as maiores petrolíferas trabalharam juntas para enterrar as descobertas e fabricar uma contra narrativa que minasse o crescente consenso da ciência sobre as mudanças climáticas. A campanha da indústria do combustível fóssil para criar incerteza deu certo durante décadas ao confundir o entendimento público dos crescentes perigos do aquecimento global e a falta de ação política na questão”, diz reportagem do jornal britânico The Guardian.

E como nós só soubemos desses estudos agora? Na última década, as petrolíferas se viram envolvidas em centenas de processos relevantes sobre o papel que tiveram nas cada vez mais evidentes mudanças climáticas. Esses processos, em vários países pelo mundo, forçaram as empresas a entregar documentos. Assim, só mais de 50 anos depois é possível entender como o Big Oil, em vez de resolver o problema explícito e grave, investiu para sabotar a ciência como forma de confundir o público, evitar punições e manter seu lucrativo negócio intocado.

Você, bonitinho e bonitinha, já deve ter entendido para onde nós estamos indo. Cinquenta anos depois do Big Oil, nós temos novos gigantes que vêm demonstrando pouco ou nenhum comprometimento com o que os dados revelam deles mesmos. No Tecnocracia desta quinzena, a gente vai falar sobre como, ao controlar o acesso e, consequentemente, a análise dos dados do que acontece em suas plataformas, a Big Tech também esconde a realidade. Mais do que combater fake news, as próprias plataformas estão nos prendendo em realidades paralelas e fragmentadas. A cada quinze dias (às vezes um pouco mais, às vezes muito mais), o Tecnocracia faz um resgate histórico para mostrar que a tecnologia pode ser nova, mas a gente já viu métodos e comportamentos nocivos muito parecidos há décadas. Tudo é reprise. Eu sou o Guilherme Felitti. Aquele lembrete esperto: o Tecnocracia está na campanha de financiamento do Manual do Usuário. Quem paga a partir do plano II, de R$ 16 por mês, tem acesso ao Tecnocracia Balcão, um programa ao vivo feito uma vez por mês, e um adesivo do podcast. Se você quiser, acesse manualdousuario.net/apoie.

Em novembro de 2016, o Facebook comprou mais uma startup, mas ninguém deu muita atenção já que a rede social já tinha desembolsado um total de US$ 22 bilhões comprando três dos serviços mais bombados da época nos anos anteriores: o Instagram, o WhatsApp e o Oculus. O alvo de aquisição em novembro de 2016 (sem valor revelado) foi o Crowdtangle, uma plataforma gratuita que permitia entender como conteúdos se espalhavam pelas mídias sociais, como Facebook, Twitter, Instagram e YouTube. Era uma plataforma excelente para veículos de comunicação entenderem quais assuntos vinham bombando e como seus conteúdos estavam se saindo socialmente. Ao comprar o Crowdtangle, o Facebook garantiu a base de uma estratégia praticada até hoje para controlar quem pode ver e analisar o que rola dentro da rede social.

Uma pequena explicação técnica. Se você quiser monitorar o que acontece nos quatro grandes serviços sociais do mundo — Facebook, Instagram, Twitter e YouTube —, do que você precisa? Para começo de conversa, os dados brutos. Ter os dados brutos é essencial para fazer análises mais profundas do que só quantas contas citaram sua empresa nesta semana comparada à anterior, algo ofertado pelos serviços de social listening disponíveis no mercado. O acesso a dados brutos por essas plataformas é muito limitado, já que o objetivo principal é deixar o cliente preso ali dentro, vendo gráficos simplórios e aqueles insights a que todo mundo tem acesso. Se você quiser se aprofundar na análise, o ponto de partida é o dado bruto.

Como obter os dados brutos? O principal caminho é por APIs. APIs funcionam como balcões em que você chega, pede um dado e o balconista te entrega aquele dado — só que é tudo automatizado. APIs são criadas oficialmente pelos donos dos serviços para evitar que milhares de pessoas criem robôs para extrair dados diretamente das páginas (o chamado “scraping”), algo que impactaria o desempenho do serviço.

Eu critico publicamente YouTube e Twitter por uma série de decisões equivocadas, não é surpresa nenhuma. Mas ambos oferecem APIs abertas que permitem a fiscalização e o monitoramento independentes do que rola dentro das plataformas sem a intromissão do departamento de relações públicas. Qualquer um com o mínimo de conhecimento técnico sobre programação pode fazer robôs que monitoram quem publica, quem apaga, quem está subindo, quem está descendo e quais assuntos estão bombando. E isso sem depender do recorte ou da boa vontade das plataformas — ao oferecer os dados brutos, quem criou o robô tem liberdade para fazer sua própria análise. A análise que a Novelo Data, meu estúdio de data analytics, faz sobre a extrema-direita no YouTube é pela API. O monitoramento que o projeto 7c0, do Lucas Lago, faz de tuítes excluídos por parlamentares brasileiros também é por API.

O Facebook e o Instagram oferecem APIs, mas o uso é limitado aos próprios conteúdos — você pode consultar o conteúdo que você publicou na sua página. Quer raspar o conteúdo de outras páginas? Não pela API.

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