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Flavio Mendes (Bossa Nova), Mas que Nada (Jorge Benjor), O ARRANJO #26 (English subtitles)

Mas que Nada (Jorge Benjor), O ARRANJO #26 (English subtitles)

1963, centro do Rio, estúdio da gravadora Phillips,

o então desconhecido Jorge Ben grava um compacto de 78 rotações com Mas que Nada e Por causa de Você, Menina

O diretor da companhia ouve as faixas e comenta com o produtor do disco que o cara é bom,

mas que a gravação não poderia sair com essa pronúncia de você

Ainda não era o voxê, carregado no x, que ficou famoso, ainda era discreto

O produtor, Armando Pittigliani, diz ao diretor: deixa que amanhã eu regravo a voz com ele

Mas ao invés de pedir pra amenizar o X, ele pediu ao Jorge pra acentuar o voxê

Jorge estranhou, mas era ainda o seu primeiro disco, e os cantores inciantes ouvem quase cegamente os produtores

Jorge regravou a voz, carregando no voxê, e quando o diretor ouviu o disco pronto ele quase despediu o produtor

Mas as músicas já estavam lançadas e estouradas no Brasil inteiro,

Jorge já era conhecido como o cantor que cantava voxê,

o que alimentou polêmicas e controvérsias na imprensa, ajudando a divulgar o disco

Eu sou Flávio Mendes, músico e arranjador, esse é O ARRANJO, seja bem vindo

Se você está gostando de assistir aos episódios, pense na possibilidade de apoiar O ARRANJO

e assim contribuir para que eu continue a produzir os programas

A partir de apenas 10 reais

Acesse apoia.se/oarranjo ou se você mora fora do Brasil acesse patreon.com/oarranjo

Mas que Nada é o primeiro sucesso de Jorge Ben, hoje usando o nome artístico de Jorge Benjor,

e é a sua música mais conhecida fora do Brasil

A primeira gravação de Mas que Nada é do disco Tudo Azul, do organista Zé Maria e foi gravado em 1962,

e Jorge Ben aparece como crooner, o cantor do conjunto

Nesse disco ele grava também Por Causa de Você, Menina, mas sem a pronúncia acentuada do X em você

"Voxê" - LP Samba Esquema Novo (1963)

"Você" - LP Tudo Azul (1962)

Foram essas gravações do disco de Zé Maria que o produtor da Phillips, Armando Pittigliani, ouviu,

e por causa delas Jorge Ben foi contratado

Quando o compacto da Phillips com as mesmas duas músicas saiu foi um sucesso imediato:

em duas semanas Jorge já era o artista mais executado em todo o Brasil

E quando o LP foi lançado bateu todos os recordes, vendendo 100 mil cópias em pouquíssimo tempo,

e o disco inspirou muitos artistas, até hoje

Gilberto Gil ouviu o LP Samba Esquema Novo ainda na Bahia, e declarou pro seu amigo Caetano Veloso

que iria parar de compor porque tinha surgido um artista que já fazia tudo o que ele achava que deveria fazer em música

Danilo Caymmi tinha 15 anos e apesar de ser de uma família de músicos

ainda não tinha se interessado verdadeiramente pelo caminho musical

"Eu tava dançando um negócio e alguém botou na vitrola o Mas que Nada do Jorge Ben, que era o sucesso da época

Era o quinteto do Meirelles, e foi aí que deu o click da música pra mim,

que eu não tava nem aí, mas esse Jorge Ben me tirou do sério"

A originalidade de Jorge Ben era impressionante:

em meio ao movimento da Bossa Nova ele apareceu tocando samba como quem tocava rock,

com um caldeirão que misturava sons da África com o jazz, o samba e o maracatu,

e era irresistivelmente pop, dançante e moderno

Nos seus primeiros anos de carreira, Jorge foi absorvido por todos os movimentos de música da época,

ele era Bossa Nova como era Jovem Guarda e como era Tropicalismo, mas sendo sempre ele mesmo

É a versão do disco Samba Esquema Novo, de 1963,

com o arranjo incrivelmente moderno de J. T. Meirelles, que eu vou analisar nesse vídeo

UM POUCO DE HISTÓRIA

O avô materno de Jorge é da Etiópia, e ele garoto cresceu ouvindo os parentes falando numa língua que ele não entendia

O avô de Jorge saiu da Etiópia porque o país estava sendo invadido, na Primeira Guerra Ítalo-Etíope,

em que a Itália tentou invadir o país africano mas acabou sendo derrotada, em 1896

Jorge conta que o avô entrou num navio no mediterrâneo sem saber direito pra onde estava indo

Na música Criola, de 1969, Jorge se refere a esse fato quando canta

que "por um descuido geográfico nasceu no Brasil num dia de carnaval"

Mas o que mais impressionava a criança Jorge eram os cantos etíopes que ele ouvia da mãe,

sempre com acompanhado de um batuque de algum parente

A Etiópia era um país referência porque foi um dos poucos países africanos que não foram colonizados por europeus no século XIX

O ativista jamaicano Marcus Garvey pregava que os africanos e seus descendentes eram um povo escolhido por Deus

e defendia que todos deveriam voltar para a África e constituir um só nação

Parte das ideias de Garvey serviram de base para o movimento Rastafári, ele é considerado um dos Profetas da religião

Em 1927 Garvey, que vivia nos Estados Unidos, profetizou:

um rei negro vai surgir, e isso significará que a libertação do povo africano estará próxima

Em 1930 o imperador Hailé Selassié assumiu o trono na Etópia e muitos pensaram que Garvey se referia a ele

- o nome de batismo do imperador é Ras Tafari Makonnen

Jorge disse, ali por volta dos anos 1970, que ele próprio descendia de Selassié,

falou isso numa reunião na sua gravadora na época, a Philips, e que isso influenciava o seu modo de cantar e compor

E disse numa entrevista ao jornal Pasquim, também nos anos 70, que era meio muçulmano,

e seu jeito de cantar tem algumas influências árabes

No improviso vocal que ele faz no fim dessa gravação de Mas que Nada ele usa uma nota da escala menor árabe,

na verdade é uma blue note, mas que dá esse sabor oriental

Mas ele sempre se disse católico, foi coroinha quando criança

e durante a adolescência foi interno de um seminário, onde teve contato com a música sacra

"Com 13, 14 eu fiz seminário menor

No seminário menor tinha aula de piano, tinha aula de teclado, de órgão, né,

eu já sabia isso tudo pra cantar, porque cantava-se muito no coral, gregoriano"

Além do contato com a música, nos seus dois anos de seminarista Jorge se aprofundou na literatura,

especialmente na leitura de teologia e filosofia

Um dos grande autores que ele leu foi São Tomas de Aquino, inclusive aprendeu latim por causa dos textos do santo,

e deu o nome de Tomaso para um dos seus filhos - o nome em italiano do santo é Tomaso d'Aquino

Jorge afirma que o São Tomás era um alquimista, e que a Igreja católica sempre proibiu que se dissesse isso

Aliás a alquimia é um dos seus temas preferidos, tanto que dedicou um LP inteiro ao tema, A Tábua de Esmeralda

Jorge tinha aprendido a tocar violão no tempo em que serviu o exército

A sua mãe já tocava o instrumentou e lhe deu de presente o violão e o método que ela usava, um método antigo,

de Patrício Teixeira, e Jorge aprendeu muito rápido

Ele cresceu no bairro do Rio Comprido, que é um bairro vizinho da Tijuca,

onde uma turma de adolescentes chegada ao rock'n'roll se reunia no Bar Divino,

na esquina da Rua Haddock Lobo com a Rua do Matoso

Dentre esses adolescentes estavam os futuros artistas Erasmo Carlos, Roberto Carlos e Tim Maia

Tim nessa época tinha o apelido de Tião Marmiteiro, porque entregava as marmitas que o seu pai fazia e vendia na região da Tijuca

Tim odiava o apelido de Tião Marmiteiro e teve a ideia de adotar um novo apelido: Babulina

Porque uma das músicas que Tim cantava nessa época era Bop-a-Lena, sucesso de Ronnie Self,

que com o inglês macarrônico de todos soava "Babulina"

Quando encontrou Erasmo no Bar Divino e contou a ideia do novo apelido, ouviu do amigo:

Eu acho um nome ótimo, mas tem um cara do Rio Comprido que de vez em quando aparece aqui

e também toca violão e canta essa música

Ele já tem o apelido de Babulina e pode não gostar, e ele é muito mais alto e muito mais forte do que você"

O garoto Tião desistiu do apelido e acabou conhecendo o Babulina do Rio Comprido e foram muito amigos

O irmão mais velho do Jorge era oficial da Marinha e viajava muito

Numa das viagens ele trouxe pro Jorge um disco com Bop-a-Lena e uma camiseta com o nome da música

O apelido pegou, até hoje os amigos o chamam de Babulina

Babulina se mudou com a família para Copacabana e disse que foi um choque:

um bairro moderno, com as meninas andando de biquíni,a praia, novos amigos

Um desses novos amigos da praia era Manuel Gusmão, que já era baixista profissional e tocava no Beco das Garrafas

O Beco é, na verdade, uma rua sem saída no coração de Copacabana e na época tinha 3 casas de shows,

onde estava surgindo o samba jazz

Jorge passou a frequentar o Beco das Garrafas e logo virou profissional,

mas primeiro como pandeirista, tocando com o Copa Trio

Numa noite ele tava assistindo o show do grupo do saxofonista J. T. Meirelles e seu amigo Gusmão estava no contrabaixo

Já era final de noite, a boate estava quase vazia, mas ele deu uma canja tocando Mas que Nada no violão

O produtor da gravadora Phillips, João Mello,

estava lá e perguntou se Jorge não queria fazer um teste na gravadora, mas Jorge achou que não era pra valer

Quinze dias depois João Mello voltou, e o resto é história

Com o sucesso do compacto, a gravadora Phillips resolveu gravar outras faixas pra completar o LP,

que recebeu o nome de Samba Esquema Novo

E além do J. T. Meirelles, outras faixas do disco foram arranjadas por Lindolfo Gaya, Carlos Monteiro de Souza e Luis Carlos Vinhas

Mas o grande sucesso foi mesmo Mas que Nada, que alcançou um sem número de gravações pelo mundo todo

Em 1966 o pianista brasileiro Sérgio Mendes lançou Mas que Nada nos Estados Unidos

e a música foi um grande sucesso nas paradas

E esse sucesso se repetiu nos anos 2000 quando o grupo Black Eyed Pies, com o próprio Sérgio Mendes,

fez uma versão que estourou, foi até parar em diversas plataformas de videogame

MELODIA

Mas que Nada é um samba, e ainda que seja um samba que é misto de maracatu, como diz a letra, é essencialmente um samba

Como boa parte das músicas de Jorge Benjor, é em tom menor

O curioso é que as músicas em tom menor tendem a ser mais tristes,

mas não é, de forma nenhuma, o caso das músicas do Jorge Ben, que desde 1989 assina Jorge Benjor

"O tom menor é melodioso mas ele é triste, aí você tem que ir fazendo, vai, vai, até achar uma solução"

Uma característica marcante da melodia de Mas que Nada é misturar duas escalas menores diferentes,

a escala menor natural e a escala menor harmônica

Na primeira parte da canção, a partir de "Mas que nada, um samba etc"

a melodia está no modo menor natural, tem essa característica melodiosa, mas que pode tender para o triste

No tom da gravação a nota fá natural dá esse clima

Mas no final da parte ele acha essa solução, que ele falou,

e o fá passa a ser o fá sustenido, conduzindo pra resolução na tônica

"Ela é triste, mas ela não é triste, porque ela tem um final feliz"

ORQUESTRAÇÃO

O samba que é misto de maracatu causou uma certa estranheza nos músicos de samba quando Jorge começou a carreira

Era o começo de uma revolução que resultaria depois, independente da vontade do Babulina,

em movimentos como o sambalanço, a pilantragem, o samba-rock e até mesmo o pagode romântico dos anos 1990

A levada característica do Benjor se afasta do compasso binário do samba tradicional,

e rapidamente se consolida como uma levada em compasso quaternário, como é comum nas músicas pop, no rock e no jazz

"O meu samba carioca, não tem uma leitura de, os próprios músicos que tocavam samba em conjuntos no Rio,

eles não tinham uma leitura da minha batida.

Eles achavam que era um samba, mas não era.

Tanto que o meu primeiro disco foi um conjunto de jazz, uma banda de jazz, que gravou comigo.

Eles que sacaram, que tiveram uma leitura, foi o Meirelles e o Copa 5,

eles fizeram o meu primeiro disco e o segundo, porque eles tinham uma leitura própria"

J. T. Meirelles, ou João Theodoro Meirelles, saxofonista e flautista, começou a sua carreira aos 17 anos, tocando no conjunto de João Donato

Ele já era um músico respeitado no circuito samba jazz aos 23 anos,

quando foi convidado pelo produtor Armando Pittigliani pra ser o arranjador de algumas faixas do LP Samba Esquema Novo, com o seu grupo Copa 5

Nessa faixa tocam, além do violão de Jorge e do sax de Meirelles, Pedro Paulo no trompete,

Manuel Gusmão no baixo, Toninho Oliveira no piano e Dom Um Romão na bateria

A FORMA DO ARRANJO

A forma de Mas que Nada é AABCB, em que a parte A é a parte da onomatopeia na letra, o ariá raiô

O arranjador Meirelles organizou a forma do arranjo assim:

introdução, a música inteira, e a repetição dos A's

Depois uma parte instrumental, volta na parte C, depois B e os últimos A's, antes da coda, que termina em fade out

A introdução começa com o uníssono dos dois sopros, trompete e sax tenor

O uníssono está na região média do sax e na região grave do trompete, o timbre é suave

A bateria toca no prato de condução, aberta, bem samba jazz

O comentário nos sopros é no espaço da melodia

O violão do Jorge ainda não está tocando, a base é só o trio

Entra o violão antecipando o acorde e o suingue está completo

O sopros tocam nota longa quando a melodia está andando

e fazem comentários quando a melodia dá espaço

A bateria faz a levada no contratempo e no aro da caixa

Mesmo esquema nos sopros: notas longas e comentários sutis

Os sopros vão tocar em oitavas, o trompete vai pra uma região mais aguda,

o tenor não tem essas notas tão agudas, então ele toca oitava abaixo

O único divisi nos sopros na música

Divisi significa que eles tocam notas diferentes, abrem duas vozes

O contrabaixo faz baixos invertidos, não toca as tônicas dos acordas

As mesmas frases de sopros, com notas longas e comentários

Um improviso vocal na coda, com aquela blue note com sabor árabe

Notem que o reverb fica diferente na voz, mais longo

A voz vai pro falsete, onde ele consegue atingir notas bem agudas

Bom, esse foi O ARRANJO, se você gostou dá um like, se inscreve no canal,

e pense na possibilidade de ser um apoador do programa, a partir de apenas 10 reais

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Muito obrigado, até uma próxima

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